17/05/2003
Número - 315

 


Antonio Júnior




RECORDAÇÕES BACANAS DE UM POETA POLIFÔNICO


“Oh, sim, eu estou cansado
Mas não pra dizer
Que eu estou indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto (quem sabe)”
(Vapor Barato, Macalé-Salomão, 1970)


Conheci Waly Salomão em torno de 1985, 86, em plena madrugada de carnaval soteropolitano. Embriagado e cheio de juvenil eletricidade, eu beijava inúmeras bocas suculentas sob o braço estirado de Castro Alves. Waly aproximou-se, acompanhado da irreverente Dedé, a ex-musa de Caetano, e disse-me: “Certo, baby, dispa as vestes d´alma, avacalhe o provincianismo com o pólen da sua beleza”, gargalhando estalante. Anotei a frase no diário, intrigado com aquela figura mediúnica, de cara larga. Dias depois, numa festinha pós-momesca, tão típicas de uma Salvador pop-cultural, fomos apresentados pelo amigo Pedrão, o Belo, filho de Gilberto Gil. “Eis um encontro de poetas”, disse. Eu flertava com Narinha Gil, mas como esta estava com a perna engessada, terminava caindo na boêmia com Pedrão, o seu irmão gente boa. Tímido, não soube o que conversar com Waly, mas gaguejei a impressão pedida por ele sobre meus poetas favoritos. Se não me falha a memória, falei dos beats o pouco que sabia. Cheio de idéias, falante e espiritualmente avassalador, confessou devorar livros desde menino, em Jequié, “como traças”. Eu ainda não conhecia a sua original e ousada produção poética.

Voltei a encontrá-lo num quarto do Grande Hotel da Barra, ao visitar o poeta e meu amante ocasional, Antonio Cícero, irmão da cantora cult Marina Lima. Foi uma noite de farra, muito louca, típica dos anos sem juízo, se um dia cheguei a tê-lo. Um clube masculino secreto de vícios e excentricidades. Waly relatou um possível primeiro encontro nosso antes do carnaval recordado, na boate Noites Cariocas, no Rio de Janeiro, apresentados pelo diretor global Jorge Fernando. Não lembrei, devia estar pra lá de Marrakesch, mas contei que na mesma época, aos 17 anos, num verão de corações loucos, ganhei em Copacabana o concurso Garoto Zona Sul, desfilando pelado, com Lady Francisco, Elke Maravilha e uma bichona juiz de futebol como jurados. Acelerado, continuei falando como senti repulsa física e prazer intelectual ao beijar os lábios murchos do escritor argentino Manuel Puig. “Conheci-o na Cinemateca do MAM, depois da sessão de um dramalhão mexicano com a Maria Félix, e babei quando soube que escrevera A Traição de Rita Hayworth”. Waly caiu na gargalhada com as simplórias experiências. Antes da partida, alertou-me: “Um animal fareja os nossos sonos”.

Uma década depois, já homem feito, convidado pela Embaixada Brasileira em Lisboa para a pré-estréia portuguesa de “Terra Estrangeira”, de Walter Salles, encantei-me com Gal Costa cantando “Vapor Barato”. A música, de 1970, composta por Waly e Jards Macalé, faz parte do melhor disco da cantora baiana: “Fa-Tal”. Lembro dos tempos em que quase menino, numa Itacaré mal iluminada, na beira do cais, ouvia um hippie gaúcho cantá-la. Notei finalmente a minha ignorância sobre Waly, passando a lê-lo e a pesquisar a sua trajetória esfuziante e original. Uma das personalidades mais transgressoras e fascinantes da cultura brasileira, amigo íntimo do genial Torquato Neto, lançou com ele a antológica revista “Navilouca” nos anos do desbunde, e rabiscou os poemas do que seria seu livro de estréia, “Me Segura qu´eu Vou Dar um Troço” (1971), numa cela do Carandiru, no Pavilhão 2, condenado por uso de maconha. Herdeiro do transe e do tom demiúrgico de um Glauber Rocha, foi personagem-chave do Tropicalismo, e parceiro musical de Gil, Macalé, Caetano, Cícero, Adriana Calcanhotto e Itamar Assumpção, autor de sucessos como “Mal Secreto” e “A Voz de uma Pessoa Vitoriosa” (1978).

Presença inovadora e inspiradora, caracterizado pela vitalidade, produziu o disco e o show “Antimonotonia” (1997), de Cássia Eller, e foi também performer, artista plástico, editor, videomaker. Filho de um sírio com uma sertaneja, o baiano Waly era conhecido por sua inteligência arrebatadora, doçura, energia destrutiva e humor anárquico. Na semana de sua posse na Secretaria Nacional do Livro, em Brasília, chocou mais uma vez muita gente boba com suas idéias lúcidas: “A maioria das pessoas analfabetas com quem converso tem faro, intuições, inteligência, e já percebo que pessoas de classe média que passam pela universidade são freqüentementes tacanhas, sedimentadas em esquemas já prévios, não aprenderam o mínimo, que é pensar por si. Copiam esquemas importados e por isso são tristes, sofrem de complexos de inferioridade cultural”. Pensava em desenvolver uma política de “fome do livro”, como alavanca para a ascensão social.

Poeta perturbador, de originalidade hipnotizante, publicou o seu último livro em 2001, “O Mel do Melhor”, dedicado ao iconoclasta Hélio Oiticica. Em 1996, ganhou o Prêmio Jabuti com “Algaravias”. Haroldo de Campos saudou-o como “inventivo poeta e letrista pop-erudito”. No cinema, interpretou o satírico poeta barroco do século 17, Gregório de Mattos, o seu preferido, num filme ruinzinho de Ana Carolina. Waly Salomão, que assinava Sailormoon nos anos 70, morreu este mês, aos 59 anos, lutando contra o câncer. Ano passado entrevistei-o via internet. Ele respondeu as nove perguntas com poemas inéditos para cada uma delas. Fiquei pasmo. Mesmo pouco dedicado a saudade, creio que logo terei-a desse poeta da contracultura, e confesso que como muita gente, ainda guardo “meu casaco de general”.


Não Existe Paraíso
por Antonio Júnior
para Waly

Não acontecerá o milagre previsto (assim creio) / Nada vai mudar inesperadamente /
Estou só na caverna: isto é uma aventura lírica. / Enquanto a memória contempla o trovador / que parte através de palavras / Vejo-o, invisível na luz,
Seria o caso de derramar lágrimas? / Por que razão olho assim o infinito enquanto / nada mais que uma dor atravessa a Bahia deserta? / Mas aqui estão os versos, a melodia, / o riso e o escracho. / Não devo render-me a melancolia, / a falta também há de passar: / a saudade é afeição povoada de sofrimento.
Ah, sacanagem, o poeta de boca de largos sorrisos / regressa ao murmúrio onde se abriga / o abstrato eletrizante, / rumo aos jardins que não se acabam. / Adeus, baby. “Não existe paraíso”, responde, perdido / nos jardins pop-eruditos / com flutuantes árvores-parangolés. / É o caminho que todos nós, poetas, / fartos de vidinhas literários, tomaremos um dia. / Não há outro.




(17 de maio/2003)
CooJornal no 315


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm