31/05/2003
Número - 317


Antonio Júnior




O HOMEM-INSETO


Num seminário de responsabilidade social tão típico nesta época irresponsável, várias figuras debatiam sobre a fome, franzindo a testa, apontando imagens de crianças subnutridas num telão, definindo estratégias de ajuda ao menor. Que tal uma horta comunitária em cada comunidade carente? Uma campanha publicitária maciça comoveria a população? Munidos de notebooks e inconformados com o ar condicionado demasiado frio, o público parecia inquieto. Um hotel cinco estrelas era o cenário, com intervalos no palavrório morno a cada duas horas para um farto coffee break, além de almoços faustosos e a promessa de uma boa farra de confraternização ao anoitecer. Refletindo sobre a pobreza dos irmãos sem sorte, fui um dos convidados privilegiados desse risível evento. Entediado, bebi inúmeros cafés para não cochilar e me senti uma pulga. O fato é que o homem acredita que a caridade e a filantropia são pura tolice, coisas de solteironas ou senhoras aposentadas.

É outra constatação de uma vida cada vez mais vazia de significado. Se no passado, o homem refletia-se como obra-prima da natureza, o favorito dos deuses, hoje se verifica que somos somente uma aberração desses mesmos deuses. Os nossos olhos e pensamentos não enxergam guerras, dor, sofrimento, violência, doença ou solidariedade, apenas fingimos bondade porque somos ensinados que o vilão não come a mocinha e morre no final do filme. Não há como negar que o homem é ridículo e estúpido, encantado com praças de alimentação em shopping-centers, carros potentes, amantes ordinários (aqueles de músculos de academia ou louras de seios de silicone), futebol, reality shows, interferências na vida alheia. Tudo que o mais irracional dos animais não se interessa. Do elefante a abelha, os bichos seguem sem desperdícios e imbecilidades, comendo o necessário para sobreviver, respeitando o habitat natural, transando sem neuroses. Já o homem não se preocupa pela sua própria espécie, polui rios e mares, mata por ciúmes ou por uns trocados e se acha superior por acumular títulos universitários, quando na realidade passa a maior parte da existência trabalhando como escravo para pagar contas impostas por supostos espertinhos. Vivemos para uma sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que fariam vergonha se tivéssemos vergonha na cara. Como bem disse Morpheu em Matrix, “o homem é o câncer da terra”.

Nunca conseguimos nos imaginar fora do centro das atenções, sempre alimentamos a importância das nossas desimportâncias. Quem lembra de qualquer invejável empresário de três décadas atrás? O seu túmulo deve estar sem uma flor. Somos ocos e patéticos, sem capacidade para distinguir entre a aparência e a substância. Acreditamos que temos uma certa soberania se somos engenheiros, médicos, gerentes de banco, top models ou escritores. São apenas talentos vazios sem sinais de sensibilidade. Muitos sobrevivendo a base de tramóias e truques, fantasiados de aparência honrada. Por exemplo, não é possível conversar mais de dez minutos com 90% dos advogados ou políticos, o discurso é cansativo e parvo. Porque o direito e a politicagem, entre outras profissões – digo com conhecimento de causa, afinal meu pai era advogado e trabalhei com alguns políticos-, são apenas uns arsenais de frases ocas e cínicas, sem nenhuma preocupação com a verdade e a justiça. Vestem-se de atores de maior ou menor talento, não dando qualquer declaração lógica, experts em demagogia.

Os homossexuais, que poderiam ser a salvação da fatigada espécie humana, pois destoam do batido ritual familiar católico-burguês, perdem-se na mediocridade consumista. Sei que é politicamente incorreto, mas essa fama do gay como personagem otimista, amigo e criativo é pura bazófia. O surrealista é que as mulheres amam os gays, vivem delirando por bichonas sem camisa estrelas de novelas de tevê. Simplesmente porque a maioria das moças é casada com trogloditas ou sabe que nunca terá a oportunidade de concretizar o desejo infantil de laçar um belo e sensível garanhão para fazer inveja as amigas. O meu simplório motorista filosofou um dia desses, “Sêo Tonho, quem gosta de pau é veado, as mulheres querem é segurança material, o macho bobo que pague as suas contas ou faça figura de marido para que elas possam demonstrar a respeitabilidade que a sociedade pede”. Concordo plenamente. E você, meu caro leitor?

O meu lado cigano, meio fora-da-lei, vê a civilização como degenerada e demente. Mesmo quando honesto, o que é raro, o homem vive de rotinas mecânicas, sensações vazias ou fé no ilógico. Tudo é uma troca de favores, uma impostura radical. A bagagem mental dos intelectuais e suas teses merecedoras de serem jogadas no lixo, me fazem rir. Os religiosos e a sua consciência de Deus, multiplicam seu pão particular sem dó nem piedade, sem qualquer compaixão. Nunca conheci um humano completamente honrado, nem mesmo nos muitos livros que li. Estive dias atrás na comunidade de Pitanga dos Palmares, no Recôncavo baiano, pós dias de chuvas torrenciais, e deparei com 23 famílias desabrigadas, sem lenço nem documento, incluindo no lote uma senhora grávida de 8 meses, descalça, faminta e com o sorriso mais lindo do mundo.  Estavam alojadas numa creche abandonada, úmida e suja, sem portas ou janelas. Não receberam qualquer ajuda dos bonzinhos de plantão, dos beatos de araque ou dos caça votos. Vendo situações como essa, é que compreendo como as nossas depressões e a nossa gulodice material são dignas de uma boa surra para tomar juízo, como dizia minha finada avó.

O homem trai, mente e é um fardo de erros. Faça uma viagem no túnel do tempo e verá que os maiores ídolos, de Napoleão a Elvis Presley, de Cleópatra a evita Perón, não passaram de charlatões. É que o homem camufla a história, adota o que é falso e desacredita na essência das coisas. Ninguém coloca na cabeça que a vida é curta, curtíssima, e quem o  faz aproveita seus poucos anos levando vantagem. Amargura e pessimismo? Não creio, tenho um relacionamento simpático e sereno com os meus companheiros de cotidiano. E amo a quase impossível alegria de viver! Mas aproveito os meus dias neste planeta não como herói, talvez como figurante de uma ópera bufa, com momentos de felicidade observando o mar, cuidando de plantas, ouvindo o silêncio e outras coisas simples da vida. Sei que os respeitáveis deveriam ser os doidos, os inconformados, os bêbados, os poetas, os marginalizados, os aventureiros. Sou consciente de que não passo de um inseto, como toda a maluca raça humana. Não transmitimos a dengue, mas enfermidades piores, as d´alma. Felizmente tudo se acaba a qualquer momento, final necessário que jamais poderemos evitar, nem mesmo acumulando milhões de dólares em contas na Suíça.


(31 de maio/2003)
CooJornal no 317


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm