14/06/2003
Número - 319

 


Antonio Júnior




Babilônia Revisitada: 1.

O NÃO-SER



Como Deus poderia ser definido? Algo como noite sombria, escura, infinita e turva? Energia e força criadora ou a mais absurda repressão? São de tais formas variadas as percepções do Todo-Poderoso, as condições de acesso a sua magnitude e modalidades de fé, que se poderia falar no plural: Deuses. Ou seja, Deus não seria um só, se desdobraria em inúmeras tendências de acordo com credo e raça. Todos têm em comum a busca da bem-aventurança eterna para a raça humana, mesmo com desencontros doutrinários pairando sobre judeus, cristãos, muçulmanos, budistas e taoístas. Deus é o chefe espiritual de tribos árabes levando o nome de Alah, na mitologia grega é Zeus e na umbanda, Oxalá. No Antigo Testamento, transforma-se em Jeová: ciumento, caprichoso, dificultando os razoáveis desejos judaicos, controlando fiéis de forma ditatorial. Para acalmar o “pecador”, oficializou-se na teologia católica do Novo Testamento o conceito de um Deus benevolente, com características humanas, pregando o amor e a não-violência, que de certa forma influenciaria séculos depois a filosofia hippie. Para resgatar essa compaixão divina, a Bíblia relatou vilanias, farsas, traições, crimes, dores, medo, solidão e vazio em suas páginas populares. Quase tudo, aliás, copiado da vida cotidiana. Se os atributos de Deus são a verdade, beleza e bondade, a imaginação artística não poderia passar sem sua marca. Recorde-se, meu caro leitor, das soberbas obras de arte de Leonardo da Vinci, Michelangelo, Boticelli, Rafael, Caravaggio e outros. Mas o delírio criativo de alguns artistas talentosos transformou Deus num europeu de olhos azulados, longos cabelos dourados, face andrógina. Como seria o primitivo Deus dos hebreus? Luz inebriante ou maduro senhor colérico de longas barbas? Encontraria-se nas árvores, montanhas, raios e trovões ou nos costumes selvagens dos povos pagãos? Num mundo perverso, consumista e absurdo como o que vivemos é raro sentir o perfume de Deus. Estaria na simplicidade rústica dos ciganos, na errância dos aventureiros ou na fome nordestina? Nas florestas aniquiladas, rios poluídos ou templos barrocos? Nas intensidades luminosas, neblina, horizontes e movimentos do ar? No efêmero do gozo sensual ou no enfadonho do dia-a-dia? Nos reality shows, crimes passionais, crianças marginalizadas ou no discurso mentiroso dos políticos? Autêntico desafio para escritores, a densidade do conceito de Deus é poética, mostrando que palavras sagradas, ao mediar o relacionamento metafísico entre o homem e o Oculto, dissimulam desilusões, hipocrisia e medos (da solidão, fracasso, morte etc.). Nesse “engano” reside o fascínio onipotente. Mas como Deus poderia ser definido? Como é ser o não-ser?



(14 de junho/2003)
CooJornal no 319


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm