12/07/2003
Número - 323


Antonio Júnior




A ALEGRIA DE VIVER


Nunca fui de rir muito. Na primeira juventude, não me interessava por piadas ou humorísticos de tevê, nem ria de doidos, bichas, bêbados, inválidos e anões como a maioria dos cruéis meninos provincianos e, no cinema, somente me esbaldava com antigas comédias sofisticadas, de Howard Hawks a Billy Wilder, ou um ou outro filme italiano. Mas não faço pose de sisudo, tenho um certo humor sutil e para o meu júbilo sou capaz de gozar de cerimônias de casamento, formaturas, velórios, discursos políticos, reality shows e dos meus desacertos e paixões. Nunca tive favoritismo por escritores bem humorados, mesmo bons como João Ubaldo Ribeiro ou Henry Fielding, embora goste religiosamente das crônicas divertidas de Sérgio Augusto ou da acidez hilária de Dorothy Parker, Mencken e do nosso Paulo Francis. Passei adiante todos os livros de Luis Fernando Veríssimo que ganhei de presente e o Xangô, do Jô Soares, não consegui ler mais de cinco páginas. Acho o Jô um chato. Organizando minha biblioteca, com o propósito de dispor os autores por gênero literário e ordem alfabética, encontrei a fotografia da jornalista Mayra Lemos tirada em Barcelona e, imediatamente, admirando o riso escrachado da amiga, numa selvagem alegria quase impossível, refleti sobre o pouco que rimos. Então decidi rir um pouco mais. Estou cansado e aborrecido de enfrentar com severidade a própria vida.

Deus não ri nunca. Talvez ridicularize na sua intimidade com a estupidez de suas criaturas, como fica claro nos Provérbios: “também eu darei risada de vossa calamidade” (1,26). Na Bíblia, o poderoso não dá nenhum maldito riso de alegria, creia-me meu caro leitor. Tampouco os seus profetas, anjos e santos. O curioso é que Jesus Cristo também não ri. Em nenhum fragmento dos Evangelhos há rastro de sorrisos do homem que desejou ser homem: nada, nem mesmo um daqueles sorrisos de canto de lábios para consolar o melodramático fiel cristão. E o cômico é uma experiência fundamental e universal dos seres humanos, não existe nenhuma cultura que não use e abuse dele, até mesmo os portugueses com a sua dor perpétua sabem sorrir. Todos os homens, inclusive os de bom coração, já riram alguma vez. Sendo assim, Cristo deveria haver-nos deixado seu sorriso, já que não pensou duas vezes em deixar para a posterioridade sua humana cólera e seu humano pranto.

Há toda uma tradição filosófica e literária de descrédito da risada, muito mais enraizada que o contrário. Aristóteles, num texto conhecido na Antiguidade Romana como “De Partibus Animalium”, já fazia observação sobre o riso. Apesar do riso dos deuses homéricos, que não viam grandes incompatibilidades entre a gargalhada e as obrigações de seu cargo, vingou a idéia que a risada, assim como a fantasia, tem um papel perturbador que o torna inconveniente para o perfeito funcionamento não só para a República dos homens como para o próprio Paraíso de Deus. O riso durante muito tempo foi marginalizado, convertido em algo que nos aproximava dos animais. Médicos estudaram o fenômeno, como o francês Laurent Joubert, que escreveu em 1579, “Tratado do Riso”. Descartes analisou o lugar do riso entre as emoções e autores humanistas enfatizaram que o riso é sinal de desprezo. Baudelaire extraiu uma conclusão mórbida: se Deus não ri, o riso, sem deixar de ser profundamente humano, está envolvido com o satânico. Não é necessário ser tão radical, o riso diabólico dos ateus Gregório de Mattos e Ivan Karamazov não é o único riso possível. Cervantes ensinou que devemos gracejar de nós mesmos, da nossa peculiar e ridícula condição humana. Já Mona Lisa (1503-06), a Gioconda de Da Vinci, desde o Renascimento vem divulgando o sorriso mais enigmático e célebre da história das artes.

No início da época moderna, o sorriso foi considerado nobre e o riso vulgar, ou seja, neste último há sempre a intenção de escárnio ou zombaria. O primeiro definiu-se como inteligente e elegante, já o segundo não era considerado de bom gosto. Autores cômicos como Ben Johnson, Molière, John Ford ou Shakespeare, levavam o público ao delírio cômico satirizando avarentos, hipócritas e vaidosos. Em um dos livros do Lord Chesterfield, este recomenda a seu filho que evite a risada porque é um sinal de grosseria, longe do que se espera da gente bem educada. Uma austeridade absurda que exigia o homem como figura artificial e estática. A risada só adquiriu o seu pedigree no romantismo. Liberado e santificado, tornou-se subversão contra os podres poderes, protesto contra as tristezas do cotidiano, o verdadeiro chute no pau da barraca. Um dos padrinhos do riso moderno foi o Zaratustra nietzscheano, para quem toda verdade é falsa se não vem acompanhada ao menos de um sorriso, um procedimento muito mais eficaz que a ira. O jornalista iconoclasta H. L. Mencken (1880-1958), escrevendo colunas semanais de 1904 a 1948, além de publicar dois a três livros por ano, provocou muitas risadas ao criticar o homem comum norte-americano, escravizado por ambições baratas, superstições e medos.

O sorriso é uma expressão natural de prazer e, especialmente, de cumplicidade. É o sinal de uma certa jovialidade e um certo ânimo alegre que o homem sente no interior de sua mente. O sorriso pode inclusive expressar amor. Todos sabemos que existem diferentes tipos de riso. Pode-se rir por desespero, como alguns personagens de Beckett, por incredulidade, por desprezo, por medo, por pura alegria. Tenho uma amiga, Corina, que ri até as lágrimas, mas nunca sei se realmente está feliz ou é um descontrole grotesco do espírito. À caminho do trabalho, venho no mesmo automóvel que um gordo engenheiro, e ele me surpreende com o seu perpétuo bom humor, mesmo enfrentando uma série de problemas de saúde e financeiro. Não sei de quê ou porque estava rindo a bela Mayra na fotografia que provocou esse passeio pelo sorriso. Porém, confesso, nesses tempos de mediocridade e ignorância generalizada, tenho vontade de rir um pouco mais. Na realidade, e pedindo perdão pela tristeza, tenho encontrado a humanidade tão risível, tola e ridícula, que eu mesmo riria da minha própria cara. Como disse o sociólogo Edgar Morin “Não sou otimista nem pessimista. Penso que caminhamos para prováveis catástrofes, mas pode ser que o improvável aconteça, como já foi muitas vezes o caso na história”. E terminando estas linhas, deixo para você caro leitor, o meu sorriso, mesmo não garantindo o gracejo de bom humor e benevolência. Talvez tenha o temperamento frio e seco e, portanto, “dotado de coração pequeno e duro”, como teorizou o médico Laurent Joubert, diagnosticando que é especialmente benéfico incentivar a alegria nos indivíduos de tal atitude. Está correto? Pode ser, mas quero o que toda a humanidade quer: a alegria de viver. A única maneira de alcançar esse objetivo será sentir-me comovido com o mundo a minha volta. Só assim virá o sorriso e não só o riso.


Referências
Sérgio Augusto: O Lado B. Companhia das Letras, 2001.
Charles Baudelaire: “Da Essência do Riso/De l´essence du rire et généralement du comique dans lês arts plastiques”. 1855.
Richard Burton: A Anatomia da Melancolia. 1621..
Ruy Castro: “A Mente Iconoclasta” em O Livro dos Insultos. Círculo do Livro. São Paulo.
Lord Chesterfield: The Letters of the Earl of Chesterfield to His Son. Ed. Charles Strachey. Methuen, Londres, 1924.
Descartes: As Paixões da Alma. 1648.
Henry Fielding: Joseph Andrews.
H. L. Mencken: O Livro dos Insultos / A Mencken Chrestomathy. Círculo do Livro. São Paulo.
Daniel Piza: O Dicionário da Corte de Paulo Francis. Companhia das Letras, 1997.
François Rebelais: Pantraguel. 1533.
Quentin Skinner: “A Arma do Riso”. Mais!, Folha de S. Paulo, 2002.



(12 de julho/2003)
CooJornal no 323


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm