04/09/2003
Número - 330


Antonio Júnior




MINHA GAROTA FAVORITA


Antes do escurecer, num verão quente de 1949 na carioca Avenida Rio Branco, uma multidão delirante não tirava os olhos de um carro alegórico decorado com cachos de bananas. No topo, como uma deusa do pecado, a Rainha do Carnaval, Elvira Pagã, nome profano de Elvira Olivieri Cozzolino, exibia um corpo fenomenal num ousado traje de banho dourado, depois que sua capa estilo toureiro fora arrancada pelos fãs. Ela rasgara um maiô, adaptando o modelo "duas peças" usado no teatro rebolado, lançando oficialmente o biquíni num Brasil repressor e moralista. Gritava-se por todos os lados: "Olha a Elvira Pagã! Olha a Elvira Pagã!". Um show de coxas, seios e umbigo. Morena de cabelos longos e sedosos, 90 cm de busto, 55 de cintura e 90 de quadris, mostrava sem inibições o lado “fora-da-lei” feminino. Um corpo celebrado que provocou histeria, brigas, prisões e até um suicídio, o da jovem Wanda Eichner, que antes de partir dessa para melhor deixou um bilhete: “Declaro que o motivo de meu suicídio é a paixão que sinto por ela. Sou uma invertida sexual. Eu gosto de mulheres. Apaixonei-me loucamente por ela. Disse que a amava, não pude mais suportar, declarei-me. Mas Elvira Pagã recusou-se terminantemente a cooperar comigo. Desiludiu-me totalmente e tomou uma atitude que me fez perder a esperança por completo. Amá-la-ei eternamente. Por ela darei a minha própria vida”.

Reinando no Teatro Recreio, na Boate Arpége e no Cassino Icaraí, no Rio, ou no Nick Bar paulista, de 1949 a 1962, Elvira Pagã fazia parte da popular lista das certinhas de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, ao lado de mulheres exuberantes do teatro de revista como Virgínia Lane, a queridinha de Getúlio Vargas; Luz del Fuego, Anilza Leoni, Mara Rúbia e Angelita Martinez. Dora Vivácqua, a Luz del Fuego, ganhava a vida enrolando-se nua em cobras e desafiando quem as matasse sem esmorecer o porrete. Em 1956, na Ilha do Sol, a 15 minutos de Paquetá, ela criou o primeiro clube de nudismo do país, onde muitos anos depois foi assassinada a machadadas. Nos anos 80, Lucélia Santos, dirigida por David Neves, protagonizaria a história de sua vida no cinema. A paulista de Itararé, Elvira Pagã, ainda não teve a sua escandalosa e corajosa biografia filmada, mas participou de oito comédias ingênuas: O Bobo do Rei (1936); Cidade-Mulher (1936); Alô Alô Carnaval (1936); Laranja-da-China (1940); Carnaval no Fogo (1949); Dominó Negro (1949); Aviso aos Navegantes (1950); e Écharpe de Seda (1950). Um dos mais populares, a chanchada Aviso aos Navegantes, se passa num luxuoso navio, onde uma companhia teatral, com Eliana e Adelaide Chiozzo, retorna ao Brasil depois de apresentações em Buenos Aires. Na embarcação está um príncipe e um perigoso espião internacional. No poderoso elenco da produção da Atlântida, Oscarito, Grande Otelo, José Lewgoy, Zezé Macedo, Dalva de Oliveira e Emilinha Borba.

Morando num quarto luxuoso no Hotel Glória, com as pernas elogiadas por Errol Flynn, manchete de jornais e capas de revistas, ela começou cantando com a irmã Rosina na dupla As Irmãs Pagãs, na década de 30. Mas não tardou a iniciar sua carreira-solo. Em dezembro de 1944 estreou Paganíssimo, na Rádio Nacional, e no Teatro Recreio fez musicais como Moulin Rouge e É Rei, Sim. Comandou também os shows noturnos Isso Faz um Bem, E o Negócio...Tá de Pé, O Pecado em Sete Véus e Muita Máscara e Pouca Roupa, entre outros. Filha de pai norte-americano e mãe paranaense, foi raptada pela própria mãe aos 4 anos de idade e, aos 13, casou-se com um homem rico, Theodoro Eduardo Duvivier Filho, de 39 anos, no que afirmava ter sido o segundo rapto de sua vida e o primeiro estupro. Depois foi para o mundo artístico, transformando-se num símbolo erótico. Sua vida privada continuou marcada pelo tumulto. Em 1951 foi presa pela primeira vez, envolvida numa briga no famoso Nick Bar, freqüentado por artistas do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). “Os homens não me deixavam em paz, provocando confusões. Que culpa tinha eu de ser tão boa?”, disse numa entrevista. Em 1956 realizou uma exposição na Galeria Nagasawa, em Copacabana, com 20 telas a óleo de sua autoria. Escreveu alguns livros, entre eles Revelações e Vida e Morte, chegando a ocupar a cadeira de número 12 da Academia Paulista de Letras. Um deles escreveu com o pulso enfaixado e o braço esquerdo paralisado após tentativa de suicídio, datilografando com a mão direita: “O mundo é éter! O éter é vida! E a vida é o gozo final!”. Depois de uma de suas prisões, gravou um samba-canção de grande sucesso, Cassetete, Não, no qual denunciava e ironizava os maus-tratos infringidos pelos policiais, e popularizando-se de tal forma que até os cômicos travestidos o cantavam imitando-a: Eu que nem bem conhecia/Aquele estranho rapaz.../Me viu sentada com outro, ai! (bis)/Cassetete, Não!/Cassetete, Não!/Não adianta tu não terás meu coração...ai!/Vendo que não conseguia/Me derrubar o cartaz/Prá que eu ficasse marcada...ai! (bis)/Mandou-me aprisionar/Cassetete, Não! /Tu não terás meu coração...(bis)/Cassetete, Não!

Excursionando por todo o Brasil e conhecida no exterior como The Original Bikini Girl e The Brazilian Buzz Bomb, Elvira não desistia de afrontar a moral, provocando verdadeiras enchentes nos cabarés e teatros de rebolado. Depois de operar os seios, posou nua e distribuiu a fotografia como cartão de Natal, reafirmando-se como sinônimo de escândalo, atentado ao pudor, imoralidade. Por seus atributos físicos e audácia provocou incontáveis e devastadoras paixões, confessando numa de suas últimas entrevistas: “Foi uma orgia só”. O perigoso bandido Carne Seca forrou a sua cela com fotos dela, e numa em que a vedete encosta-se numa pele de onça, lia-se a dedicatória: “Para Carne Seca, um consolo de Elvira Pagã”. Desesperado, o marginal tentou fugir da prisão inúmeras vezes. Nos anos 60 ela se recolheu, como faria Odet e Lara na década seguinte. Saiu da vida artística e da vida social. Dizia não precisar de amantes e se intitulava sacerdotisa, ligada a discos voadores e à Atlântida, criando uma seita, Doutrina da Verdade. Morreu em 8 de maio deste ano, aos 82 anos, de falência geral dos órgãos, na Clínica Santa Cristina, em Santa Teresa. Não teve filhos. Sua família levou o corpo para uma estância hidromineral do Sul de Minas e manteve escondida a morte.

Ouvi falar pela primeira vez desta extraordinária vedete antes dos dez anos de idade, ao bisbilhotar uma caixa secreta de um tio paterno, encontrando quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro, alguns Pasquins, a revista Intervalo, long-plays da Jovem Guarda e um envelope intitulado Minha Garota Favorita, tesouro de fotografias de Elvira Pagã manchadas de sêmen. Eu fiquei encantado com aquela fartura de carnes e nada sabia sobre ela. Dias depois, curioso, perguntei a minha rígida e idosa professora quem era a moça e ouvi a brutal resposta: “Uma meretriz”. Só anos depois saberia que, nos anos 40 e 50, atrizes e outras artistas ousadas eram quase todas consideradas “mulheres de vida fácil”. Como sempre apreciei o mundo sórdido, sofrido e libertador da prostituição, gostei ainda mais dela. Em 1995, encontrei casualmente o engraçado José Simão num metrô de Madri, falei do seu livro Folias Brejeiras e ele contou-me duas ou três coisas sobre Elvira Pagã: suas prisões, participações em passeatas, tentativas de suicídio e processos por atentado à moral. Liderava o espaço nos noticiários da época com chamadas incendiárias: “Atacada Elvira Pagã por um tarado no interior do camarim”, “Verdadeiro cerco policial para prender Elvira” ou “De estandarte em punho deu entrada na Central: desorganizou os serviços policiais, depredou a máquina de escrever, desacatou a autoridade, riu, chorou e dançou na Polícia Central”. Esquecida, morou no fim da vida num quarto-e-sala na zona sul do Rio de Janeiro, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, em frente ao anexo do Copacabana Palace, alugado pela irmã Rosina. Nada mais restava da temperamental deusa da beleza que um dia a revista Escândalo, de julho de 1956, criticou: “A maneira de pensar de Elvira Pagã é proibitiva pois ela tem uma verdadeira aversão aos conceitos sociais”.

Expondo curvas, ostensiva volúpia e idéias bastante avançadas para a época, além de enfrentar árduos preconceitos, Elvira Pagã foi homenageada numa das canções da tia do rock, Rita Lee. Já Ney Matogrosso declarou, "Foi depois de ver, com minha mãe, uma de suas apresentações na Rádio Nacional que eu resolvi ser artista”. Um dos símbolos sexuais da era de ouro do rádio, matéria viva de alguma loucura no ar, musa de desejos reprimidos, escreveu no livro Vida e Morte: “Enquanto a carne arder no fogo da vida eu serei a flama sensual entre os homens”.




(04 de setembro/2003)
CooJornal no 330


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm