18/09/2003
Número - 332


 


Antonio Júnior




O CU NOSSO DE CADA DIA


Há quem veja com preconceitos um dos mais fundamentais orifícios do corpo humano: o ânus. Ele é motivo de chacotas e mesmo as figuras mais irreverentes são incapazes de refletir sobre a sua estética original. Não é considerado um buraco normal, natural. É criticado, olvidado, desprezado até. Causa asco, preconceito, cisma e ironia grosseira. Existem tarados por peitos, bundas, paus, umbigos, xoxotas, mas nunca ouvi ninguém comentar: “Ela (ou ele) tem um cu que é uma beleza!”. É um fato verídico, mesmo sabendo que o coito anal é um sucesso na cama, afinal o cu é importante não só pelas coisas que saem dele mas também pelas coisas que entram nele. Até porque, como diz a desbocada poeta Hilda Hilst, o esnobismo e a vaidade humanos só se sustentam porque o homem não pensa que é proprietário de uma fétida grota que o acompanha para onde quer q ue vá, inclusive nos restaurantes mais luxuosos ou nas reuniões mais celebradas.

Mesmo com o passar do tempo e o avanço da civilização, falar do buraco comum a todos é como comentar sobre corcundas, anões, virgens, câncer, dívidas pessoais. Sempre constrange. O cu só é protagonista de piadas ou críticas perversas. Quando se fala em seios, podemos imaginar a fartura de Sophia Loren; em boceta, a cabeluda Cláudia Ohana; e em pau, a manjuba enorme que o escocês Ewan McGregor exibe em vários filmes, mas nunca seríamos capazes de associar o cu a quem quer que seja. Falo do cu e não do rabo, que são coisas completamente diferentes. Até mesmo revistas gays conhecidas, como a GMagazine, nunca mostrou um cu aberto, exposto, em primeiro plano. Não é considerado sexy. Os artistas plásticos também não se interessam pelo tema. Sabem que a abertura para o exterior do canal reto não é vendável. Há mais vida, desejo e sensualismo num pé ou mesmo num nariz. Eu mesmo nunca olhe i o meu cu no espelho para ver se está bem conservado ou sadio, como faço com outras partes do corpo. Toco-o uma vez na vida e outra na morte, quase como um sacrifício. Por quê? Eu poderia arrolar aqui tantas ou mais razões porque o cu é um marginalizado, mas nenhuma delas teria o peso bastante para ofuscar a indiferença que provoca o furico, o fiofó, o roscofe, a rodinha, o boca-murcha edicetra.

O engraçado e contraditório é que a bunda parece ser a coisa mais importante do mundo para nós, brasileiros, e uma bunda sem cu é como acarajé sem vatapá, come-se mas falta um certo sabor. A bunda é unanimidade erótica nacional. Todos sonham com um traseiro, um rabo, uma padaria, uma poupança ou até um idi (como é chamada nos terreiros de candomblé). Já o cu não provoca nenhum júbilo, somente desprezo e nojo. Ninguém pensa no orifício de contorno circular como belo, gostoso, reservado ou discreto; não há um culto erótico sem falso moralismo e tampouco louvor e gratidão para o profissional que elimina merdas e peidos. É uma situação complexa. Se o cu tivesse juízo protestaria, faria greve, pondo em colapso o nosso corpo. É humilhante ser associado ao pior. Por exemplo, um pequeno vilarejo sem atrativos é imediatamente taxado como o “cu-do-mundo”. Há também o cu-de-ferro, cu-de-Mãe- Joana, cu-de-Judas, cu-de-pinto, cu-doce, cu-sujo etc.

No final dos anos 80, o ator global em ascensão Mário Gomes, acusado pelo jornalista Carlos Imperial de ter dado entrada numa clínica carioca com uma grossa cenoura enfiada no ânus, passou a ser conhecido como “Mário Cenourinha” e quase teve sua carreira destruída. Dez anos depois, tablóides sensacionalistas norte-americanos anunciaram que o galã Richard Gere metera no seu orifício um pequeno saco sintético com um hamster vivo. O objetivo seria o prazer provocado pelo movimento do rato em pânico, mas o animal acabou por rasgar sua jaula apertada. Em Lisboa, dois anos atrás, conversando com uma enfermeira portuguesa casada com um amigo paulista, soube que o hospital onde ela fazia plantão noturno recebia em média de quatro a cinco casos por semana de senhores casados e respeitáveis com desodorantes e outros frascos enfiados no roscofe. U ma situação constrangedora. “Para retirar o objeto, o ânus é rasgado e depois costurado. É terrível. O inacreditável é que o paciente sempre alega que foi um acidente resultante de uma queda”, contou a moça. Certa vez, num programa de tevê, ao vivo, o Nobel de Literatura Camilo José Cela declarou para o apresentador Javier Gurruchaga que seria capaz de absorver um litro de água pelo seu reto. Fiquei pasmo. Felizmente ele não resolveu dar uma demonstração pública. Ainda na Espanha, ou melhor, na Catalunha, existe um personagem folclórico que está presente em diversas situações populares, inclusive nos presépios natalinos: o Caganer. É só prestar atenção para vê-lo de calças arriadas. Já Freud dizia que a descoberta do cu para uma criança é totalmente prazerosa, ela gosta de defecar e termina usando-o como forma de poder. A sensação de deleite só é transferida para a genitália depois dos dois anos de idade.

Bom, meu caro e tolerante leitor, melhor não exagerar na dose e parar por aqui. A idéia não é escrever uma tese ou mesmo um tratado sobre o cu nosso de cada dia. Peço apenas que relaxemos, sabendo que sem o cu não há salvação. Óbvio que mesmo vivendo numa sociedade “aberta”, alguns temas insólitos ainda provocam repulsa ou mal-estar, mas é preciso um certo humor anárquico para continuar vivendo. Como sabem, nem mesmo o cinema, a literatura, a televisão, o mercado publicitário, os evangélicos ou os políticos divulgam o cu, sendo assim, e para terminar de vez com esse texto nefasto, convidos-os a acreditar não só na sedução dos nossos olhos como também do nosso cu. Que tal?


(18 de setembro/2003)
CooJornal no 332


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm