25/09/2003
Número - 333

 


Antonio Júnior




NÃO SACUDAM DEMAIS O TORQUATO,
QUE ELE PODE ACORDAR!



Uma voz no telefone anunciou que Torquato Neto havia partido e, ao ouvir isso, seu amigo Haroldo de Campos imaginou que o poeta, em mais um arrebato temperamental comum de sua personalidade, mudara de cidade. Porém não, o que a voz conhecida queria dizer era que Torquato já não estava neste mundo. Que a morte foi ao seu encontro no pequeno apartamento na Mariz e Barros, no bairro carioca da Tijuca em que vivia com a ilheense Ana Maria e o filho Thiago, de três anos. Nesse 10 de novembro de 1972 luzia o sol de tal modo que parecia irreal o confuso bilhete com letras desiguais e frases entrecortadas, rabiscado em três folhas de caderno espiral, deixado pelo falecido: “Tenho saudade como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver e enquanto me contorcia de dores o cacho de bananas caía. De modo q FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”. O suicídio, um dia depois de seu aniversário, ao fim de longa série de tentativas malogradas, mesmo assim provocou espanto. Torquato voltou de algumas boates da Zona Sul – numa delas viu a exibição de um filme cinemascópico de Rogério Sganzerla -, e depois que a sua mulher dormiu, trancou-se no banheiro, vedou a janela e as entradas de ar com um lençol e ligou o gás do aquecedor, sendo encontrado morto pela empregada.

Torquato Pereira de Araújo Neto tinha 28 anos e deixava uma obra pequena e original que se resumia a alguns poemas e 30 letras escritas, para músicas de Edu Lobo (Pra Dizer Adeus), Jards Macalé (Let´s Play That), Gilberto Gil (Soy Loco Por Ti América), Caetano Veloso (Mamãe Coragem) e Geraldo Vandré. Ele também foi ator de filmes experimentais, crítico de cinema, roteirista, produtor cultural, repórter de uma agência de notícias carioca e às vezes músico. Deixou a recordação de uma sensibilidade latente, uma rebeldia romântica entregue a perdição fatal. Complicado, culto, meigo, provocativo, exaltado e auto-destrutivo, combinava inteligência precisa e poética aguda resultando uma obra singular, mas suas crises de melancolia e insatisfação o faziam eliminar boa parte de sua produção literária. Em 1973, Waly Salomão e a viúva Ana Maria Silva reuniram no livro Os Últimos Dias de Paupéria uma coletânea de artigos publicados ou inéditos, fragmentos do diário sobre a passagem do autor pelo hospício e poesias - escritos todos entre 1968 e 1972. Acompanhava um compacto com quatro músicas e comentários de Décio Pignatari, Hélio Oiticica, Haroldo e Augusto de Campos. Resultado de uma crise espiritual, essa obra importantíssima seria uma espécie de bíblia da chamada poesia marginal dos 70, e mais adiante de nomes como o titã Arnaldo Antunes. Nela, é possível conhecer a desenvoltura, inquietação e luminosidade do pensamento de Torquato Neto.

Nasceu em 09 de novembro de 1944, em Teresina, capital do Piauí, numa família classe média alta, quase sempre na vizinhança do poder. Filho do promotor público Heli da Rocha Nunes e da professora primária Maria Salomé da Cunha Araújo, temia ser desaprovado pela mãe tirana, dominadora, de nome bíblico. Leu toda a obra de Shakespeare aos 12 anos e dela tirava conceitos, fazia anotações e discutia com os amigos. O escorpiano Torquato era magro, pálido, pés grandes, mãos longas e possuía uma certa sensualidade, algo que nem mesmo os excessos alcoólicos conseguiram apagar. Gostava de cinema, e escrevia compulsivamente, costumando preencher dezenas de cadernos com poemas e reflexões. Ainda muito jovem estudou em Salvador, no mesmo Maristas de Gilberto Gil, de quem se tornou amigo, conhecendo também os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia. A capital baiana fervilhava de talentos, de Othon Bastos a Glauber Rocha, de Mário Cravo a João Augusto, impulsionando um excepcional ambiente de cultura. Anos do boom das escolas de teatro, música e dança; de clubes de cinema, do Teatro dos Novos, concertos freqüentes e robusta arte contemporânea. Anos que merecem maior notoriedade, mas como sabemos a memória cultural de nosso país é curta.

Irriquieto, Torquato Neto foi expulso da escola de padres, mudando-se para o Rio de Janeiro em 1963 e dando partida ao desbunde total no meio da efervescência dos festivais de música. Admirava Drummond e Nelson Rodrigues, e costumava segui-los nas ruas, sem se deixar perceber, num prazeroso ritual secreto. Parceiro boêmio de Chico Buarque, viciado na vertigem passional, viveu cinco anos com Ana Maria, uma mulher inteligente e de personalidade forte, mas não desprezava outras experiências sexuais. Trabalhou em jornais, gravadoras, agências de publicidade e como setorista no Aeroporto Santos Dumont. Fez parte do corpo de redatores da revista Cláudia, do Jornal do Brasil e do Estado de São Paulo, escrevendo o roteiro de três shows de sucesso: Pois É, Maria Bethânia e Ensaio Geral. Participou de performances e produziu espetáculos multimídia. Criou com José Carlos Capinam, entre 1967 e 1968, o roteiro de um programa de tevê, Vida, Paixão e Banana do Tropicalismo. Teve a coluna Pulg, sobre cinema, no Correio da Manhã; outra de música popular no suplemento O Sol, do Jornal dos Sports, e no auge do movimento Tropicália, em 1967, escreveu Tropicalismo para Principiantes, onde entre outras coisas defendia que deveríamos “viver a tropicalidade e o novo universo que ela encerra”.

A Tropicália renovou a música popular brasileira, numa possível reedição do Movimento Modernista de 1922. Um reinado utópico de floridos hippies, as Dunas do Barato em Ipanema, Gal Costa como musa e mito sexual, Arembepe, garotas de minissaia, rapazes cabeludos, muita erva e ácido. O designer Rogério Duarte nomeou o espírito dessa época como Apocalipopótese. Nesse cenário de doideira, Torquato passava as noites em claro, andava com um caderno cheio de poemas que um dia possivelmente seria um livro e vestia roupas tradicionais e cafonas, que o transformou em uma figura pitoresca. Uma das suas manias era recolher frases de efeito de pára-choque de caminhão. “Não me siga que não sou novela”, por exemplo. Contraditório, era freguês de cachaça e tira-gosto gorduroso nos botecos e de LSD e champagne em momentos sofisticados como no reveillon de Regina Rosenburgo Leclery. Travestiu-se jocosamente na Cinelândia e no local de pegação Cine-Hora para o filme Helô e Dirce, de Luiz Otávio Pimentel, mas terminou na fossa no dia seguinte, dilacerado pela culpa, como sempre acontecia ao libertar certa ambigüidade sexual.

Em 1968, seria lançado o já clássico disco Tropicália ou Panis et Circensis, e nele está a canção famosa Géleia Geral, com letra-manifesto sua e música de Gilberto Gil. Para título dessa canção, usou a expressão pregada por Décio Pignatari em 1963 num texto publicado na revista Invenção, um trocadilho com “Geléia Real”: “Alguém tem de ser medula e osso na Geléia Geral brasileira”. A polêmica e badalada coluna de Torquato com o mesmo título, Geléia Geral, um espaço crítico-criativo-poético publicado no jornal Última Hora entre agosto de 1971 e março de 1972, seria analisada pelo mesmo poeta concretista: “Seu modo de proceder na montagem/colagem/bricolagem tinha uma certa orientação, não era errático”. O tom da coluna, agressivo e descrente de qualquer função didática, chegava a se dirigir aos leitores com um “Alô, alô idiotas”. Nela, defendia as manifestações artísticas de vanguarda, divulgava o universo pop internacional e a cena underground brasileira. Militante ferrenho da implantação da contracultura no Brasil, abriu fogo contra o Cinema Novo, questionando o seu comprometimento político ao acusá-lo de lacaio de cargos e verbas oficiais; e atacou incansavelmente o debochado Pasquim. Certa vez ao encontrar Jaguar, um dos humoristas do periódico, arrancou-lhe os óculos, pisou-os e disse: “Um cego não precisa de óculos”. Como editor, fundou o alternativo Presença e montava pouco antes de morrer, junto com Waly Salomão, Navilouca, que Caetano Veloso viria a co-patrocionar o primeiro e único número, como homenagem e reconciliação póstuma, e faria história. O destemido Waly radiografou o colega como “Astro doido a sonhar. O nosso moço das ânsias. Pobre? Fauve! Fauve? Fraco herói underground. Fraco? Forte herói underground. Leão alado sem juba”.

A erudição, lirismo, originalidade e poesia que vinha das entranhas de Torquato Neto deram aos músicos do tropicalismo uma poderosa contribuição. Tímido e muito doente quando menino, por um curto tempo sossegado e tranqüilo, mergulhou na tristeza poucos anos antes de morrer. Intelectual revoltado com o mundo, humorista ferino, carismático com o estado emocional abalado, criador em crise, exigindo demais de todos, desejava “muito além do que já houvera feito”. O poeta de jeito desajeitado terminou buscando o socorro social, internando-se no hospital psiquiátrico de Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro, e por alcoolismo em clínicas especializadas, num total de nove internações por livre e espontânea vontade. “Para se desintoxicar e dar um tempo”, ele dizia. Sua dor era visível. “Torquato apareceu um dia depois de uma internação em sanatório com o cabelo completamente tosado, um skin head avant-la-lettre, e eu sofri uma premonição terrível e insuportável de uma ovelha negra tosada se oferecendo ao cutelo do matadouro”, lembra Waly Salomão. Em 1968, com o AI-5 e o exílio de amigos como Caetano e Gil, viajou pela Europa com o artista plástico Hélio Oiticica, morando algum tempo em Londres. Vivia-se a época da caça às bruxas do inconformismo político, as forças cegas da ditadura militar não alisavam, e os tropicalistas foram considerados como elementos nocivos e subversivos, perigosos para a segurança nacional. Calado, deprimido, recolhido e magoado com a desastrosa viagem a Londres e o rompimento com os baianos no duro exílio, abateu-se ainda mais com as mortes súbitas de Jimi Hendrix (que ele teria conhecido) e Janis Joplin. No final da década de 60 e início de 70, no País do Futebol, proibia-se pensar. Mesmo assim, Torquato Neto incentivou a originalidade do insurgente Cinema Marginal e de seus ícones Júlio Bressane, Ivan Cardoso, Rogério Sganzerla etc. Num super-8 de Ivan Cardoso, Nosferatu no Brasil, faz o papel-título, numa brincadeira com o seu apelido na vida real, e atuando com Scarlet Moon de Chavelier. De volta a Terezina, em 1971, filmou sob a direção de Carlos Galvão, Adão e Eva no Paraíso de Consumo. No Rio, compôs aberturas e trilhas sonoras de novelas populares como Minha Doce Namorada e O Homem que Deve Morrer, mas terminou brigando com a TV Globo e com o Conselho Nacional de Direitos Autorais.

O amigo Ivan Cardoso dirigiu o documentário Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália, com muitos depoimentos comoventes, entre eles o de Gilberto Gil, “Tenho uma foto dele e Caetano comigo, pendurada na parede. Sempre a vejo. Gosto dele daquele jeito. Meio português, meio campesino. Como aqueles meninos que você vê nos filmes de Buñuel. Parece um daqueles devotos de Lourdes ou de Fátima”. E o de Caetano Veloso, “No período mais próximo da morte dele, vi muito pouco Torquato. Que era uma pessoa que eu via muito. Então você sente uma angústia no sentido que parece que poderia ou deveria ter feito alguma coisa, ter estado perto de algum modo. Mas eu ficava sem ser arrebatado por uma emoção de sentimento, de saudade ou de choro. Até que já alguns anos depois fui a Teresina. Conheci o pai dele, o dr. Hely, ficamos conversando e ele me serviu uma cajuína. Foi quando eu consegui chorar a morte de Torquato”. Haroldo de Campos definiu-o no mesmo filme, “Verlaine escreveu sobre os poetas malditos – que eram aqueles simbolistas rejeitados pela sociedade. E o Torquato tem muito desse aspecto”. Outro poeta, Chacal, num verão de 72 na Bahia, encontrou “Torquato de olhos e boca vermelhos, cabelos em chamas pela Avenida Sete. Essa foi a imagem que me ficou na cabeça, Torquato pela Sete, vertiginoso, volátil, dando pérolas aos porcos, em sua geléia geral lisérgica”. Em 1988, a banda Titãs resgatou para o pop contemporâneo o poema Go Back, musicado pelo tecladista e cantor Sérgio Britto.

Autor de algumas das mais bonitas letras da nossa música popular, poeta bacana, vértice tropicalista, um dos nomes mais influentes do panorama cultural de sua época, o nordestino que desatinava e desafinava o coro dos contentes, não segurando a barra dos anos de chumbo, ao analisar sua situação, escreveu: “É preciso não beber mais. Não é preciso não sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública”. Não foi possível parar repentinamente de beber a agonia do mundo, mas Torquato Neto pôs em curso a poética da resistência cultural. Sua linguagem blasfema e antropofágica faz repensar o Brasil. O terrível é que morreu com asco de sua razão de ser: a literatura. Havia encerrado sua possibilidade de poesia. Perdera a fé nas palavras. Meses antes do suicídio planejado, distribuiu a vasta coleção de literatura de cordel, queimou a maioria de seus escritos e quebrou a máquina de escrever, dizendo que nunca mais voltaria a usá-la.

TORQUATO: 1(UM) POEMA, 1 (UMA) LETRA:

Também tenho uma noite em mim tão escura
que nela me confundo e paro
e em adágio cantabile pronuncio
as palavras da nênia ao meu defunto,
perdido nele, o ar sombrio.
(Me reconheço nele e me apavoro)
Me reconheço nele,
não os olhos cerrados, a boca falando cheia,
as mãos cruzadas em definitivo estado, se enxergando,
mas um calor de cegueira que se exala dele
e pronto: ele sou eu,
peixe boi devolvido à praia, morto,
exposto à vigilância dos passantes.
Ali me enxergo, à força no caixão do mundo
sem arabescos e sem flores.
Tenho muito medo.
Mas acordo e a máquina me engole.
E sou apenas um homem caminhando
e não encontro em minha vestimenta
bolsos para esconder as mãos, armas, que, mesmo frágeis,
me ameaçam.
Como não ter medo?
Uma noite escura sai de mim e vem descer aqui
sobre esta noite maior e sem fantasmas.
Como não morrer de medo se esta noite é fera
e dentro dela eu também sou fera e me confundo nela e
ainda insisto?
Não é viável.
Nem eu mesmo sou viável, e como não? Não sou.
O que é viável não existe, passou há muito tempo
e eram manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva
e eu menino.
Eram manhãs e tardes e manhãs sem pernas
que escorriam em tardes e manhãs sem pernas
e eu sentado num tanque absurdamente posto no meio da rua,
menino sentado sem a preocupação da ida.

E era todo dia.
Havia sol
e eu o sabia
sol: era de dia

Havia uma alegria
do tamanho do mundo
e era dia no mundo.

Havia uma rua
(debaixo dum dia)
e um tanque.
Mas agora é noite até no sol.


MARGINÁLIA II

(Música de Gilberto Gil)


eu brasileiro confesso
minha culpa meu pecado
meu sonho desesperado
meu bem guardado segredo
minha aflição
eu brasileiro confesso
minha culpa meu degredo
pão seco de cada dia
tropical melancolia
negra solidão
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
aqui o terceiro mundo
pede a benção e vai dormir
entre cascatas palmeiras
araçás e bananeiras
ao canto da juriti
aqui meu pano de glória
aqui meu laço e cadeia
conheço na lua cheia
e termina antes do fim
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
minha terra tem palmeiras
onde sopra o vento forte
da fome com medo muito
principalmente da morte
a bomba explode lá fora
agora o que vou temer
oh yes nos temos banana
até pra dar e vender
o lê lê lá lá
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo


ALGUMA PESQUISA

Livros:

Calado, Carlos. Tropicália – A História de uma Revolução Musical. São Paulo, Editora 34, 1997.
Favaretto, Celso F. Tropicália: Alegoria, Alegria. São Paulo, Ateliê Editorial, 1996.
Maciel, Luiz Carlos. Geração em Transe: Memórias do Tempo do Tropicalismo. Rio de Janeiro, Noteira, 1996.
Neto, Torquato. Os Últimos Dias de Paupéria. São Paulo, Max Limonad, 1982 (2a. Edição).
Salomão, Waly. Armarinho de Miudezas. Bahia, Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.
Veloso, Caetano. Alegria Alegria. Rio de Janeiro, Pedra & Ronca, s.d.
Veloso, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

Filme:

Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália, de Ivan Cardoso.


Periódicos:

Jornal do Brasil, 06 de Maio de 1974.
Jornal da Tarde, 10 de Novembro de 1982, página 11.
Régis Bonvicino Entrevista Décio Pignatari, agosto de 1982.
Depoimento de Duda Machado, Folha de S. Paulo, 08 de Novembro de 1992.
Jornal O Globo, 15 de Novembro de 1992.


(25 de setembro/2003)
CooJornal no 333


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm