16/10/2003
Número - 336

 


Antonio Júnior




A CONSCIÊNCIA SEM COR EM BUSCA DE SUA IDENTIDADE




O que devemos entender por racismo? A questão pode ser facilmente identificada em países, digamos, como os Estados Unidos da América, cuja resistência de setores à integração racial é explícita. Não é fácil de responder quando se trata do nosso Brasil, meu caro leitor. Aqui o próprio conceito de raça é complicado, destacando-se a Bahia, cuja capital é a segunda cidade do mundo com o maior número de negros. É uma questão de intimidade afetuosa e permitida um preto ser chamado de negão, não um desprezo enrustido. As ambigüidades são sedutoras, infames são os germes de intolerância como também de oportunismo, e o pior é que essas inclinações sobrevoam muitas cabeças. Uma tristeza. Sutilmente, serpenteia-se entre nós a revisitação neo-fascista, reciclagem conservadora e atrasada em que os pastiches copiam a si mesmos. Numa sociedade cafajeste, um movimento contra o embuste soa grotesco e ingênuo. Em cada coração mora o bizarro, e o fundamental é educá-lo ou mesmo ridicularizá-lo, gozando da cara dos nossos enigmas mal-resolvidos. São muitas as afirmações que desafirmam ou desafirmações que afirmam; idéias insólitas que entram e saem e entram; pistas que vão do nada para coisa nenhuma. Precisamos refletir sempre.

Uma boa parte da raça negra afirma que sempre teve um grande complexo de inferioridade. Possivelmente têm origem no passado escravocrata, ofensivo, e no conceito branco de considerar negros seres inferiores. É inacreditável, mas inclusive muitos negros caíram durante muito tempo nesse conto do vigário. Partindo para a literatura, que é a minha praia, meu leitor, nos anos cinqüenta o preto Ralph Ellison escreveu o magistral Homem Invisível, um livro que permanece no topo da melhor literatura, discute a alienação social e trata o racismo de forma contundente. Só ganhou edição brasileira em 1990, pela Editora Marco Zero. Mais de trinta anos após o seu lançamento Machado de Assis, um dos nossos maiores escritores, autor de dois ou três clássicos presentes em qualquer lista nacional por sua importância, nunca assumiu a condição de mulato. Recentemente, Paulo Lins surgiu com garra, mas precisamos de muitos outros escritores e poetas negros de qualidade a toda prova.

Com raras exceções, quanto mais escura a pele, menor é a chance de representar um papel fundamental no mundano. Fecham-se inesperadamente as portas que levariam ao caminho da prosperidade, da sabedoria ou mesmo do status almejado por um batalhão de hipnotizados, brancos e negros.  Seria o caso de perguntar se existe um preconceito racial velado em uma maioria de corações? Não quero pensar nessa opção que fere sensibilidades. Certa vez, uma vizinha idosa e solitária, muito doente, recusou-se a ser cuidada por enfermeiras negras. Uma agressividade maluca, um erro estratégico irracional. A solução não me parece o separatismo, o gueto, como parece defender os que se “intitulam amigos da causa negra”; melhor a participação do negro em igualdade de direitos na formação de uma política cultural justa. Em muitos países civilizados, embora ainda lentamente, negros assumem posições de lideranças em todos os campos profissionais, da política às artes. E merecemos, sim senhor. Gilberto Gil como Ministro da Cultura demonstra que as coisas estão mudando também no Brasil. Já se foi o tempo do ministério de fachada do Pelé, que não passava de um garoto-propaganda do governo, potenciando a imagem de que os negros só são bons como jogadores de futebol ou coisa desse estilo. Mas não me venham com a tal “consciência negra”, “identidade de pele” ou o patético “afro-brasileiro”. Guetos me lembram campos de concentração, ou seja, extermínio radical. O negócio é misturar, fazer da vida uma salada de frutas.

O mundo é um mercado de farsantes. O truque do politicamente correto é mais um produto babaca, armação para vender jornais. Tudo bobagem, caro leitor, nada mais do que bobagem. O importante é respeitar o próximo e sua forma de viver, nada mais. Para isso, atropelemos sem piedade a mediocridade existencial. O resto não é silêncio, somente especularização barata.



(16 de outubro/2003)
CooJornal no 336


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm