23/10/2003
Número - 337


Antonio Júnior




O  CHARADA




Às duas e tanto da madrugada começo a sentir sono. Fecho o meu Diário. Curiosamente não consigo fechar os olhos e, assim como quem está dormindo acordado, me pego perseguindo a ação de uma lagartixa engolindo um mosquito, a cor escarlate de uma orquídea, a paciência das aranhas e as faíscas das estrelas vistas através da janela aberta. Os flashes de luz prateada surgem, desaparecem e retornam. Na lenta semi-escuridão recupero sensações difusas sem ordem nem precisão. Com a mente atordoada, sem saber no que pensar, resolvo enumerar alguns temas para a crônica do dia seguinte. Poderia escrever sobre o poeta e letrista tropicalista Torquato Neto, sobre as cortesãs das avenidas urbanas ou ainda sobre André Gide, o autor de Corydón. Não! Parece inegável que alguém diria: “Lá vem ele com seus autores estrangeiros. Que esnobe!”.

Poderia escrever sobre uma adorável amiga que morreu recentemente, mas é tão melindroso falar de mortos íntimos. Quem sabe lembre os efervescentes anos 80, acampando no Arraial D´Ajuda, passando o ano novo em Parati, vendo shows no Rock in Rio, galinhando no Porto da Barra. Poderia falar da leitura dramática vista dias atrás na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, Demais, de Menos: Disforme, com um elenco de feras. Um texto que fala de canibalismo, sentimentos ordinários, luta de classes e o vazio de todos nós. Pena que alguns atores gritassem tanto. Não suporto atores, cantores ou qualquer tipo de gente que grite. Cada vez falo mais baixo, até o momento em que apenas sussurrarei. Deveria contar sobre estes meses em que moro em Salvador ou recordar os tempos como repórter de tevê? Creio que repórter de tevê é a profissão mais estressante que existe. Toda vez que aparecemos na telinha vendemos um pedaço da alma. Nada de lembranças. Estou exausto de tantas experiências. Felizmente esqueço inúmeras passagens dos meus pecados. Que alívio!

O esquecimento é um privilégio. À beira das fronteiras do sono contemplo a infinitude do céu, engolindo o silêncio assustador. Nesse deserto noturno sem contornos poderia escrever diretamente para um leitor moçambicano que viu poesia e verdade na minha prosa. Mas não é o momento para responder mensagens de leitores. Eu escrevo para esquecer, para arrancar do peito as aflições, nunca para receber elogios. A noite é uma charada e divido o apartamento com uma espalhafatosa solidão. Levanto e coloco uma música que me lembra alguém que nunca mais verei. Eu o matei, enterrando o seu corpo na caverna mais escura do coração. Gosto de estar sozinho, é a mais pura aventura de autodescobrimento. Individualista que sou, morar sozinho não significa estar abandonado e sim, a melhor maneira de assegurar a privacidade e controlar todo o ambiente abstrato.

Não falarei da solidão nem do seu sorriso honesto e perturbador, do seu jeito de beijar de olhos abertos, exibindo olhos de defuntos, tão brancos e petrificados como os dos personagens de filmes de horror. Eu tenho certeza de que não quero lembrá-lo, nada de escrever sobre os seus sussurros, sua obsessão sexual, os banhos e gargalhadas divididos. Não escreverei sobre a caminhada de mãos dadas num Jardim Botânico, tampouco da poesia rabiscada num restaurante ousobre o retrato 3X4 que mandou via correio e guardei na carteira. A madrugada me devolve sua voz, seu olhar, sua angústia. Basta, você está morto! Eu o matei com centenas de punhaladas de esquecimento. São três horas da manhã e o ar do quarto cheira a sexo. Amanhã, bem cedinho, irei passear no Dique do Tororó e esperarei por você, meu Nada. Já estou esperando. Não venha! A lagartixa, a aranha, as orquídeas, a música romântica e as estrelas, cheias de esperança, acompanham a minha guerra particular, sem saber que quando amo estou simplesmente dizendo Adeus. Entendeu, baby?



(23 de outubro/2003)
CooJornal no 337


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm