06/11/2003
Número - 339


Antonio Júnior




SUAVE É O CORAÇÃO ENAMORADO




Em Toledo, visitando um amigo poeta, notei nos seus olhos uma névoa melancólica e um certo desassossego, como quem esconde um monstro debaixo da cama. Nesta tarde bastante fria, caminhando pelas ruas de tantos crimes e intolerâncias do franquismo e da igreja católica, procurei falar dos sentimentos ocultos em todos nós. Ele desconversou. Visitamos um pequeno museu, e enquanto eu me maravilhava com O Enterro do Conde Orgaz, de El Greco, percebi que seus olhos estavam distantes, indiferentes a tudo.

Passei o resto da tarde sozinho, lendo, e interrompendo a leitura ao lembrar a expressão sofrida do meu velho amigo. Ele é o mais recente sócio de um clube universal dos dependentes da dor. Tenho percebido nos últimos meses que uma série de amigos andam desanimados, murchos. Recebo algumas mensagens eletrônicas que me assustam e me tocam o coração. Parece que ninguém sabe de onde vem esse descontrole, não há qualquer motivo aparente. Será que se inquietam inconscientemente pelo presente ou pelo futuro? Esteban, esse amigo de Toledo, depois de uma garrafa de um bom Rioja insistiu que na sociedade atual, a arte e a poesia nada representam.

"Quanta gente hoje lê poesia?", perguntou com amargura. Uma amargura a meu juízo compreensível, porém injustificada. Porque a poesia não se escreve para aqueles que lêem habitualmente poesia, a poesia se escreve para os que nunca lêem, nem vão ler jamais poesia. É a esperança dessa gente, o salto de um destino limitado e implacável, mesmo que não se apercebam disso. Enquanto ele falava observei os seus olhos concluindo que a frustração e o desencanto sempre são frustração e desencanto de nós mesmos e nunca o resultado da ação do mundo exterior, tão indiferente as nossas enfermidades.

A frustração e o desencanto tão só servem para deformar o mundo que nos rodeia, privando-o de seu movimento e expressão. Talvez esta civilização urbana e industrial, que nos há tocado viver, não saiba encarar os "efeitos do coração". E de alguma forma há chegado a hora da verdade para uma raça que, até agora, somente acreditou no consumo e no poder. Nesta situação caótica, indefinida, caímos na tentação de entregar-nos ao desencanto e a nostalgia. A frustração e o vazio impedem o homem de enxergar a essência da vida, com sua alegria e dor, seus prazeres e crueldades, seu desespero e esperança, e exige do artista transformar sua queda aos infernos em material criativo. Acredito que para exorcizar os malefícios de uma realidade exterior abominável ou se transforma o abominável em beleza ou se fecha os olhos para a abominação e a crueldade, selecionando o belo possível para que, convertido em esteticamente "seleto", permita um prazer sem perturbações.

Aposto na beleza do coração enamorado. É o melhor remédio para não se deixar abater. O jasmim que levo no coração, comovido, exala aroma diante do enamoramento. É uma forma de seguir por mapas de esperança. A realidade é um assunto muito subjetivo. Não adianta buscar a si mesmo, sem gostar do que encontra. Muita gente acredita que o individualismo é o único modo de sobreviver a pérdida do sentido do universo e do mundo. Todo o prazer pela vida se baseia em um retorno regular, intenso e enamorado às coisas externas. A beleza de um desconhecido, as longas noites, os frutos maduros, e muitas outras coisas, ativam a vida terrena.

É necessário estar de olhos bem abertos, espantar o tal estado de desânimo do espírito, questionar todas as coisas em que acreditamos. Podemos enganar a todos, menos a nós mesmos. Eu me recuso a perder a inocência, mesmo sabendo que o inferno está próximo. E a inocência é o ponto de partida para um coração enamorado, suave. Nessa sociedade corrupta e injusta vivo num mundo que eu construí com a palavra e com a projeção do desejo e da idéia. E a idéia é o enamoramento, é o próximo, é a poesia de viver.




(06 de novembro/2003)
CooJornal no 339


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm