13/11/2003
Número - 340


Antonio Júnior

 

Os poetas Manuel Bandeira e Antonio Júnior escrevem sobre o mito Marlene Dietrich

 


  Marlene
por Manuel Bandeira (*) 


Ainda será tempo de falar de Marlene Dietrich? Não a vi quando de sua passagem pelo Rio: televi-a apenas, o que não é a mesma coisa, sobretudo levando em conta como foi tecnicamente imperfeita a sua apresentação (viam-se mais as costas do locutor do que a figura da artista). 

Todavia, resistiu ela a tudo o que, desde o Anjo Azul, me impressionou como essencial no extraordinário encanto da mulher Marlene – aquele sorriso de olhar infinitamente apiedado e que parece dizer-nos, sem gosma de sentimentalismo, aliás: “Criança, a vida é tão absurda, tão triste!”. Mas a vinda de Marlene proporcionou-nos um espetáculo bem divertido, que foi a polêmica entre os cronistas C.D.A. e Vinicius de Moraes. Defendendo cada um a sua estrela, C.D.A. Greta Garbo, Vinicius a Marlene, reviveram ambos galhardamente os dias românticos em que Castro Alves e Tobias Barreto se digladiavam no Recife por causa de duas artistas da mesma companhia no Teatro Santa Isabel.

Para Vinicius Marlene é  a mulher, talvez a mulher-idéia de Platão, ou o Eterno Feminino de Goethe; para C.D.A a Garbo é um mito. Vinicius tomou nojo da sueca porque a viu, num coquetel de Mlle. Schiappparelli, recusar uma beberragem estranha onde boiava uma pétala de rosa e pedir vodca. Tive vontade de acudir em auxílio de C.D.A, fornecendo-lhe certo trecho de carta de Vinicius, datada de 49 em Hollywood, na qual o poeta me contava a sideração em que ficara ao cruzar na rua com o Mito. 

Mas procurei a carta e não a achei. Achei foi outra, em que ele me falava de Marlene: “Você sabe, ela está cada dia mais linda, mais elegante, mais tudo. É uma mulher incrível, sem o menor desgaste, e de uma naturalidade fantástica. Tira fotografias de publicidade com o netinho, sem dar a menor bola para a legião de apaixonados que tem aí – por esse mundo todo. Eu, depois que a vi com o neto ao colo, fiquei mais apaixonado do que nunca. Imagine você a gente a...”. Bem, não posso transcrever o resto, mas a avó Marlene tentava o poeta. “Isso nunca me aconteceu, pelo menos que eu soubesse”, concluía Vinicius.

Quanto a mim, o que me ficou de todos os filmes em que vi Marlene foi aquele sorriso a que me referi no começo destas linhas. Lembro-me fortemente é de seus “partners”. Jannings, no “Anjo Azul”, Gary Cooper, em “Marrocos”, ao passo que da Garbo me recordo nitidamente, indeslembravelmente, em todos os filmes, sem ter a menor reminiscência dos homens – e eram todos astros – que trabalharam com ela.

(*)Publicado na Folha da Manhã, em 09/08/1959.

  

MARLENE, A SEREIA DE OLHAR FULMINANTE (*)

Antonio Júnior (**)


A substância da sereia germânica Marlene Dietrich (1901-1992) surgiu do mais puro fetiche. Ela se ocupa do êxtase, da sexualidade, do mundano, do sublime – das paixões do coração humano. Não sei que idade tinha quando a vi pela primeira vez. Recordo-me que atravessava a idade da inocência, insuficiente para ver filmes depois da meia-noite. Mas tive a sorte de ver à beira da tevê, Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution, l958), de Billy Wilder. É a melhor atuação da atriz, embora a beleza indomável já não tão fresca denuncie os mais de 50 anos. Não consegui dormir hipnotizado pelo magnetismo de aranha, salamandra ou qualquer espetacular animal cujas escamas brilham ao sol. Procurei os olhos maiores do que os normais, frios, o sorriso irônico e impiedoso, e as sobrancelhas grandes e arqueadas em videotecas e cinematecas. Assisti todos os seus filmes da fase hollywoodiana e, mais de uma vez, os sete filmados sob as ordens de Joseph von Sternberg. Depois do êxito de O Anjo Azul (Der Blaue Angel, 1930), onde vestida de meias de liga e chapéu, tornou famosa a canção “Estou pronta para o amor da cabeça aos pés”, fez mais 34 filmes, passando pelas mãos  dos mestres Pabst, Lubitsch, Fritz Lang, René Clair, Orson Welles e Hitchcock.

Li suas duas autobiografias, que pouco revelam,  e outros livros que contam a sua trajetória. Mas memórias quase sempre são desnecessárias, pois ninguém conhece a si mesmo nem pode dizer a verdade a respeito dos amores de sua vida. Visitei o luxuoso apartamento que vivia, na avenida Montaigne, em Paris; apreciei o documentário sobre sua vida dirigido por Maximilian Schell, parceiro de elenco em Julgamento em Nuremberg (Judgement at Nuremberg, 1961),de Stanley Kramer; não engoli as declarações amargas de sua filha Maria na BBC. Resumindo, mergulhei na estranha experiência de beleza, de glamour demasiado, dilacerante. O mito Marlene é paraíso e inferno, o bem que se desfruta e o mal que se padece, tudo o que convém à promoção do prazer. Redes, armadilhas, truques, perfídias, neurônios, fumaça, jogos e álcool. Um hábito, um poder, uma disposição, um ato. A estrela fabricada para encarnar a emancipação sexual e econômica da mulher moderna. A Vênus Loira que fez gato e sapato dos homens até a criação do código Hays de censura, em 1934. 

Maria Magdalene Dietrich Von Losch nasceu em Berlim, criada numa rígida educação prussiana estudou música, fez teatro com o mítico Max Reinhardt e encontrou o sucesso pelas mãos de Sternberg, que a levou para Hollywood. A Paramount quis transformá-la na mulher mais bela do mundo para fazer frente à MGM e à sua estrela, Greta Garbo, também importada da Europa. “Foi preciso mais de um homem para trocar o meu nome por Lily Shangai”, diz arrepiando platéias em O Expresso de Shangai (Shanghai Express, 1932). Quando chegou aos 50 anos e as ofertas cinematográficas rarearam, usou a voz grave e sensual como cantora, apresentando-se em todo o mundo, inclusive no Rio de Janeiro, no Copacabana Palace (ver crônica de Bandeira). A imagem de “femme fatale”, unânime, não se abalou com o pânico que um nome alemão gerava nos primórdios dos anos 40 nem com o passar do tempo, porque viveu a velhice como uma experiência elevada e autêntica. No entanto, a lendária Dietrich não era a mais bela do cinema. Gene Tierney, Ava Gardner ou Hedy Lamarr superavam-na, mas ela ia mais longe: misteriosa, luz e sombra, complexa, provocadora de terremotos emocionais. Fumava com extraordinária sedução. Nem a poderosa Bette Davis lhe passava a perna na nuvem de fumaça. Marlene pode ser interpretada como um estado da imaginação, um vislumbre penetrante do desejo. Sua figura elegante, porte aristocrático, viço e as magníficas pernas colocadas no seguro por um milhão de dólares fizeram dela o protótipo da mulher impossível. Indicada para o Oscar por Morocco (Marrocos, 1930), foi mais que uma atriz, possivelmente uma espécie de símbolo demoníaco, o próprio pecado ornamentado. É difícil não se deixar encantar por seu rosto cheio de pontos de luz, olhar duro repleto de promessas, impassível sarcasmo, voz rouca pronunciando palavras apaixonadas. Surgia um réptil único, de reações magnéticas e sensibilidade cintilante.

Ao chegar em Hollywood em 1930, sua beleza natural morena e um pouco gorda como as germânicas, não bastou, e o pigmalião Sternberg pintou seus cabelos de um quase dourado, afinou o rosto arrancando os dentes traseiros, esculpiu o corpo pelas mãos de uma massagista, arqueou suas sobrancelhas além do normal, alongou e escureceu as pestanas superiores e deu aos olhos a ilusão de serem muito grandes pelos artifícios da maquilagem, através de uma linha branca desenhada no interior das pálpebras e que ela estoicamente suportava sem lacrimejar. Nascia o símbolo andrógino, a vamp que escandalizou a opinião pública ao aparecer vestida masculinamente na estréia em Hollywood de O Sinal da Cruz, em 1932, protagonizado pela sua então namorada Claudette Colbert. Era o gênio e a criatura, o criador e o personagem. “Marlene sou eu”, disse o cineasta numa entrevista. A star terminou devorando o talentoso mentor que nunca mais foi o mesmo depois dela, e seguiu provocando reações ambíguas ao beijar a boca de uma mulher numa cena de Marrocos, tornando-se companheira de escritores como Hemingway e Erich Maria Remarque, recusando o convite de Hitler e Goebbels para ser a principal estrela nazista, cantando Lili Marlene para as tropas norte-americanas. Sua deserção constituiu uma importante vitória aliada na intensa guerra de propaganda entre o partido nazista e Hollywoood. Quando retornou a Berlim, em 1960, foi vaiada e recebida com faixas “Marlene, go home”, acusada de ter traído sua pátria,  nunca mais retornando ao seu país natal. 

Marlene Dietrich, gafanhoto magnífico devorador de homens e mulheres, não considerava o casamento coisa séria. É a mulher fatal por definição, esta que nos dá um sentido e um destino a vida para converter-nos em objetos usados e jogados fora. Não é à toa que seu verdadeiro nome é Maria Madalena.  Quando a vi em  The Devil is a Woman (A Mulher é o Demônio, 1935), soube que ela amava a si mesma e que não se podia permitir qualquer rival neste amor. Idosa, a deusa passou a ser esculpida por cirurgiões plásticos, a silhueta mantida por fortes corpetes, os seios eroticamente recriados por duas pérolas que ela colocava debaixo do soutien. Nos últimos anos de vida, com o esbelto corpo em ruínas, refugiou-se até a morte em seu apartamento de Paris, somente permitindo ser visitada pelos mais íntimos.

Rita Hayworth, Marilyn ou qualquer outra não chegou à altura de seu genuíno magnetismo, da perfeita anatomia, dos dotes para cativar a câmara, que converteram-na em estandarte erótico de uma cinematografia. Madonna imitando-a é uma piada; Sharon Stone é uma mulher de carne e osso, nunca uma deusa que povoa o imaginário coletivo. Embora a sua voz provocasse estremecimento com canções quase faladas, Marlene não era cantora, talvez nem mesmo atriz, estava além de tais rótulos. Agora é esperar o filme dirigido por Joseph Vilsmaier sobre sua vida, ler suas memórias onde fala com sinceridade sobre vícios ou ir ao Museu de Cinema de Berlim, descobrindo fotos do tempo de seus romances com Edith Piaff ou a roteirista espanhola Mercedes de Acosta. Não sei se qualquer uma dessas opções realmente vale a pena. Certa vez vi em Londres uma exposição do figurino de Kismet (1944), e os vestidos, belos, não tinham vida, pois faltava a diaba. A diaba coberta de fumaça, ar enjoado, olhar lascivo, uma sugestiva queda nos olhos e sorriso de desprezo, que onze anos depois de desaparecida continua sendo um convite aos sonhos mais quentes. A diaba idolatrada por milhões que morreu quase só, velha e feia, nos braços da empregada doméstica. Passados todos estes anos, pergunto-me por que não existem belezas como esta, belezas com que Hollywood magistralmente nos foi iludindo. Razão tinha Norma Desmond quando, sob a luz fraca do projetor, se revê num filme mudo do seu apogeu de estrela e diz, numa memorável passagem de O Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950): “Continua a ser maravilhoso, não continua? E sem diálogos. Não precisávamos de diálogos. Tínhamos rostos. Já não há rostos como aquele”.

(*) Maria Magdalena von Losch ou Maria Magdalene Dietrich, aliás, Marlene Dietrich, aliás Miss Dietrich, aliás Marlene, aliás Lili Marlene, aliás Lola Lola, aliás Lily Shangai, aliás Amie Jolie, aliás Madeleine de Beaupré, aliás...

(**) Escritor, Poeta e Jornalista. Autor de ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo (2003).

 

Referências
Manuel Dias Coelho: “A Beleza – Der Blaue Engel”. Ícon, Portugal, 2001, pág.20.
Fabio Cypriano: “A Bela e a Fera”. Folha de S. Paulo, 2002.
Erik Hanut: Desejo-lhe Amor – Conversas com Marlene Dietrich / I Wish you Love. Mandarim, 1996-98.
Marlene de A a Z.
A política dos Autores
. Assírio & Alvim, Portugal, 1976.



(13 de novembro/2003)
CooJornal no 340


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm