23/01/2004
Número - 352

 


Antonio Júnior

 

ASSIM CAMINHA A PAULICÉIA DESVAIRADA

 


O nosso interesse pelo que poderia vir, como arte fundamental, da evolução da teledramaturgia brasileira, até hoje não encontrou um movimento coletivo artístico consistente e marcante. Depois dos veteranos Walter George Durst e Walter Avancini, poucos se destacaram solitariamente: a mão firme na direção de atores de Denise Saraceni; Guel Arraes, vindo de programas de humor refinado, desenvolvendo o precioso espetáculo O Auto da Compadecida (1999); o audacioso Luiz Fernando Carvalho, que têm no currículo Renascer (1993) e O Rei do Gado (1996-97), marcando época com o fiasco de audiência Os Maias (2001), uma impressionante obra da técnica global. Mas a tevê tupiniquim ainda deve-nos originalidade e toda uma gama de aprofundamentos estéticos. Esse julgamento nos leva a uma conclusão decepcionante, caro leitor, a teledramaturgia nacional é ingênua como relato, superficial como problemática humana e dramática, e pouco arejada e evoluída.

O diretor de núcleo (no caso, minisséries) Carlos Manga, 76 anos, repete com Um Só Coração (2004) o espírito e o estilo de lendárias obras da Rede Globo, como Anarquistas, Graças a Deus (1983) e Terra Nostra (2000). Conseguiu, porém, apenas imitá-las. A criação luxuosa, planejada, em que o intuito de acertar é evidente, fica tão à mostra, que não consegue se impor como realização autêntica. Utilizando modernos recursos, Manga não conduz a obra para um admirável mundo novo e sim para uma visão superficial, insípida e acadêmica da realidade. Ele não reproduz com veracidade movimentos culturais fundamentais para a evolução do nosso país (a Semana de 22, a fundação do Museu de Arte Moderna, a Bienal de São Paulo etc.). Seguro da concessão que faz ao gosto popular, o diretor desacerta no resultado conservador, meticuloso e inverossímil, que nos impressiona pela riqueza de detalhes e atores renomados, e nos é indiferente, pelo que há de anódino nas suas intenções.

Um dos poucos veteranos do cinema nacional na ativa, sinônimo de inabalável sucesso financeiro, Carlos Manga atravessou muitas fazes dessa indústria. Importante diretor da chanchada, fez dezesseis filmes com Oscarito e na década de 60 dedicou-se a tevê, dirigindo shows, programas humorísticos e especiais. Encarna ele, por isso mesmo, o cinema e a tevê como progresso industrial, como fábrica de mercadoria de colocação obrigatória e, portanto, de validez econômica. Feito Daniel Filho, é hábil artesão com curtas ambições artísticas. Como em todos os filmes de sua longa carreira, nota-se em Um Só Coração a aplicação do cinema-espetáculo; o desprezo a psicologia, atendo-se ao acontecimento exterior; e adoção da edição cronológica e linear ligada a espaços bem definidos e caracterizados. Como se vê, razões técnicas e populares, e não artísticas, comandam o seu processo narrativo. Esta é a falha mais evidente dessa minissérie e provavelmente a razão de seu agrado imediato. Mas a obra não deixa de ser bem desenvolvida, a direção geral de Carlos Araújo dá o seu recado de forma eficiente e tem um cuidado artesanal elogiável em todos os níveis, mesmo com os cenários “arrumadinhos” de Raul Travassos.

Autora de renomada experiência teatral (Bodas de Papel, Querida Mamãe), premiada muitas vezes com o Moliére, Maria Adelaide Amaral é garantia de diálogos sensíveis e de personagens que deliciam atores de gabarito, mas peca nos argumentos insossos e talvez por isso tenha se especializado em adaptações literárias. Fez bonito com A Muralha (2000) e Os Maias, e depois do sucesso da mediana A Casa das Sete Mulheres (2003), volta com sua quarta minissérie, tendo desta vez Alcides Nogueira como parceiro de escrita. Um Só Coração é uma superprodução que pretende homenagear os 450 anos da capital paulista, estreando no dia 06 de janeiro com a boa audiência de 35 pontos no Ibope. A história começa a ser contada em 1920 e vai até 1952, misturando personagens reais e fictícios e tendo como pano de fundo a evolução cultural de uma metrópole.

O elenco de mais de 60 atores é imponente, embora nos leve ao fracassado romance de época, Esperança (2002), envolvido que está com a atmosfera fotográfica quase sépia, personagens donos de intermináveis plantações de cafés e idas e vindas no cotidiano de imigrantes. Tarcísio Meira brilha e supera maneirismos dando-nos um Coronel Totonho farto de perversão e demonismo; Ana Paula Arósio, a nossa Jodie Foster, não faz nada de novo e faz bem, repetindo a protagonista grã-fina de forte personalidade, elegante, apaixonada e independente; Cássia Kiss, como a sua mãe, Guiomar Penteado, matriarca da alta aristocracia rural paulista, está excelente, situação exemplar que se repete desde a Leila de Vale Tudo (1988-89); a carnal Maria Fernanda Cândido, aceitável, mas sem oportunidade, entre em cena triunfante posando como modelo para a tela Salomé; Marcello Antony, belo como um príncipe de contos-de-fadas, não convence como o mulherengo, irresponsável e até mesmo vilão Rodolfo, ele é um colírio necessário para olhos fatigados e nada mais. Ariclê Perez e Pedro Paulo Rangel evidentemente roubam cenas. Os personagens artistas - e reais - não disseram ainda a que vieram, parecem fantoches, e até mesmo a cintilante Eliane Giardini, que faz a pintora Tarsila do Amaral, não empolga. Santos Dumont, Assis Chateaubriand e Mário de Andrade admirando sensualmente o sexo feminino é piada forçada e machista. E a lúcida história da nossa vida privada? Já a experiência amorosa entre Yolanda Penteado e o pobretão Martim Paes de Almeida não é estabelecida com desejo, o ator Érik Marmo, aliás bastante fraco, não sabe disfarçar o sotaque carioca e é doce como uma garotinha inocente. Ah, caro leitor, vê-lo com a poderosa e sutilmente masculina Arósio é como se assustar com a visão de uma serpente pronta para devorar um pequeno pássaro. Marmo seria a tal ave frágil e pouco preparada para defender-se do olhar hipnotizante do réptil sedutor. Boa nova é a volta de Selma Egrei como figura emblemática da vida cultural e social de São Paulo, uma socialite e mecenas das artes. Vamos também esperar com ansiedade Carlos Vereza no papel de um professor judeu fugitivo da Alemanha nazista e Daniela Escobar vivendo a bailarina estrangeira Soledad. Vereza é um dos maiores atores brasileiros e a expressiva Escobar ainda não teve a merecida chance seja no cinema ou na tevê.

O rico folhetim começou a ser gravado em outubro do ano passado, em Santos, Campinas, Bananal, Rio das Flores e na cidade cenográfica no Projac, e cada capítulo tem custado a fábula de 200 mil reais. Mesmo ostentando um ar acadêmico e tomando liberdades com a história em função de necessidades dramatúrgicas, não deixa de ser um painel de certa sociedade paulistana e não envergonha a tradição do gênero, muito pelo contrário. Bem intencionada e competente, Um Só Coração pode ser acompanhada ao longo de 52 capítulos e tem um repertório de belas canções. A abertura de Hans Donner e a direção musical de Mariozinho Rocha afirmam semana após semana o mofado padrão global de qualidade. Pretendendo entrelaçar documentário e melodrama, a minissérie parece esquecer o mais importante: o entusiasmo criativo que liquide a mesmice e a concepção artística artificial. Afinal seria pouco significativo ficar na memória como clone dos esnobes e ingratos filmes da Companhia Vera Cruz. Quem sabe a autenticidade não estaria na opção pela chanchada?


(23 de janeiro/2004)
CooJornal no 352


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm