13/02/2004
Número - 355


Antonio Júnior

 

NA TERRA DAS SEMPRE-VIVAS

 


Chegamos num sábado com o vento do entardecer. A luz já caía, as serras estavam cinzentas sob o céu desbotado e estrelado. A noite era sonora de insetos e mistérios, costurada pela ausência de olhares sobre seu esplendor obscuro. Escutava-se como que sua textura, seus passos. Eu estava ali para isso, para ver o que os outros ignoram sempre, esta solidão do auto-conhecimento, necessária como os pensamentos de grunhidos e de nada. Depois da calma noturna, seguiram-se dias de cor e cintilância. Pedras deslizando na paisagem árida e fios d'água brotando de suas entranhas. Pequenas palmeiras, árvores floridas e o horizonte de uma amplidão espantosa. A lua explode em faróis de luz, enquanto estrelas cadentes riscam os céus de inúmeras constelações.

Na vila de Igatu, numa tarde e numa noite sem energia elétrica, os corações palpitaram suavemente, quase românticos. Eu ri e o meu rosto serenizou durante esses nove dias e oito noites na Chapada Diamantina com os parceiros de aventuras Zelinha e Bi. Lá encontramos os amigos Dida Murta e Sylvia Patrícia, além de figuraças como Marcos Zacariades, dono da Galeria Arte & Memória, e Odete, uma dedicada funcionária da Estalagem Gota d`Água. Na inocente festa de Ano Novo, a banda Cadente Star tocou velhos sucessos no mercado municipal. Uma alegria só! Já o bizarro bairro de São Luís, formado por ruínas de casas abandonadas, foi o lar de garimpeiros, comerciantes e prostitutas, cenário de romances de Lindolfo Rocha e Herberto Salles.

Enxerguei flores elaboradas, a seca consumindo lagos e rios, pedras gigantescas e cinzentas, calangos e ágeis colibris, a gente humilde e simpática. É uma terra onde o sol demora a nascer. Por volta das dez, até das onze, em pleno verão tórrido baiano, a temperatura é meio sombria e até um pouco fria. Há bromélias douradas plantadas em precipícios como jardins orientais. Samambaias caindo numa profusão exuberante. Cachoeiras, rios, grutas, riachos, poços, pontes, aquedutos. Nos quintais: mangueiras, jaqueiras, limoeiros e pitangueiras. O terrível nestes lugares de boa onda são os humanos das metrópoles metralhando experiências turísticas e admirações recentes. Um saco, os chatos pseudo-civilizados! Não olhava para eles, como se não existissem, como se eles jamais tivessem existido.

Situada no município de Andaraí (do tupy, rio dos morcegos), Igatu surgiu por volta de 1844 como resultado do ciclo diamantino. No seu auge aglomerou cerca de nove mil pessoas, mas com a decadência da atividade garimpeira foi deixada para trás, e sua população passou a possuir pouco mais de 200 habitantes em 1970, que sobrevivia basicamente da coleta das flores sempre-vivas. Terra dos índios cariri e de escravos fugitivos há nela qualquer coisa de esotérico, de silêncios e segredos extraterrestres. Vi-a bem. Vi o cinza dos olhos invisíveis cheios de diamantes do olhar, um brilho discreto, úmido, precioso. Vi a luz forte sobre vastas zonas de mandacarus, as noites mornas vindas dos dias de janeiro, as sombras frescas das casas coloniais, as formas perturbadoras na escuridão, o cemitério branco e bizantino. Vi o esquecimento e cantei imperfeitamente o seu canto.

Caminhei longe do meu corpo, e não olhei para ele, possuído pelo azul profundo, a ponto de ali deixar a vida no gozo insondável de por isso morrer em paz. Mas estou aqui, vivo e feliz, novamente na grande cidade, recordando e fechando a minha mão sobre a sua, meu caro leitor, levando-o para conhecer a possível beleza como se nada mais importasse. E tudo isto não é inventado, e tudo isto pode ser negado. É só uma questão de olhar.



(13 de fevereiro/2004)
CooJornal no 355


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm