27/02/2004
Número - 357


Antonio Júnior

 

AS MULHERES: CANSADAS, SIM, SACIADAS, NUNCA

 


Nunca desejei ser mulher, nem mesmo na vontade reprimida e inconsciente que leva barbados a tornarem-se fêmeas voluptuosas no carnaval. Nada tenho contra travestis ou drag-queens, é uma filosofia de vida honesta como muitas outras, mas também não me sinto atraído pela excentricidade e valentia destes. Vi alguns shows de travestis e me interessaram quando havia texto inteligente, nonsense sofisticado, ou seja, o espetáculo da palavra. Estive no tradicional e natalense Baile das Kengas, e tudo me pareceu decadente, ordinário e sonífero. Nem sombra de uma Messalina e sua frase: “Cansada, sim, saciada, nunca”.


Se eu pudesse “inventar” a mulher ideal, ela seria fatal, misteriosa, glamourosa, cerebral, uma bandida que seduz homens poderosos e depois os manda literalmente pastar. Uma Jacqueline Kennedy, uma Xica da Silva, uma Madame de Pompadour, uma Marlene Dietrich, uma Lucrécia Bórgia, uma Cleópatra. Um feminino inventado, planejado, cultivado, fantasiado com bom gosto. Ela teria escritores e intelectuais como companhia, falaria com a mais absoluta sinceridade, leria jornais e muitos livros, faria da cama uma arena insaciável e sem qualquer constrangimento, e o seu coração egoísta só amaria os seus próprios prazeres. Além de modismos, usaria roupas desenhadas para a sua personalidade e jamais acharia importante freqüentar festas aborrecidas ou ter o seu retrato minúsculo e mal fotografado em colunas sociais. Seria uma deusa que riria raramente, mas ao sorrir soaria vital e do fundo d’alma, e nunca sairia do seu flat quando a melancolia batesse na porta. Não teria filhos, somente criaria cães serenos e gatos indiferentes, e levaria a vida cercada por plantas, inclusive falando com elas. Ouviria jazz e bossa-nova, fumaria charuto e usaria meias de seda. Não digo que seria o modelo necessário de mulher, pois ai de nós, homens, com tal vamp como regra, mas esta é a minha fêmea sonhada, minha musa fictícia.

Segundo a polêmica pensadora Camille Paglia: « O destino da mulher é dominar o homem. A maior parte dos homens precisa de uma mulher para seu centro gravitacional, uma mulher que os ligue ao submundo da verdade emocional ». Pode ser, caso fossem recuperadas milhares de submissas, apaixonadas, respeitosas e escravas do macho. Essas que informam aos companheiros sobre todos os seus passos. Creio que muitos dos crimes passionais e dos casamentos infelizes resultam desse comportamento pouco lúcido. Sem dúvida. o que chamamos de civilização, do pensamento à ação, tem como causa central o masculino. Mas os homens não são mais inteligentes do que as mulheres, nem o contrário, tudo independe do sexo e mais da bagagem existencial, espiritual e intelectual que se leva. É burrice copiar fórmulas arcaicas. Conheço políticas, escritoras e empresárias que repetem a mesma inócua agressividade masculina. As mulheres também não são os seres mais belos da face da terra, todos os seres são belos, e se destacam independentes se são crocodilos ou mariposas. A maternidade nunca foi um privilégio, como muita gente prega, ainda mais nesta época de clones, inseminação artificial e superpopulação.

Dia desses, na fila de um caixa de um supermercado, um jovem marido chamou a esposa bela e melancólica de ridícula em alto e bom som, ao lado dos dois filhotes do casal. “Não faça escândalo”, sussurrou a loura envergonhada. “Faço o que quero e pronto. Você fica calada!” , gritou o homem bem vestido. O diálogo absurdo iniciou-se quando ela alertou para a falta de um chester. “Chester? Você sabe lá o que é isso. Você não entende nada, sua ridícula. E não vamos comprar mais nada. Creio que se enganou de marido, deveria ter casado com o Ronaldinho”, atacou. Fiquei constrangido e irritado, algumas pessoas da fila sufocavam um sorriso cúmplice. Ele é um desses porcos chauvinistas que deixam a esposa em casa, bebem e fazem comentários bizarros com os amigos e transam com a primeira anta que rebole, oxigene o cabelo e fale asneira. É fácil criticar o próximo não estando na sua pele, mas uma situação dessas seria para deixá-lo plantado com o carrinho cheio de compras e os filhos inocentes, apanhando o primeiro táxi para a casa de alguém de confiança, só conversando com o troglodita 24 horas depois. A aceitação de ofensas verbais e morais, públicas ou não, leva a mágoa, dor, violências e diversas enfermidades.

A mulher sofre violência física quando é espancada, ficando marcas como hematomas, cortes, arranhões, queimaduras, mordidas, manchas, fraturas ou agressões semelhantes. A mulher sofre violência sexual quando é forçada a ter relações sexuais sem querer ou quando está doente e sua saúde corre perigo; é forçada a praticar atos sexuais que não lhe agradam ou praticar sexo com sadismo. A mulher sofre violência psicológica e emocional quando é ofendida moralmente e também sua família. A agressão não escolhe raça, idade e classe social. A única diferença é que, as mulheres de classe social mais elevada, acabam por não darem queixa das agressões sofridas por seus maridos, namorados etc. São vários os motivos que as fazem calar – dependência financeira, medo, vergonha etc.

A violência é a expressão mais cruel do baixo status feminino na sociedade. Várias culturas aprovam, toleram ou mesmo justificam um certo grau de violência contra a mulher. Essas atitudes são fruto de normas de conduta distorcidas a respeito do papel e das responsabilidades do homem na sociedade. O Banco Mundial estima que a violência contra a mulher no mundo cause mais danos e morte do que câncer, acidentes de trânsito ou até mesmo a guerra. Pelo menos uma em cada três mulheres sofre violência física, sexual ou alguma outra forma de abuso, usualmente nas mãos de uma pessoa íntima ou membro da família. É uma violação explícita de direitos humanos. É preciso prestar queixa na Delegacia da Mulher, fazer exame de corpo-delito no Instituto Médico Legal – IML, ou, por fim, estar no IML fazendo uma autópsia.

Nós, homens, perdemos o charme. Acabamos reduzidos a um ser que só precisa de sexo. A imagem masculina está em baixa. As mulheres modernas vão com amigas a bares, lêem Marie Claire e pelo menos já ouviram falar na Simone de Beauvoir. Mas não é tão fácil identificá-las. Certa vez, num shopping-center, à espera do horário da sessão de um filme, contei mulheres que passavam vestidas de calças apertadas, saltos altos e blusas justas – essa farda tão vulgar! Muitas pareciam cantoras de trio elétrico ou putinhas de ricos jogadores de futebol, exibindo sem pudor o estômago obeso. Depois de 47 delas (acreditem!), suspirei ao surgir uma morena com saia de linho, blusa de seda de corte moderno e passos elegantes como uma sereia brincando languidamente nas águas. Não se deve acreditar na moda que se vê nas novelas da Globo ou na revista Caras, pode ter-se certeza que a elegância não habita esses mundo. Em 2003, passei os dias carnavalescos em Pernambuco, com um grupo que incluía a socialite “emergente” carioca Vera Loyola. Não acreditei, caro leitor, parecia uma caricatura de mulher esculpida pelo mais perverso dos gays (culpados também pela estética “carne-e-osso”, quase assexuada). Senti vergonha do meu Brasil por idolatrar estereótipos femininos como a nossa “rainha das quentinhas”. A mulher não nasceu para usar farda no cotidiano, fazer parte de um exército fracassado. Ela deve ser única, original, consciente.

Infelizmente se reparam e se medem, e até se odeiam, não suportando a presença das mais bonitas, das mais charmosas, das mais bem vestidas e das mais bem sucedidas. É preciso união e confiança. E para terminar, gostaria de aplaudir todas as mulheres que lutam contra as adversidades, as que acreditam no amor e na liberdade, as aventureiras e as boas de coração, as ninfas e as sereias, as bruxas e as ciganas, as sacerdotisas e as guerreiras, e principalmente as que entendem que a vida passa rápido e sabem que nenhum homem, nem mesmo o mais desejável de todos eles, tem o direito de maltratar quem quer que seja.



(27 de fevereiro/2004)
CooJornal no 357


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm