19/03/2004
Número - 360


Antonio Júnior

 

AS CORES DA VIOLÊNCIA

 


Há muito a vida deixou de ser como ela é: luz, cor, cordialidade. O retrato atual é sépia: dificuldades, miséria, solidão, seqüestros, assaltos, corrupção, poluição, atentados terroristas, manipulação de informação, fanatismo religioso, entre outros padecimentos. É a realidade contemporânea. Os telejornais são mensageiros do mal, assustadores em relâmpagos de guerras, raptos, crimes, roubos, golpes, estupros e invasões. As telenovelas, vendidas como inofensivas, cultuam um ritual social mercenário e individualista. Um show de falsidades e traições. Os políticos raramente cumprem o que prometem e, o que é pior, costumam passar a mão no bolso do povo como os piores bandidos. Ler praticamente todos os dias notícias de negociatas obscuras ou escândalos infames, que logo serão esquecidos, é uma das facetas mais constrangedoras do nosso bombardeado país. Estes (des)valores sombrios geram um compromisso cínico, banalizando o monstro da violência. Como ser diferente numa sociedade em que a mídia e os podres poderes ensinam dia-a-dia a importância de passar a perna no próximo? Acordado altas horas da noite penso em ônibus saqueados, amantes que podem cortar pescoços por um vídeo, tiroteios policiais em qualquer lugar, pais estuprando filhotes, troca de influências. Evidente que existe violência e canalhice em todo e qualquer lugar, veja o caso hediondo de bombas matando mais de 200 em Madri (Ah, Madri, amada terra!), mas a impunidade brasileira assusta e alimenta novos terrores. O Brasil peca também por prisões superlotadas, cruéis, sem bibliotecas, sem assistentes sociais, sem cursos profissionalizantes. O bandido tupiniquim perde nas celas qualquer resquício de virtude. Só para refrescar a memória, meu caro leitor, assista CARANDIRU, de Hector Babenco. Tá tudo lá. Outro coisa que incentiva a angústia nacional são cidades construídas especialmente para quem tem poder aquisitivo. Não se investe em parques e jardins, o urbanismo é planejado para os fidalgos de automóveis. As cidades européias são cheias de parques lúdicos e ambíguos feitos para namorar, conversar, fazer ginástica, bater perna etc. É possível relaxar publicamente em Salvador? No Campo Grande? Nem com a recente reforma de 6 Milhões de Reais. Poderíamos lembrar certas e inesquecíveis praias, mas praia é outra coisa: sol e suor. Confesso que muitas vezes sinto medo nas grandes metrópoles. O que fazer? Desejar o extermínio de criminosos como pensam alguns amigos? E quem crucificaria os magnatas? Eu não entendo como um bando de gente faz de conta que nada de terrível está acontecendo. Muitos de nós, muitíssimos, desenvolveram uma técnica que é pura repetição de um modelo humano que está na moda: o indiferente. Eles se camuflam de gente comum. Não querem desenvolver seus potenciais, preferem a imitação, a falsificação. Homens se transformam em ricos pagodeiros ou posam nus para revistas. As fêmeas viram modelos magricelas, fanáticas religiosas, donas-de-casa amarguradas. Nascem em busca de um modelo, pois sabem que é a forma mais fácil de aceitação na sociedade. Eu fiz o contrário; ando na contramão. E aí passaram a me chamar de poeta. O poeta atualmente tenta fugir dos tentáculos do conforto sedentário, oferta incensos e mel para os mortos de 11 de março último e ternamente ri da declaração do bacana Pedro Almodóvar, falando sobre o resultado das eleições espanholas, no lançamento do seu filme LA MALA EDUCACIÓN: “El secuestro y la manipulación de la información a la que ya nos tenían acostumbrados, esa oscuridad, no es Democracia. A pesar del precio altísimo, estoy muy contento de volver a ver un país solidario y libre, porque nos lo habían quitado. Ya podemos volver a ser nosotros mismos". É a esperança, é a crença libertária. Passamos por um processo político parecido, não seria hora de apostar numa mudança social partindo de nosso próprio cotidiano? Não sei se deliro. Sei que solto os demônios (e os anjos) escrevendo. Realmente é preciso escrever, escrever, escrever...e gritar, se necessário. Vamos resgatar a cumplicidade com a luz, com as cores da beleza brasileira e com a nossa gente, que merece o melhor. Estimado e cúmplice leitor, chega de violência.



(19 de março/2004)
CooJornal no 360


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm