16/04/2004
Número - 364


Antonio Júnior

 

AGORA É NUNCA MAIS, E NUNCA É O QUE PASSOU

 


para Gerald Thomas



______________________o sol ilumina metade das palavras, deixando para trás os longos dias de chuvas. ainda vê-se fios d`águas de minantes em algumas trilhas, poças de lama em ruas suburbanas, o mar escuro, dezenas de metros de baronesas mortas nas praias, a terra úmida. a vegetação de um verde intenso cintila faíscas douradas. eu vasculho o passado para reorganizar o presente. mas o passado não existe – ou o que passou é imperceptível mesmo estando impregnados em nossas ações e vontades? levanto os olhos e vejo a beleza: _________tem um rosto quadrado como o de uma estátua romana, o nariz reto e longo, passos lentos, mãos macias e olhos ambíguos. oferece-me vitamina de mamão e banana com mel e canela. olho o ôlho no fundo e nada digo. aceito a vitamina. senhor do silêncio, volto ao texto, a memória, ao redescobrir. não sou fashion, não sou celebridade, salto mortalmente no abismo da poesia, sabendo que quem pode, pode, quem não pode se sacode. “nada acaba definitivamente”, diz a beldade ao recolher o copo vazio. fechado numa profunda abstração, continuo calado. mas creio que não havia necessidade de respostas. não me reconheço. as lembranças me abandonam, a carne envelhece – o que pouco importa – e confirmo dia-a-dia que o conhecimento e o amor são piratas impiedosos. escrevo para você, meu caro leitor, o texto que surge do pensamento labiríntico. a linguagem se reproduz para mentes desconhecidas construídas por frases. o invisível do princípio de existir. passo por cidades do sul da bahia querendo a lógica, as tênues sensibilidades, os erros cometidos. estou no decorrer de uma viagem de abandono, fisgando o passado para renascer hoje. não procuro ninguém, nem parentes nem amigos nem amantes, vou ao acaso. é como ver velhos filmes e lembrar da emoção provocada por determinada cena, e gradualmente desviar a memória da narrativa cinematográfica para o personagem que assistira o filme ao seu lado, a cidade onde ocorreu o fato, a idade e a inocência que tinha na ocasião. é um jogo intricado, exige pensamentos rápidos e lúcidos, se não a fantasia é a vitoriosa. a realidade tem os seus atalhos, caminho por eles, escrevo, fotografo, viajo. um escritor não se faz só com textos literários, faz se também com loucuras, aventuras, renovação. ele devora a linguagem. muitas pessoas escrevem - comprove navegando por sites e blogues -, pensam que fazer literatura é colecionar frases emocionadas. concordo: melhor escrever qualquer coisa do que atirar-se pela janela do sétimo andar. mas escritores são poucos, e desses um ou outro será lido por muitos __________escrevo para falar de uma cidade, mas pra que falar de uma cidade que tantas vezes foi dissecada em revistas turísticas, cartões postais, fotos amadoras vulgares e recordações libidinosas? páro de escrever e penso nos atributos da beleza. algumas rochas numa elevação, o céu de um azul hipnótico e a areia que separa o mar das palmeiras. eu sou um quebra-cabeças, e muitas peças não se encaixam, não são minhas. e não peço desculpas pelo pecado que não cometi. quero música, música sempre; poesia, teatro, filmes e uma conversa firme com cérebros privilegiados como os de uns poucos amigos que ainda tenho. tudo isso pulsa de alguma maneira. sente, meu caro leitor?



(16 de abril/2004)
CooJornal no 364


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm www.nosilenciodanoite.blig.ig.com.br