07/05/2004
Número - 367


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Antonio Júnior

 

AS COISAS SÃO, AS COISAS VÊM

 


Algo sai de mim ao encontro de uma imagem que se aproxima. Como, curiosamente, mudamos, quando se nos adiciona um amigo, uma cidade reveladora. Como desempenham de maneira útil seu ofício nossos amigos ao se lembrarem de nós. Eu amo estar vivo & procuro traduzir essa sensação escrevendo incansavelmente, mesmo quando minhas palavras soam duras. Agora são os últimos dias morando em Salvador, agora é mar infinito e o vento que passa soprando espaços vazios no céu azul; agora me visto de luz, vermelho e ouro, e as ondas aproximam-se da praia; agora uma estrela cavalga entre nuvens e eu digo a ela : "renova e restaura minha fé em mim mesmo”; agora as sombras lentas, trêmulas, e vou para bem longe, para você, e escrevo: seria um ato de valentia desistir de tudo. O que nomeio “tudo”? As convenções, os êxitos, as metas, os laços, os gozos, as ambições, as sombras. Agora as coisas são, as coisas vêm. Muitas delas já nem passam por minha cabeça, estão distante, como se fossem de outro planeta. Se sou mais feliz arrancando minhas crenças como roupa usada? Creio que não. Só que não há retorno. Ainda me faz feliz um bom filme ou a voz de Cássia Eller. Leio um livro atrás do outro e penso se não é hora de parar de lê-los. Ando em exposições que desnorteariam qualquer pessoa sensível e nelas me sinto como personagem de uma gravura de Goya. Não há carne, somente um corpo desenhado vagando por galerias. a beleza ainda me comove, sou capaz de segui-la pelas ruas durante alguns minutos, olhar nos seus olhos o que ela esconde de mais oculto, mas perdi a satisfação para seduzir, participar de jogos amorosos ou de sexo gratuito; o que faço é roubar um pouco de alegria e esperança. A atração entre os humanos deveria ser prática e sem melodrama, como um negócio: “quero você, em troca dou o que tenho de melhor”. Nada de enredos, eternidade ou preocupação em amar e ser amado. Persegui o amor por muitos anos em caminhos errados, e mesmo assim o encontrei muitas vezes disfarçado no que podia ser de mais insensato. e para que serve o amor? O que faço com ele? Onde está a felicidade em amar, ser amado e ter uma vida burguesa? Eu nunca tive filhos, nunca matei ninguém, nunca dirigi um carro e cago para estas e outras merdas. nem mesmo choro. Quero chorar! Quero chorar! Tenho uma saúde soberba e uma juventude incansável, tomo vitaminas, chá de ervas, suco de cenoura e beterraba, ginseng, pólen, própolis, pedalo bicicleta, cavalgo, caminho horas e quando estou cansado, quando é por demais angustiante e nem consigo olhar o meu rosto duro no espelho, bailo toda noite numa dessas discotecas onde ninguém conversa com ninguém. Nada é de muita importância. Nem mesmo a morte. Não é depressão nem amargura, é um vazio abismal, um buraco que nem mesmo a fé nos anjos é capaz de enchê-lo. Faz tempo que não brigo com ninguém, não rompo amizades e os afetos se acumulam como teias de aranha de uma casa em ruínas. Não me tornei um bêbado, um drogado, um louco, uma puta, um suicida, um sábio, um santo – tudo o que eu poderia ser. Continuo escrevendo de forma compulsiva, são dezenas de pastas, classificadores, folhas soltas. É o que me salva. É o que está entre o que realmente sou e a imagem que quero revelar. lembro de amigos distantes. Será que teríamos o que conversar durantes horas? O que eles pensam hoje em dia, o que são como gente? Que importância têm o nosso passado para o nosso presente? Realmente precisamos um do outro? Queria estar ao lado deles no mais profundo sentido de celebração, porque basta uma só noite em qualquer bar para que se produza um decisivo reencontro, a partir do qual a vida dá tanta importância que já não importa morrer. a superioridade da arte sobre a vida, mesmo que esta se inspire na segunda, está em sua intensidade. Espero encontros, encontros de duas vidas supostamente perdidas, iluminando para sempre a noite dos tempos. Meio adormecido na rede, tento por brincadeira enumerar todas as linguagens que entram na minha escuta: a música, o assobio dos ventos, a dança das folhas do cacaueiro, o canto das cigarras, o toque do senhor-dos-ventos, o cacarejo de um galo, passos de um gato no telhado. fecho os olhos e transformo estes sons em ruídos de uma praça de roma. É um passe de mágica, uma brincadeira exemplar, chego a ouvir o rumor das vozes italianas. invento frases, conversas. em mim passam perfumes, palavras, toques de corpos, uma não-existência. Então escrevo. Escrevo para não ficar louco, como dizia Bataille. Escrevo a minha loucura. sinto a voluptuosidade das vogais, a sensualidade das idéias, a respiração, a polpa dos lábios, o focinho humano da literatura. O corpo anônimo do texto me possui: isso acaricia, isso goza, isso alimenta: isso é a felicidade.


(07 de maio/2004)
CooJornal no 367


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm www.nosilenciodanoite.blig.ig.com.br