30/07/2004
Número - 379

 

Antonio Júnior


MEMÓRIAS DE UMA VIDA SÓRDIDA


Em 1993, o exilado cubano Guillermo Rosales (La Habana, 1946) suicidou-de com um tiro em Miami, como havia pressagiado na sua novela “La Casa de los Náufragos / Boarding Home”, de 1987. O escritor havia chegado na terra de Tio Sam em 1980, depois de uma breve passagem por Madri, porém estava doente dos nervos, e em sua cabeça já alojava a loucura. Aos poucos tornou-se um marginal alucinado e violento, vozes e visões o atormentavam, e impossibilitado de trabalhar terminou como um trapo humano sem dentes, um saco de ossos. Mesmo assim, enquanto ameaçava matar-se, inventava maravilhosas histórias que nunca escrevia e, quando as colocava no papel, logo as destruía. Porém, ficará na história da literatura com duas novelas: “El Juego de la Viola”, publicada postumamente, e “La Casa de los Náufragos”, lançada recentemente em Espanha com resenhas entusiasmadas de críticos literários.

Premiada em concurso em Miami com o voto decisivo de Octavio Paz, a obra foi traduzida para o inglês por um amigo do escritor, que impressionado com a força do relato, a enviou para diversos agentes literários até conseguir a sua publicação. Nesta viagem aos cantos mais sombrios da condição humana, que tem como cenário o asilo de indigentes em que viveu Rosales, fala-se de sexo nu e cru, violência, miséria, abusos físicos, sujeira, humilhação e crueldade, em páginas que revelam a animalidade do ser humano. O estilo seco e direto e a forma de diário pessoal lembram momentos de “Trópico de Câncer”, de Henry Miller (que o protagonista confessa haver lido), e sua visao insensível do sexo remete a alguns textos de Charles Bukowski. 
 
Guillermo Rosales, que foi em sua juventude um entusiasta da Revoluçao, após anos de decadência pós-revolucionária em sua ilha natal, se refugiou na loucura, passando por várias clínicas psiquiatrícas e terminando enclausurado nesse nauseabundo hospício de mendigos, subvencionado pelos serviços sociais de Miami, e no livro, metáfora do desencanto. Disfarçado de William Figueras, o escritor protagonista do relato e alter-ego do autor, Rosales revive o ambiente claustrofóbico do asilo, entre idosos cheios de feridas e padecimentos físicos, com lúcida e impressionante indiferença, convertendo “La Casa de los Náufragos” em uma descida aos infernos. Intenso e delirante,  denuncia uma sociedade onde só o sucesso importa. No albergue, os seres (boa parte exilados cubanos) comem, dormem, trepam, brigam e gemem como condenados, mas nunca se revoltam. Como comandante dessa nave miserável está um comerciante que vive as custas da miséria alheia; um escalao mais abaixo, Arsenio, encarregado de impor a ordem mesmo usando a violência, e por fim, no último nível, os loucos.
 
O êxito de sua traduçao ao francês por Actes Sud em 2002, com o título de “Mon Ange”, e críticas positivas no Le Monde e Le Figaro, provocaram interesse na Europa pelo autor cubano. O texto, escatalógico e carnal, apresenta aos olhos do leitor o indíviduo sem qualquer dignidade. O frustrado narrador descreve Figueras e o aleijado Budwaiser ferindo o deficiente Reyes com golpes de cinturao; a suja ancia Hilda praticando sexo com a frágil Francis, outra ex -revolucionária que sobrevive com anti-depressivos; o anao Napoleao; loucos lutando por cigarros; René e Pepe, dois irmaos débieis mentais que brigam como caes; uma velha senhora abandonada pelos filhos; drogados e outros desgraçados. Sem meias-verdades e totalmente nilista, Rosales escreve sobre o desatino de seu museu de horrores, “na penumbra vejo que duas baratas, grandes como “dátiles”, fodem sobre meu travesseiro. Escapam. Toco o meu pau. Faz um longo ano que nao como uma mulher. A última foi uma colombiana doida que conheci em um hospital”.
 
 História de sangue, suor e lágrimas, onde se desprende uma visao apocalíltica da vida humana, denunciando a mesquinhez de individuos condenados a sobreviver, quando faz tempo que gostariam de estar mortos. Rosales enxerga com os olhos de Figueras a desolaçao dos deserdados. É uma existência sem Deus. Apenas os versos de românticos ingleses, lidos por Figueras, e algum sarcasmo, como os sonhos em que protagoniza um Fidel Castro monstruoso (“Fidel estava de cueca e camiseta. Me dizia: “Seu corno! Nunca me tirará daqui!”), evitam que a narrativa nao seja somente uma impressionante escuridao da alma, o fruto de um escritor abandonado cujo adjetivo maldito nao é uma postura, muito pelo contrário, está mais para uma infame condenaçao. 
 
Criador solitário com talento extraordinário, Guillermo Rosales foi um estrangeiro, um homem sem pátria, um exilado total, como disse certa vez. Uma figura consumida pela impotência e a raiva, que odiava todas as ditaduras e todas as ideologias. Que lutou, enquanto pode, contra tudo e contra todos, e partiu deixando um soco violento no estômago: “La Casa de los Náufragos”. 
 

(30 de julho/2004)
CooJornal no 379


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm www.nosilenciodanoite.blig.ig.com.br