06/08/2004
Ano 8 - Número 380

Antonio Júnior


Edward Hopper
PINTANDO A SOLIDÃO
 


Os quadros de Edward Hopper, um dos grandes artistas do século XX, desvendam a solidão humana em cenas do cotidiano. Uma grande retrospectiva na Tate Modern de Londres reúne seus melhores trabalhos.

Desde maio, em Londres, pode ser vista a maior retrospectiva organizada na Europa da obra de Edward Hopper, um pintor de olhar cinematográfico que influenciou Alfred Hitchcock, entre outros cineastas. A mostra reúne mais de 80 trabalhos, entre aquarelas, óleos, desenhos e gravuras. O mais antigo está datado em 1902 e o último, em 1963. A exposição percorre assim a evolução do artista desde seu período francês, a princípios do século, as cenas da vida urbana norte-americana de sua época posterior, apresentando algumas de suas pinturas mais significativas, como “Nighthawks” (1942), “Early Sunday Morning” (1930) e “Sun in Empty Room” (1963). No lançamento da exposição, o diretor da galeria londrina, o espanhol Vicente Todolí, expressou seu desejo de que a retrospectiva – um dos acontecimentos culturais do ano – cative tanto o público como a crítica e ofereça uma nova visão do autor.

Filho de pequenos comerciantes, o alto e lacônico pintor de Nyack, Nova Tork, nasceu em 22 de julho de 1882 e morreu aos 85 anos, em 1967, gozando de popularidade a maior parte de sua longa vida, por suas representações de cafeterias, bares, restaurantes, quartos de hotéis baratos, casas do litoral e ruas vazias. Também são célebres suas explorações visuais de interiores de teatros e cinemas. Hopper, sem qualquer ironia, se identificava com o homem comum, e desde sua morte a fama seguiu crescendo, sendo identificado como pintor singular, não só nos Estados Unidos como internacionalmente. Classificado como um autor da American Scene – realismo social -, nunca foi pitoresco e superficial. A ambigüidade e o talento de sua obra, sua capacidade para construir estruturas formais sólidas e convincentes, sua perspicácia psicológica e seu domínio do manejo do pincel, a composição, a luz e a cor, situam-no numa categoria muito particular, talvez única.

Impressionado com os artistas europeus, antigos e modernos, completou sua formação artística em Paris, aonde viajou em três ocasiões – em 1906, 1909 e 1910 -, visitando também França e Holanda. Regressou a Nova York para criar uma obra interessada na psicologia pessoal, longe da revolução vanguardista que justo no ano 1910, com o cubismo, mudou o rumo da arte contemporânea. Da temporada européia confessou: “Tudo me pareceu limitado e ordinário”. Suas figuras se destacam em espaços palpitantes, sentadas, abandonadas, solitárias, melancólicas, aguardando o grande clímax que nunca chega. Não são heróicas, numa trajetória humana de calado desespero, afogadas numa cultura puritana de uma sociedade hipócrita e sem a intimidade de relações pessoais complexas. Elas estão desaparecidas na introspecção e no anonimato, mesmo ocupando diferentes atividades; muitas pensam sobre o seu vazio. Hopper, estudado por inúmeros especialistas, certamente foi influenciado pelo filme noir, um estilo desenvolvido por Hollywood que usava sombras para criar efeitos dramáticos e evocava uma aura de suspense não muito diferente dos quadros desse mestre.

Parte do gênio de Hopper foi sua capacidade de universalizar e generalizar. Os dramas de seus solitários sonhadores são gerais, não específicos. Seu estilo sem adornos evita todo o excesso, vendo a vida e a cultura popular norte-americana desde o ponto de vista do homem das ruas. Sua atitude diante da gente comum, diante da sua solidão e abandono, é de total cumplicidade. Ele pintou trens e entradas de hotéis, emblemas do movimento, e na verdade raras vezes se moveu, pois viveu cinqüenta anos no mesmo apartamento, em um edifício nova-iorquino sem elevador. Foi o poeta do cotidiano. Pouco antes de morrer, perguntaram a Hopper o que procurava em certo quadro seu. Ele respondeu: “Procuro-me”. Parte dos seus quadros estão em coleções particulares e em alguns museus, como o Whitney, de Nova York, que os abriga em maior número.

Casado em 1924 com Josephine Verstille Nivison, também pintora, viviam uma relação voltada para o trabalho, a vida doméstica e um ritual que incluía cinema, teatro e literatura, fugindo do barulhento mundinho dos artistas. Hopper, que pagava as contas como ilustrador, realizou sua primeira exposição individual em 1920, faltando pouco para cumprir os 40 anos, e com o passar dos anos, alcançando certa fama local, não alterou os seus costumes e sua rotina discreta. Viveu toda a vida com Josephine, que se converteu em sua modelo preferida. Eram unidos principalmente pela paixão artística.

Paralelamente à exibição das obras de Hopper, a Tate organizou uma mostra sobre o pintor belga Luc Tuyman, cuja pintura, influenciada por Hopper, aborda o papel do realismo na arte contemporânea. Além disso, foi preparado um ciclo de filmes, clássicos e contemporâneos, projetados na galeria durante todos os dias da mostra. A iniciativa trata de abordar a relação de Hopper com o cinema e a sempre comentada influência de sua obra em alguns grandes diretores da história do cinema. Entre eles, Alfred Hitchcock com “Os Pássaros” (1963) e “Psicose” (1961), lembrando as telas “Boorleggers” e “Adam’ s House”; David Lynch com “Estrada Perdida” (1996) e “Uma História Verdadeira” (1999); Terence Malick em “Cinzas do Paraíso” (1978); Todd Haynes em “Longe do Paraíso” (2001); Jill Sprecher em “Vidas Contadas” (2003), e muitos outros. São títulos onde a influência de Hopper é clara e direta, talvez por ser a estética do artista a mais genuína representação do imaginário norte-americano das décadas de quarenta, cinqüenta e sessenta.


Edward Hopper
Tate Modern, Level 4
Bankside, Londres SE 1 9TG.
www.tate.org.uk
De 27 de Maio a 5 de Setembro.

de Londres (Inglaterra)

(06 de agosto/2004)
CooJornal no 380


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm www.nosilenciodanoite.blig.ig.com.br