16/10/2004
Ano 8 - Número 390

ARQUIVO ANTONIO JR.

Antonio Júnior



entrevista
“O AMOR MOVE A MINHA VIDA CIGANA”
por Yolanda Aguirre (*)


Um músico imigrante (de nome Torquato Lubião) que vive mergulhado na indiferença e na recordação de um pai desaparecido, um rude cigano com uma sensualidade trágica, um bordel de prostitutas estrangeiras na Andaluzia, santos e pombas-giras que discutem trivialidades e a novela “Carmen”, de Prosper Merimée, são os protagonistas de uma narrativa de gente comum em busca de um lugar no mundo. “Las Cosas de Gitano Duran Poco”, nada mais que é a nova criação do escritor e jornalista brasileiro Antonio Júnior, da Bahia, o autor de “Ficar Aqui sem Ser Ouvido por Ninguém” (1998). Vivendo outra vez na Europa desde maio deste ano, ele conta sobre sua forma de “vida cigana”, sua visão da vida, jornalismo free-lancer e algumas discretas particularidades de sua vida privada.

Depois de inúmeros poemas e crônicas, regressa ao tema do amor. Não está tudo dito e escrito sobre o tema?

Tudo está dito e escrito sobre o amor, é certo, porém como não existem duas histórias de amor iguais, então, falta tudo o que dizer. Por esse motivo, sigo me aprofundando no tema e sigo como o motivo fundamental de minha vida cigana. O amor move a minha vida. A última crônica que escrevi, da série “Se um Viajante numa Espanha de Lorca”, intitulada “Do Amor”, foi publicada em nove jornais e recebi até o momento mais de cinqüenta mensagens emocionadas. Ou seja, o amor, apesar deste mundo corrupto e vazio, ainda interessa a muita gente. Porém, mais que o amor, gosto de retratar sentimentos. Os bons e os ruins. É esse o meu principal interesse: o ser humano.

“Las Cosas de Gitano Duran Poco” é uma história de amor entre “outsiders”: um imigrante brasileiro sem esperanças e um cigano andaluz marginal e cheio de vida; putas solitárias e entidades quase humanas. Por que estes arquétipos?

Me parece muito gratificante tomar arquétipos e mostrar seus matizes, suas diferenças. O imigrante músico, não é somente um ser sem qualquer sentimento, é um adolescente órfão de afeto. O cigano, não é somente um macho frívolo. As garotas de programa estrangeiras, não são somente mulheres querendo ganhar dinheiro com o seu corpo e o puteiro La Concha é o próprio mundo atual, com sua inquietação, paixões, descobertas e fragilidades. Quando todos estes personagens se aproximam, nos mostram seu lado mais íntimo, mudam de posição, movem seus desejos, e é precisamente esses instantes os que tentei revelar, acorrentar na escrita.

Você chegou a anunciar que é uma versão moderna do clássico francês “Carmen”…

É verdade. É uma pequena novela que sempre me emocionou muito. Acho-a perfeita, uma obra-prima. O personagem-título é minha protagonista favorita, ao lado da Emma Bovary de Flaubert. Li a história de Merimée pela primeira vez aos doze ou treze anos, vi várias versões para o cinema e o teatro. A ópera de Bizet me embala para dormir. Precisei viver três meses na Andaluzia para vivenciar o cenário da novela. Li neste verão europeu quinze vezes esse livro e a cada vez sentia angústia ao chegar as últimas páginas, era como se despedir de um amigo muito querido. Escrevi o ensaio “Carmen - Sedução Gigana” e então soube que estava preparado para escrever minha visão de um amor incontrolável e inconsolável.

Conhece os infernos da paixão, do vazio existencial e do desconhecido, como o seu Torquato Lubião?

Sim, claro, de forma permanente. Sou quase sempre um estrangeiro, um aventureiro, um cigano. Já vivi em Portugal, Inglaterra, França e Espanha, conheci muitos outros países, de Cuba ao Marrocos, e estar fora do nosso país é de uma solidão abismal, de surpresas constantes. Além disso, os três ou quatro grandes amores de minha vida não são de minha raça, e isso me levou quase sempre a uma busca do entendimento, do equilíbrio, de um diálogo nem sempre possível. Os brasileiros felizmente ou infelizmente são considerados pelos europeus seres de uma carnalidade exacerbada, de uma paixão vulcânica, de uma promiscuidade natural. Tudo pode ser verdade, mas torna-se bizarro sob a ótica da fantasia. O único momento onde os desenganos da paixão, o vazio existencial e a angústia do desconhecido me deixam em paz é quando escrevo.

Foi marcado por escritores como Raymond Carver, Scott Fitzgerald e Raymond Chandler…Em que outros autores se espelha?

Em todos! Inclusive nos ruins! Ler me apaixona e me dá doses de felicidade. Neste momento leio – ou melhor, releio – autores latinos para aprender o realismo fantástico. Tento compreender como fazem para expressar – e transmitir-nos – tanta espiritualidade, magia e sentimentos simples depois que o capitalismo e o consumo devoraram cabeças e corações. .. Além disso, gosto muito da autenticidade do britânico Hanif Kureishi, porque sabe falar da gente comum, que encontramos nas ruas e nos bares, escreve com uma grande eficácia e creio que tem uma grande empatia com os marginalizados. Li dele recentemente o extraordinário “El Cuerpo”, que inclui uma novela curta e vários contos. No Brasil, gosto da prosa poética e melancólica do mineiro Lúcio Cardoso, da sensibilidade de Clarice Lispector, da originalidade de Guimarães Rosa, da expressividade de Graciliano Ramos, da ternura de Lygia Fagundes Telles, e da poesia de Gullar, João Cabral, Waly Salomão, Antonio Cícero, Vicente Cecim e Hilda Hilst. E gosto de muitos outros: João Ubaldo Ribeiro, Florisvaldo Mattos, Diógenes da Cunha Lima, Hélio Pólvora, Caio Fernando, Nei Leandro de Castro, Leminsky, são tantos.

Diz que caminha observando os rostos estranhos, comportamentos, movimentos corporais…Deve seu ofício ao voyeurismo?

Sou um grande voyeur, invento todo um passado e um presente ao observar o rosto de um estranho no metrô, por exemplo. “Agora este trintão entediado chegará em casa, fumará um baseado de haxixe, abrirá uma latina de cerveja, jogará a camisa e os sapatos num canto, ligará a tevê e nem mesmo dará boa noite para a esposa que está fazendo as unhas”, penso, entre mil e uma outras invenções que juraria serem 90% acertadas. Eu conheço bem a espécie humana. Quase sempre são seres perdidos, acuados, defendendo-se como podem em personagens que evitam o suicídio, o assassinato ou a depressão. E nem sempre o conseguem, é difícil ser ator vinte e quatro horas ao dia. Sou assim, viajo no rosto das pessoas. Dizem que não existe uma paisagem mais formosa que um rosto.

É certo que você nunca foi publicado por uma grande editora e quando mudou-se para a Europa em 94 só tinha um livro publicado, “O Aprendiz do Amor”, uma edição de autor?

Sim. Sou jornalista e quase sempre trabalhei na área cultural. Escrevo desde menino, porém nunca enviei minha literatura para as grandes editoras, não participo de concursos literários e quando fui assessor de comunicação da Editora Siciliano, em São Paulo, e uma das maiores do Brasil, nunca apresentei um trabalho meu para apreciação do editor Pedro Paulo de Senna Madureira. Preferi seguir o meu caminho lentamente, transformar a minha própria vida em literatura. A internet é que me salvou do total anonimato. Tenho uma revista virtual cultural, El Gitano, que recebe centenas de visitas, e esses leitores que quase sempre nunca vi o rosto, escrevem, opinam, falam de literatura e de suas vidas. Da escrita virtual passei para publicações impressas. Hoje publico regularmente (e recebo por isso em muitas delas) em jornais e revistas de diversas partes do Brasil: A Tarde, da Bahia; O Tempo, de Minas Gerais; O Norte, da Paraíba; o Jornal de Hoje, do Rio Grande do Norte; Profashional e Simples, de São Paulo; Continente Multicultural, de Pernambuco…Agora a minha poesia será publicada na Iararana, da Bahia…Como free-lancer vivo catando entrevistas que pagam minhas contas, mesmo fugindo como o diabo foge da cruz da invasão de privacidade, obsessao tao difundida pela mídia contemporânea. E como o escritor e jornalista brasileiro sempre é mal pago, com raras exceções, trabalho quando necessário como cozinheiro, barman, tiro a roupa para escolas de belas artes, cato folhas de outono em jardins públicos, sirvo mesas, colho uvas etc.

A sua primeira temporada de sete anos na Europa rendeu o livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”. Como foi a repercussão? Você pensa num “ArtePalavra 2”?

O livro muito bem acabado e bonito teve uma quase nula repercussão na mídia. No meu Estado, por exemplo, onde sou uma pessoa relativamente conhecida, apenas algumas pequenas matérias em cadernos culturais, sem qualquer destaque, em um livro que contém confissões exclusivas de muitos escritores e artistas da melhor qualidade. Não me importei. A primeira edição está quase esgotada.

A sua escritura parece rápida, poética, intensa e realista. Demonstra que é um escritor que vive o cotidiano com olhos e sentimentos ávidos. Não o vejo sentado horas no computador, trancado num apartamento. A que obedece o seu estilo?

Sou incapaz de analisar o meu trabalho. É certo que procuro sempre a poesia na prosa e a prosa na poesia. Vivi e vivo muito, sou um homem comunicativo, faço intimidades rapidamente e quando menos se espera estou abrindo o meu coração. Tudo isto se reflete no que escrevo. Também não gosto de me dedicar muito tempo a um texto. Seria incapaz de ficar muitos anos escrevendo um mesmo romance, como a Marguerite Yourcenar fez com “Memórias de Adriano”. Estou sempre louco para iniciar algo novo. Nestes cinco meses de Europa já escrevi 67 textos diferentes, incluindo poesia e prosa. O mesmo acontece ao ler um livro. Levo-o para todos os lugares, desejando não passar com ele mais de uma semana. Ao acabá-lo, se gosto, dou para um conhecido.

A serviço de que põe você sua escrita: retratar a desilusão, momentos de desânimo, desdramatizar os sentimentos, desenhar perfis humanos, fazer do comum um motivo de magia, provocar a reflexão do leitor…? Todo escritor tem um motivo para com seus textos.

Proporcionar prazer a minha própria pessoa e ao leitor que me acompanha. Sem escrever, estaria num hospício. Isso é tudo. Quero garantir, a todos aqueles que lêem um texto meu, um bom instante e uma história ou versos que transmitam bonitos instantes que guardem no seu coração. Nada mais. Porém, especialmente, procuro chegar as pessoas que não gostam de ler.

Você disse que “se seus personagens estão solitários, você se sente o homem mais só do mundo. Se sofrem de amor, você chora enquanto escreve”. Não concebe outra forma de escrever “verdades”?

Não! Quando escrevo, sou os meus personagens, para o melhor e o pior. Me meto em suas cabeças e vejo através de seus olhos, penso através de seu cérebro. É terrivelmente esgotador. Em “Las Cosas de Gitano Duran Poco”, quando Torquato Lobão mata o seu grande amor, já que não suportou o abandono, eu rondava pela casa, enlouquecido, imaginando detalhadamente crimes com pessoas reais. Uma loucura.

Seus diálogos tem credibilidade, poesia, um registro muito bem trabalhado, tanto, que não parecem literários. Como afina o ouvido para conseguir essa dose de verdade?

Tenho que responder que não sei. O ignoro completamente. Tenho uma péssima memória e sou muito fora-do-ar, muitas vezes estou conversando com alguém e pensando em outras coisas, em outras pessoas. Alguns leitores já escreveram falando exatamente isso e me comove muito que pensem assim, porém devo confessar que me sai de um modo natural. No último conto que escrevi, “Andando por um Caminho Selvagem”, escrevi os diálogos como se estivesse conversando, afinal estava possuído pelo protagonista, e muitos leitores escreveram encantados com o “elaborado” trabalho destes diálogos. Elaborados nada, completamente naturais, inclusive sem retoques. Ele foi debatido por um professor de literatura numa escola baiana e os alunos disseram a mesma coisa. Aí está o mistério! Quem sabe é a minha pequena dose de talento. Eu me meto na cabeça dos meus personagens e os deixo falar. Isso é tudo! Parece simples?

Poderíamos dizer que “Las Cosas de Gitano” é a busca de uma existência onde os sentimentos são mais importantes que qualquer outra coisa? A necessidade de encontrar o amor, venha de onde venha?

Sim, creio que podemos dizer de todas essas formas, porque são todas essas formas que sensibilizam a minha literatura. Mesmo assim, acrescentaria algo mais que é o que me levou a escrever esta novela: que com o passar do tempo me dei conta que o verdadeiro amor pode ser encontrado no caminho da vida, quase por acaso, ou por destino, você pode entrar casualmente num bar, alguém perguntar as horas, e ali está o grande amor de sua vida. Não adianta buscá-lo, apenas é preciso estar com o coração aberto.

Dá a impressão que está interessado em aprofundar-se em conceitos como solidariedade, compaixão e misericórdia.

Claro que sim. Não tenho nenhum medo ao pronunciar conceitos como solidariedade, compaixão, misericórdia e todos esses sentimentos passados de moda hoje em dia. Não entendo as pessoas que não perdoam, não dão uma nova chance, não ajudam, não soltam seus sentimentos mais generosos. Me parecem semi-humanos, algo máquinas. Talvez isso signifique que nunca serei um homem que está na moda. Francamente, pouco me importa. Eu nunca terei medo de dizer “eu te amo” ou “sinto a sua falta”.

Segue de perto a literatura brasileira? Que escritores lhe interessam?

Leio todos os poemas, contos e novelas que me enviam, tanto de jovens escritores como de escritores com larga trajetória. Gosto da literatura brasileira, gosto muito, embora seja crítico, e ache que depois de Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Hilda Hilst poucos foram (ou são) brilhantes. Os escritores brasileiros atuais que mais me interessam são João Gilberto Noll e Rubem Fonseca, e mesmo assim nem tudo o que este último escreve.

Algo a dizer para as pessoas que pensam que você faz literatura com forte conotação homoerótica?

Minha literatura é para gente sensível e, até onde sei, também existem heterossexuais sensíveis. Ou não é certo?

O mundo se divide em aqueles que acreditam no amor e os que acreditam na fama e no poder. A que categoria você pertence?

Eu pertenço a categoria dos românticos, daqueles que beijam os pés do amor, se humilham pelos bons sentimentos sem qualquer vergonha. Sou assim com absoluta certeza.

Qual a sua idéia para um futuro?

Vivo o presente, porém como já não sou um menino tenho pensado em um dia ter uma pequena editora e viver na minúscula Itacaré, no Sul da Bahia. De preferência, deitado na rede com o Amor. E no presente quero elaborar minhas performances poéticas públicas, já que sou um pouco tímido. Na Andaluzia fiquei nu, pintei o corpo de verde e amarelo, interpretei poemas e fui bastante aplaudido. Só que tomei antes uma garrafa de vinho e duas doses duplas de Jack Daniel´s. Gostaria de me apresentar publicamente com audácia e naturalidade. Lo conseguiré!


(*) Jornalista. Entrevista a ser publicada na revista “Catalina – La Catalunya Latina”.

de Barcelona (Espanha)
 

(16 de outubro/2004)
CooJornal no 390


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm www.nosilenciodanoite.blig.ig.com.br