26/02/2005
Ano 8 - Número 409

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Júnior



O EXERCÍCIO DOS OLHOS MÓVEIS (01)



OS TEMPOS QUE MUDAM


 


(incapaz, por agora, de escrever,
escrevo sobre o que não sei escrever)


aqui tudo é oculto e tudo brilha num brilho hermético. como, sem esforço, subo verticalmente a essa montanha mágica? quem me leva em seus braços de músculos e mistério?

nesses palacetes sem ninguém, no caminho, TUDO SE CaLA e se faz a comunicação: mais, a comunhão, entre o nosso ser o e NÃO-SER. mundo secreto, mundo próximo agora: afinal tudo se reduz a sensações.

(de qualquer modo, não escolhi este retorno, cedi ao murmúrio. o que me salva)

por esta razão abandono a linguagem humana. como dizer tudo isto? em que consiste a morte do VeRbO? escrever como pássaro ou como fruto ou como vento? eu estou mudo.

- e então sabe-se: que a montanha subida leva a outra montanha, vértice que se ergue em corpo de luz ao centro da alma.

tudo se cala.

tem paciência. OUVE. vê? é a beleza, aquilo com que toda a vida lutamos para lhe roubar o segredo? o mar e o verde e a história. despertei no mesmo quarto em que hans christian andersen um dia dormiu, e mesmo assim eu não saberia escrever “o patinho feio”.

nunca mais dormirei, pólvora e estopim, com o amor? pouco importa, aceito o salvo-conduto para a escrita;

ACIMA, o ÊXTASE; dentro, o sonho. o poder da metamorfose dentro de mim se espalha. como em desafio, mas de forma alheia e serena, a força da terra é como uma possessão. A TErRa… a terra treme
como
ser
de
mil

braços, abstrata, cercando meu corpo e alma, desfibrando-os. e então, EU VEJO; um caminho de bosques para entregar-me a esse excesso: numa união iluminada.

- o que importa o que quero ou não quero, se mergulho neste corpo macio de água? nada lembro. o real é irreal? é distante ou próximo? o que vem a mim? já fui levado desta vida? são outros tempos. agora me divirto sem me divertir e sem me divertir me divirto. ConTEMpLO.

isso: contemplo. OlHO DeNTRO DOs SeUS OLHOS De LEItOR. sente?

e invado antigos e fechados jardins, transportado ao passado do que não sei, em melancólicas memórias de mortos e deuses esquecidos. lord byron deu a volta neste lago e agora é um desses CiSNeS que me observa?

o símbolo da imortalidade. nessa rigorosa e clara amálgama de espaço e tempo diverso num só, nessa cidade transfigurada, se ergue o apoio de minha vida mortal, confusa, cigana, inquietante…refúgio contra a vertigem, a vulgaridade, o atual momento mundial ferido por um vazio insustentável.
acima, a montanha.
acima, o coração.
acima, o DESCoNHEciDO.
e eu vou!

…e um palácio. para mim: soberano de uma loucura necessária. sou um corpo novo, sutil, vivendo entre o ar e o céu, ultrapassando a terra.
deslizo nas folhas das
árvores que falam. e o viver, um VIVER CELESTE. a natureza irrompe, livre e pura,
penetrando e diluindo as palavras em abraços harmoniosos.

- o que escrever, meu caro leitor? como escrever de forma humana, fóssil, sangue? ah, corpo sem forma nem limites…concentração de vida num prolongado instante extático. corpo rodeado de alegria perdida, doçura perceptível, como flor lilás que se abre, como leve frêmito de um coração enamorado. o que me é então a me permitido escrever, pela própria essência do SER? o que me é negado? gozo o saber da eternidade através do verbo? em que plano inominável estou?

sento-me e escrevo.

na montanha de SINtRA, ecos mouros, um bosque, o passado múltiplo. o que contém em mim, revela ou encobre, a palavra poética…A PALavRA…essa cor – e a luz, ardente e sombria.

…faço-me compreender ou já não o sei?

 de Sintra (Portugal)
 

(26 de fevereiro/2005)
CooJornal no 409


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm www.nosilenciodanoite.blig.ig.com.br