22/04/2005
Ano 8 - Número 417

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Júnior


AO CORAÇÃO DA POETA DESCE O LUAR


 


A poesia banhada pelo brilho amarelo do céu numa manhã de Primavera com Maria Gabriela Llansol


Existe sempre uma qualquer luminosidade eterna, com toques de fábula, que aniquila a melancolia. Uma luminosidade enigmática, por vezes súbita, só avistada quando atravessamos os limites do jardim do bem e do mal. Essa jardim, real ou metafórico, sonhado ou vivido, nos pertence a todos, apesar de que a muitos lhes parece mentira. Por ele transcorre uma vida mais ou menos razoável, previsível, equilibrada; sobre ele flutuam névoas cinzentas a que chamamos costumes ou a ausência de novidades que chamamos sossego. Em tal jardim enigmático, muitas vezes sem árvores e sem flores, em tal espaço protegido por muros altos ou até mesmo cercas elétricas, praticamos uma moral minúscula adornada de dogmas, de temores e de tabus, pela qual nos sentimos protegidos e que, ao ser respeitosos com ela, acreditamos nos transformar em respeitáveis aos olhos alheios. Entre esses conceitos nos tranqüiliza a certeza de que a maior felicidade sempre está por surgir, de que a estabilidade que defendemos é o mais alto dom. Embora, com o passar do tempo, como um relâmpago, terminamos compreendendo que a felicidade nunca existiu e inclusive que nunca existirá. Fugir, enquanto é tempo, desse aparentemente formoso jardim, seria o mais sensato. Para descobrir o mundo autêntico, o dever autêntico, a poesia autêntica e a autêntica ética. Além dele, das heras que embelezam com seu disfarce as grades da cárcere, se encontra a claridade interior.

Se não saltamos fora de nossas mediocridades, de nossas crenças estúpidas, de nossas convicções herdadas; se não nos confrontamos cara a cara com nossos desenganos, estamos mortos. Viver não é conservar vivo o corpo: isso é só um passo prévio da vida e seus mistérios. O fundamental é abandonar-se nos braços – nos braços imensos – da vida; agarrar-se neles com força, de olhos fechados. Desnudos em busca de uma vida desnuda. Desamparados na tormenta de uma vida desamparada. Fora do confortável jardim: guerras e vitórias, tropeços e ascensão, sacrifício e compreensão. Dentro dele, o temor: pela velhice, pelas mudanças, pelo amor que queima e aniquila, pelo desamor que nos perturba, pela infelicidade que cruza nossa mente como um raio fulminante. De qualquer maneira, é preciso sair. Para encontrar-se com nós mesmos. Como saíram, expulsos ou não, Adão e Eva do Edén, transformados em um homem e uma mulher livres, não uns seres dóceis, indiferentes e mimados como animais domésticos. Atravessando as fronteiras do jardim, começaremos a viver.

Em Sintra, encontrei casualmente uma escritora além desse jardim, portadora de uma escrita onírica, filosófica, metafísica, fundamentada no humanismo e na antiga mística religiosidade feminina. Uma estranha literatura libertária, inclassificável, ponte entre o homem e os seus enigmas, entre o sonho e a vigília. Encontrei Maria Gabriela Llansol, a autora da trilogia “Geografia de Rebeldes” em uma manhã de primavera deste ano. O ar ensolarado preenchia a reluzente paisagem com tons dourados. Falei sem receio de minha consideração por sua obra. Escutou com alegre paciência, como uma mulher que aprendeu a contemplar a vida e as suas surpresas. Muito gripada, com uma expressão dócil, convidou-me para tomarmos um café na semana seguinte. Abri a porta que dava acesso ao mais íntimo, desaguando. O meu coração tomou-se por um assombro lúdico. O mesmo havia acontecido ao encontrar Paul Bowles nas ruas de Tânger, Hilda Hilst na Chácara do Sol, Al Berto numa tasca de Lisboa ou Doris Lessing num subúrbio londrino. Escritores tão diferentes, entre a tormenta e a compreensão mais íntima do essencial, que generosamente me deram momentos de uma felicidade completa, uma satisfação sem consequências. Sonâmbulo, vaguei por Sintra, entrando em uma outra dimensão. Vaguei nesta cidade em que tudo pode conhecer, desde camélias que falam a luas que se duplicam. A imaginação tornar-se real e vice-versa. Perder-se em suas ruas estreitas é constatar que o tempo não existe, não passa de uma limitação humana que nos obriga a fazer coisas. Quanto tempo terei para escrever sensações? Quantas primaveras estão à minha disposição? São limites pouco importantes, que fazem parte do nosso jardim. O significativo é o caminho, ele não dá prazos, é atemporal, simplesmente acontece: abelhas alimentando-se de pólen, raios de sol dourando folhas, olhares cálidos que se cruzam, fugaz bem-aventurança de uma brisa roçando a pele, o sentimento de ser flor. Enquanto refletia sobre todas essas coisas, me perguntava: “Realmente conversei com Maria Gabriela Llansol, considerada tão inacessível, ou foi projeção dos meus próprios milagres?”.

Fiquei na dúvida toda a semana seguinte. No dia marcado, apareci, e lá estava ela: de baixa estatura, idade indefinida, meiga, cabelos grisalhos presos num coque, vestida como uma romântica camponesa e protegida por um bonito xale negro. Uma aparição de contos de fadas! Pediu um café curto e uma queijada. Então conversamos como dois velhos amigos. Não era uma entrevista. Enveredamos pelos caminhos do pensamento, falando da literatura que vem da alma, de ausências sentidas, poetas franceses e da nossa própria história. Ela transmitia uma enorme sensação de paz e de beleza. Nos presenteamos com livros, pausas, silêncios, cumplicidades. Em plena luz do dia, com todo o esplendor do Monte da Lua visto através da janela, uma lua cheia desceu os céus e penetrou no coração da poeta. Depois a deixei na porta de sua casa, beijando suavemente sua face. Me sentia leve, abençoado, livre do meu jardim, como uma criança alegre e despreocupada. As mensagens sensoriais surgiam através do aroma agridoce de ervas, da visão dos sedosos amores-perfeitos. Subi o caminho que leva a Quinta da Regaleira, quase asfixiado pelo perfume envolvente, parecia que tudo girava; segui sempre em frente, como se não soubesse onde estava, como se lá em cima o mundo fosse acabar. Foi então que parei para admirar um belo carvalho, muito alto, e lentamente sorri, a vertigem significante havia tomado conta de minha alma.

de Lisboa (Portugal)

(22 de abril/2005)
CooJornal no 417


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br