30/04/2005
Ano 8 - Número 418

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Júnior


Enquanto falavas de Andara


 


A propósito de “A Asa e a Serpente” e “Terra da Sombra e do Não”
de Vicente Franz Cecim


Um pouco de chá de jasmim, dois livros, a fumaça de um cigarro. Tenho a certeza que viro o corpo do avesso, derramando sobre os olhos a insônia das palavras. Reconheço-te, poeta do invisível, percebo o lume dum coração antigo e simples. Não existe dia e não existe noite. Existem apenas as luzes de todas as cores que acendem e apagam em cada verso. Uma sinfonia de conhecimentos, fundamentada na espiritualidade vivida à margem da religião. Espiritualidade do imaginário, de ser e não-ser, numa mística com raros correspondentes literários. Há uma respiração oculta, impressionante. Como se fosse uma meditação. As palavras oram, num ritmo lento, e o leitor maravilhado sente cada pausa. Respira a literatura que abre portas para outros céus, intransponível numa abordagem superficial. O realismo é pagão, a atmosfera psicológica levada as últimas conseqüências, a natureza faz-se luz. Acende-se Andara, o vilarejo enigmático, numa cegante luminosidade, soprando os artifícios do mundo. Território do Nada habitado por mulheres que levitam, Anjos, aves, serpentes e insetos. As vozes das coisas. Ao encontro da intensa chama do sonhado e do vivido, ele imagina o leitor, nos vê. Cada vez mais próximo como se avançasse. Por fim, cintilando sobre o indecifrável, Andara enfrenta a crueldade da vida com dignidade e alguns vislumbres de esperança.

“Talvez invente um final para essa história agora, diz. E o homem ouve. Talvez recorde à medida que for inventando. Não se sabe nunca. Há a memória, esta coisa à noite. Não lembro mais também os nomes. De qualquer maneira, nela, imaginação, há coisas que crescem, fogos enormes, e há o que se apaga. Ou vem mudado de volta, na volta, quando se quer lembrar. Na Memória” (“A Asa e a Serpente”, 1979)

O xamã Cecim voa na oceânica noite da zona sagrada, entre a prosa e a poesia. O seu vôo é inexorável, invasor e contínuo, em transe, abrindo espaço entre as sombras. Está muito longe de poetas armados com o vocabulário tradicional, desse algo que se limita a participar na obscuridade e na devastação ambientes. Longe, muito longe, de versos gélidos e estereótipos, roubados ao vazio existencial, cujo fluxo hoje devemos categoricamente recusar. Coisa que não significa necessariamente ficarmos em silêncio. Mas que implica escolhermos as vozes a que desejamos juntar-nos. A escolha de um sentido no mundo atual situa-se dentro de cada um de nós. Sejam quais forem as circunstâncias em que nos encontremos, podemos escolher em nós mesmos a verdade que nos convém. Não se trata de uma escolha entre o bem e o mal. O bem e o mal existem em qualquer caminho. A opção a fazer é entre a intensidade que cada indivíduo pode ter por si mesmo e o caos que em si mesmo admite. A literatura de Vicente Franz Cecim, no silêncio ou na agonia, escolhe um mundo de numerosos sésamos da sedução visionária, de assombro metafísico; vem do interior, do invisível, além das tripas do próprio corpo, da desgraça de existir fisicamente. Os seus versos são rochas, raízes, frutos, terra, mel. Uma viagem que questiona o sentido da própria vida, sobretudo quando este sentido é trágico. Cecim escreve sem temor. Ao fazê-lo, contorna obstáculos, arrisca-se, numa legitimidade azulínea que perturba, desnuda e edifica uma cidade invisível: Andara. Cidade recriada pelo espírito, povoada pelo leitor iniciado que sabe ou quer voar; cidade de talvez outros nomes, de outras coisas ainda inexistentes, pintada da essência do fascinante. Ler “A Asa e a Serpente” e “A Terra da Sombra e do Não” – ambos da editora Cejup, 2004 -, é estar na beira do abismo, entre o corpo e o abstrato, estar no pulsar de certas íntimas revelações


de Lisboa (Portugal)

(30 de abril/2005)
CooJornal no 418


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br