21/05/2005
Ano 8 - Número 421

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Naud Júnior


BLOOD, MR. BOWLES, BLOOD

 


para a poeta dos jasmins, Fátima Freitas


Estava sentado no Café Central, fumando um cigarro de enrolar Golden Virgínia, hábito adquirido no Reino Unido, enquanto observava Paul Bowles (1910-1999) levantar-se por qualquer motivo que me passou despercebido. Caminhou lentamente, mãos no bolso e olhar ausente fixo no céu de um azul intenso. Deve ter pensado em descer as escadas, deu alguns passos naquela direção, estancando por alguns minutos. Tinha o aspecto que eu sempre imaginara. Logo deu uma volta e sentou-se ao meu lado, bebericando o chá de hortelã e protegendo-se do sol com o chapéu de palha. Uma jovem francesa que passava, casualmente, notou-o, fixando a sua expressão espantada no veterano escritor. Pensava se devia aproximar-se. Ela tinha que conhecê-lo, o seu coração pedia-o. No entanto, hesitava em dar o primeiro passo, temendo a reação, possivelmente ouvira dizer que Bowles não gostava de conhecer gente e não falaria com ela. Vivia como um ermitão. Todo mundo o dizia. Ficou, talvez, uns quinze minutos inerte, sob o sol inclemente tostando a sua pele alva, sem tomar uma decisão. Bowles parecia ignorá-la, eu não ousava fazer qualquer comentário e os olhos mendigos da mulher acompanhavam a nossa conversa. Uma conversa sussurrada, próxima dos ouvidos, prosseguindo ininterruptamente mesmo com longas pausas silenciosas. Incomodado, deixei de acompanhar o suplício da bela estrangeira, desviando um dos meus olhos para os marroquinos atraentes que rondavam a praça; o outro penetrava nas pupilas azuis do autor de “O Céu que nos Protege/The Sheltering Sky” (1954).

Como eu, afortunado discípulo ao lado do mestre, ela também não iria controlar os impulsos e falaria com ele. Aproveitou quando pedi a conta e aproximou-se da nossa mesa, respeitando o meio metro de distância. “É Mister Bowles, verdade?”, perguntou com firmeza. Ele colocou as mãos nos bolsos e olhou-a com severidade. Duvidou um pouco, pensei que negaria o seu próprio sobrenome, como Gabriel García Márquez fez comigo em Madrid, num restaurante. Indiferente, como se ela não estivesse espetada diante dele, pousou o olhar no meu rosto e quis saber: “Quem é ela?”. Durante um segundo fiquei incapaz de falar, mas a moça salvou-me imediatamente. “Chamo-me Pascale. Sou escritora”, disse, estendendo a mão direita. “Enchanté. Sou sua leitora”, completou. Ele apertou a pequena mão. Houve um silêncio. A Afrodite continuou, atravessando a trégua: “Crê que Tânger é a cidade mais bonita do mundo?”. “Claro que não é. Como lhe ocorreu semelhante idéia?”. “Todo o mundo o diz”, insistiu algo insegura. “Existem cidades muitíssimo mais belas”, afirmou, dando uma boa tarde de despedida. Então, apoiou-se no meu braço e caminhou arrastando os pés. Os meus olhos cruzaram, com certa solidariedade, os olhos da mulher e ela pareceu não me ver. Sem qualquer movimento, estática como uma sensual escultura grega, ainda abriu a boca: “Estou escrevendo a minha primeira novela – Blood – e será dedicada ao senhor”. Já descíamos a escada e continuamos o nosso trajeto sem olhar para trás.

Era uma tarde marroquina como outra qualquer. Não sei por que motivo teria que pensar de outro modo. Estar com Paul Bowles pela primeira vez na minha vida parecia-me algo habitual, como se não só fosse visitá-lo muitas outras vezes, o que nunca aconteceria, como também sentia já o conhecer há muitos, muitos anos, o que não era verdade. Ele laçou ainda mais o meu braço e sorriu, não fazendo qualquer observação sobre a estranha. Os seus olhos estavam iluminados e cumprimentou um ou outro nativo, alguns deles sem esconder uma certa voluptuosidade. Muitas pessoas passavam junto de nós e logo desapareciam. Outras caminhavam de um lado para outro, como se esperassem alguém. Em sua maioria eram prostitutos jovens que aguardavam os turistas. Antes de dobrar uma esquina, voltei o rosto rapidamente ao Café Central e a francesa encantadora continuava no mesmo lugar, numa posição quase teatral: uma Sarah Bernhardt interpretando Racine.

Andando da praça dos cafés até o Hotel Minzah, onde Bowles encontraria um cineasta argentino, falamos de escritores, literatura, e alguns dos problemas com que se confronta quem quer publicar. Um marinheiro alemão pediu-me um cigarro, não o neguei e, depois de uma gostosa baforada, ele convidou-nos para um drinque num bar clandestino. Com a nossa recusa, o homem continuou o seu caminho. Bowles riu, cúmplice, dando uma palmadinha na minha mão com os seus dedos finos e enrugados. “Esses marinheiros...”, murmurou, sem completar a frase. Olhou-me seriamente, riu outra vez com apenas um delicado movimento dos lábios e abanou a cabeça. “Vou contar-lhe uma história. Quando Genet vivia aqui conheceu um belo marinheiro que trabalhava num barco francês. O tribunal marítimo de Toulon havia deportado em Tânger um oficial da Marinha por ter entregue ao inimigo os planos de uma arma ou de uma batalha naval ou de um buque, não sei bem. O periódico informou que este oficial atuara por amor à traição. Ao lado da informação, a foto de um oficial muito novo, muito bonito. Alguém descobriu que esse marinheiro levava esta foto com ele, e conservara-a. Estava tão enamorado que decidiu compartilhar o exílio com o oficial. Disse a si mesmo: irei a Tânger, quem sabe os traidores chamam-me e contam-me como um a mais entre eles. Genet repetia esta história muitas vezes. Achava que a traição era um ato de desafio ao povo, ao seu orgulho, à sua moral, aos seus líderes e às suas palavras”. Logo mudou de assunto e começou a falar sobre Mohamed Ckaukri, os seus contos, poemas e os livros de memórias sobre Tennesse Williams e Jean Genet. Mas ele interrompeu a conversação ao encontrar um pequeno pássaro jogado num canteiro, com um fio de sangue escorrendo do peito amarelado. “Blood”, disse comovido, acentuando, dessa vez enigmático: “Blood é o título do livro dela”. Nada mais disse até chegarmos ao hotel.

O que me levou a lembrar Mister Bowles? Três motivos: leio “Deixai a Chuva Cair/Lei it Come Down” (1952); o meu novo livro, “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” é dedicado a ele, e também a Hermann Hesse; e, minutos antes, no jardim ao lado da rua onde vivo, encontrei um pombo morto. Tinha a cabeça esmagada, numa mistura de penas e sangue. “Blood”, disse enojado. Depois afastei-me, sentei num banco e fiquei pensando nos milagres cotidianos, em Bowles e nos vários escritores que conheci: Manuel Puig, Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu, Al Berto, Doris Lessing, Lawrence Ferlinghetti, Harold Bloom; e até mesmo, semana passada, no relançamento em Lisboa de “A Música do Acaso/The Music of Chance”(1990), ao norte-americano Paul Auster. Os escritores e as suas peculiaridades, as suas dificuldades econômicas, o seu universo próprio, o seu complexo ego, suas lutas heróicas e inglórias, o seu diabólico domínio das palavras e das sensações. Auster, o autor do fabuloso e inclassificável “O Livro das Ilusões/The Book of Illusions” (2002), certa vez falou sobre momentos felizes e inesperados que poderiam merecer a definição de milagres: “Todo o tempo acontecem coisas estranhas, algumas delas más, a maioria delas, porém algumas são boas, e creio que é importante recordar que os milagres são uma mistura de coisas terríveis e, por outra parte, de coisas extraordinariamente maravilhosas”. A palavra “Blood”, pronunciada com temor por Bowles, não deixava de ser uma confissão do espírito delicado do escritor, talvez um milagre. Fitei novamente a ave morta, desta vez de longe. “Blood, Mr. Bowles, Blood”, pronunciei para o invisível. Não havia nenhuma melancolia na minha voz pelo pombo terrivelmente assassinado. Tenho um certo pavor dessas criaturas, assim como de gaivotas, até mesmo os corvos ou os urubus parecem-me menos maléficos. Por vezes imagino o inferno como um formoso deserto povoado por milhares de pombos esfomeados. Eles estão por todas as partes. Não há cidade européia que se preze que não ofereça a imagem de uma velhinha, de corpo arqueado, espalhando milhos no chão e com centenas de pombos nervosos em cima dela. Mas, dantes, serviam os deuses, dizem, trabalhando que nem uns desalmados, levando as boas e as más novas de um lado para o outro. Depois, o telégrafo, o telefone, o rádio, o celular e a internet provocaram o fim do negócio. Resta-lhes, agora, cagar por todos os lados, inclusive na cabeça dos desavisados.

Como quase todos os escritores, solitário e excêntrico, catando idéias da hora que acordo ao anoitecer, anotei num bloco: blood, escritora francesa, Bowles, pombos. Ah, meu caro leitor, o que dizer sobre Paul Bowles que toda a gente já não saiba? Considerado por Gore Vidal um dos expoentes da ficção norte-americana, jovem ainda publicou alguns poemas na revista Transition, de Paris. Trabalhou como livreiro e durante a noite escrevia. A necessidade de outras paragens levou-o a embarcar a Europa. Um dia, Gertrude Stein convenceu-o de que não tinha jeito para a poesia e mandou-o a Tânger, onde passou o Verão ao sol e a tocar Mozart. “Sempre soube que um dia chegaria a um lugar que me proporcionaria ao mesmo tempo a sabedoria e o êxtase”, escreveu. Tânger acabaria por ser esse lugar de eleição. Toda a sua ficção reflete o absurdo do mundo moderno, onde a crueza, a corrupção e a irrupção do desejo surgem a par da inocência de quem não compreende nem julga. Nos seus romances e nos contos não há realmente culpados, há uma hierarquia de valores, uma explicação do humano. As personagens abandonam-se a um outro tipo de razão - uma musicalidade muito especial, uma sinfonia inacabada, em que mais do que os fatos, mais do que a própria ação, mais também do que o exotismo, contam os estados de espírito e a maneira como por vezes estes são capazes de se harmonizar com uma certa paisagem real. No meu favorito, “O Céu que nos Protege”, filmado com sensibilidade por Bernardo Bertolucci, à medida que Kit e Port vão percorrendo o Saara arriscam-se continuamente e atraiçoam-se até ao momento em que alcançam a loucura ou a morte.

Tânger, a Branca, a cidade retratada pelo autor de “Up above the World” (1966) deixou há muito deixou de existir. Mas a sua silhueta permanece, com os silêncios, a melancolia, o cansaço que percorrem as páginas que escreveu, das mais belas da literatura do século XX. Esta cidade desempenha provavelmente na minha obra a mesma função transfiguradora. Estive lá muitas vezes, e menos do que gostaria. Ela está viva no meu romance “Homem sem Caminho” e em algumas crônicas de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca”. Sou da turma de Paul Bowles, beijo os seus lábios. Ah, paciente leitor, aqui estou eu numa tarde lusa melancólica e infinita, à beira do crepúsculo carmim, de um pombo pisado com fúria, do Tejo como longas veias humanas, das sanguinárias ações de um e de outro. E escrevo: Blood, Mr. Bowles, blood. Sim, escrevo, e com o coração cheio de luz.

(de Lisboa)

(21 de
maio/2005)
CooJornal no 421


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br