09/07/2005
Ano 8 - Número 428

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Naud Júnior


John Fante
O HOMEM QUE FOI DEUS PARA BUKOWSKI


 


“Siempre es así. Cuando crees que la tierra está exclusivamente
 poblada por Mierdas, encuentras una perla”
(William S. Burroughs, “Marica”, 1985)


Ele tentou com toda sua alma “chegar a ser o melhor escritor que o mundo conheceu”, porém Hollywood dilapidou seu talento, reduzindo-o a um mero roteirista de encomenda, sem qualquer obra cinematográfica de substância. Figura lendária da literatura norte-americana do século XX, tanto sua vida como sua obra, de um pessimismo total e um sombrio sentido de humor, refletem uma atitude de rebelião permanente contra a sociedade convencional. Considerado o grande “guru” de talentos reconhecidos como Raymond Carver e Richard Carver, sua obra é uma das mais radicalmente inovadoras da literatura contemporânea, direta e de olho no cotidiano. John Fante lançou um gênero literário que viria a se chamar “realismo sujo” com pelo menos duas obras extraordinárias “Pergunte ao Pó” (1939) e “Dreams From Bunker Hill” (1982), pequenas novelas que estavam entre as preferidas do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. Entre um café com conhaque e mais outro, eu e Caio, no primeiro ano dos anos noventa, discutíamos empolgados sobre as técnicas narrativas e caracterização dos personagens desse escritor publicado recentemente pela Brasiliense; sua violenta energia e perturbadora visão estavam em nossas consciências com admiração. Inocente, eu queria participar do mesmo grupo “indecende” do mestre “maltratado pela vida”. Outro defensor fervoroso de Fante, um norte-americano filho de uma modesta família de imigrantes italianos, foi o papa do underground literário Charles Bukowski, que se ocupou durante toda sua vida e com afinco, de evidenciar o importante que para ele foi a obra de um escritor considerado até então medíocre e carente de recursos, um desconhecido. Estranho na terra prometida, como um santo ou um criminoso com ordem de busca e captura, Fante não tinha nada a perder, contando em seus livros experiências e vivências dos derrotados, acabando seus últimos dias em uma confortável casa de Malibu, cego, com as pernas amputadas devido a diabetes que padecia, mergulhado num coração ferido, ressentimentos, álcool, apostas e ditando novelas para a mulher, a poetisa com interesse em magia branca, Joyce Smart. Nascido em Denver, Colorado, em 1909, o jovem candidato a escritor enviou um conto ao famoso H. L. Mencken, editor da revista literária The American Mercury, que foi publicado. Para ganhar a vida e sustentar a numerosa família de quatro filhos, que nunca levou a sério, aceita trabalho na década de 30 em Hollywood roteirizando filmes série B, vendendo alma ao Diabo e publicando apenas quatro livros em quase quarenta anos. O primeiro deles, “Wait Until Spring”, de 1938, já contava com o irresistível protagonista alter-ego Arturo Bandini. Lembro que ainda adolescente, trabalhando num escritório de arquitetura para pagar meus estudos, me identificava com Bandini, sonhando em viajar, amar, participar de aventuras medíocres e escrever tais experiências. Em 1952, Fante obteve sucesso comercial com o romance “Full of Life”, e a adaptação para o cinema da obra levou-o a nominação ao Oscar de melhor roteiro. Em 1957 passa temporada em Roma , convidado pelo poderoso produtor Dino De Laurentiis, que paga um apartamento renascentista, com chofer e criada, para que desenvolva um roteiro nunca rodado sobre São Genaro; um decadente Orson Welles o contrata como colaborador de um programa radiofônico patrocinado por uma firma de cosméticos; Michal Curtiz paga 350 dólares por dedicar uma hora a polir uma cena de “Sao Francisco de Assis” e Federico Fellini tenta tê-lo como parceiro. John Fonte morre em 1983, aos 74 anos, justamente quando seus livros voltavam a ser publicados, e escrevendo pouco antes “1933 Was a Bad Year”, “The Road to Los Angeles” e “West of Rome”. Seu “Dago Red”, de 1940, é reeditado em 1985 como “The Wine of Youth”. Só que o inicio foi duro. Criou-se num lar entre broncas domésticas, falta de dinheiro, insultos xenófobos e manifestações anti-católicas, defendendo-se do hostil mundo exterior com freqüentes brigas e a prática do boxe. Herdeiro do espírito aventureiro e revoltoso da família paterna, troca a igreja pela biblioteca pública, se cansa da universidade em seis meses e muda para a terra onde se tornaria um dos seus mais formidáveis cronistas, Los Angeles. Suas peripécias diárias para sobreviver com a mente direcionada para converter-se em uma “celebridade das letras” estão em seus admiráveis relatos. À imagem de Knut Hamsun, um dos seus escritores favoritos, Fante passa fome, vagabundeia sem descanso, habita sórdidos motéis, se envolve com garotas nada sérias, trabalha em uma fábrica de conservas, se embriaga todos os dias, monta escândalos públicos, proclama que é um gênio incompreendido. Ele busca um público, o reconhecimento de seu talento, que não deixa de ser uma máscara para esconder uma espantosa desintegração social. Experiências dramáticas que cose com humor a personalidade de Arturo Bandini, um escritor-filósofo malandro e vaidoso que iria protagonizar uma sublime tetralogia iniciada com “Wait Until Spring”. As generosas vendas dos seus primeiros livros e sua crescente reputação como criador de histórias de uma emotividade muito italiana lhe permitem trabalhar para os grandes estúdios. Livre da fome e das roupas remendadas paga o preço atado a melodramas baratos, muitas vezes parodiando sua linhagem, em títulos como “Mamá Ravioli”, sobre o bairro nova-iorquino de Little Italy. Mercenário que chegou a ganhar mil dólares por semana, só se filmariam oito de seus trinta roteiros, aos quais desprezava. Francis Ford Coppola projetou adaptar “The Brotherhood of the Grape” (1977), que Fante declarou considerar em seu conjunto como seu melhor trabalho e aquele que o havia feito chorar mais. É o retrato de uma rude figura paterna em uma família italiana em crise. Seus contos apareciam em revistas importantes como Harper´s ou Esquire e suas novelas eram recusadas pelas editoras. Bebedor incontrolável, péssimo pai e marido, podia acabar a noite falando porcarias com um companheiro ébrio da talha do Nobel William Faulkner ou destruindo seu Plymouth contra um poste telefônico de Hermosa Beach. Caprichoso, teve um jaguar, um pit-bull branco batizado Rocco e uma Baretta de calibre 22. Fante chegou a deixar passar 20 anos entre uma novela e outra, porém o tempo não jogou limpo com suas ambições literárias de reconhecimento público por um material artístico sincero e vital. Foi Bukowski que o resgatou do anonimato, quando já pensava na possibilidade de escrever sobre sua decadência em uma obra que intitularia “Fante´s Inferno”. Fascinado pela leitura de “Pergunte ao Pó”, Charles Bukowski rodou o bairro de Bunker Hill onde Fante situou o seu esfomeado artista para sentir-se Arturo Bandini por um dia e mais tarde convenceu a sua editorial, a Black Sparrow Press, para republicá-la depois de quatro décadas de esquecimento. Visitou o ídolo no hospital e lhe dedicou o poemário “Love is a Dog from Hell”: “Para John Fante, que me ensinou como. Hank”. Fante merece todas as homenagens. Faz parte do círculo de grandes escritores dos anos 30-40 que viveram praticamente do ofício de roteirista, como Raymond Chandler, Nathanael West, Budd Schulberg, Faulkner, Fitzgerald ou Dorothy Parker. Não seria nada mal tomar uma taça de vinho tinto seco e forte em sua memória. Que viva o mestre!

para Caio Fernando Abreu
de Barcelona (Espanha)


(09 de julh
o/2005)
CooJornal no 428


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” (2005, Pé de Página Editores).
A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br