10/09/2005
Ano 8 - Número 441

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Naud Júnior


RAINBOW´S CHRONICLES

COMO UM RELÂMPAGO RASGANDO A NOITE

 


da Floresta Negra (Alemanha)


Nunca se deve lamentar o que acabou, ensaio, convicto, ao atravessar a infinita clareira no alto da montanha, sob um céu cinzento, sombrio, muito próximo, iluminado subitamente por relâmpagos e raios. A pertinência de viver intensamente o presente, sem nostalgia ou sofrimento, é um eterno renascer. Assim, lúcido, desfruto as últimas noites do Rainbow Alemanha. Diante dos olhos confusos, a abstrata inexistência, um vazio sólido, o desatino sem salvação movendo-se dentro do noturno. Os repetidos rasgões de luz esmagam a razão, abrindo precipícios n’alma. É uma dessas ocasiões impossíveis de traduzir em palavras o que sentimos. Diminuo os passos, abençoado pela chuva gélida, atento às formas encantadas na escuridão, e então trilho a estrada úmida, salpicada por ramos espinhosos de framboesas maduras, em direção à selva de faias. Na entrada da mata, numa tenda, dois nórdicos grandalhões, saudáveis como lendários vikings, preparam o Tchai - um chá de gengibre, cardamomo, canela, cravo-da-índia, anis e algumas ervas secretas -, impregnando o ar de sensações misteriosas e a um forte odor de madeira aromática. Recuso gentilmente a bebida energética e o abrigo contra a chuva, insone no diálogo interior voluptuoso. Há neste instante uma inexplicável metamorfose animalesca no meu ser, penetrando-me cada vez mais fundo, com firmeza. Eu procuro manter-me sereno, não me desviando o mínimo que seja dos planos estabelecidos, mas posso rastejar feito réptil ou voar como um solitário falcão.

Atravesso a abertura entre árvores, escorregando gradualmente sobre folhas mortas até a barraca de cor violeta, camuflada no reino vegetal. Logo a tempestade repentina vai-se. Cato galhos para a fogueira, enquanto recordo um menino pernoitando numa fazenda de cacau. As chamas emolduravam o sorriso inocente. Era uma alma em busca de nada, tudo lhe pertencia, e a noite avançava, devorada pouco a pouco pela luz da aurora. Aprendi que a vida se constrói para além da nossa vontade. Que não caminhamos sobre terra firme. Que as minhas palavras fogem de mim para longe, mal são ditas, se separam. Que os corpos têm desejos infindáveis que desconhecemos e assustam muito. Que o amor que está dentro de nós deve ser doado. Distante da preciosa Bahia de Todos os Santos, sou parte do cenário da Floresta Negra, a Terra dos Nibelungos, no Sul da Alemanha, florescendo vales e montanhas de contos de fadas. Personifico um homem-lobo, um selvagem, o Knulp do Hermann Hesse; nu, sem abastecimento elétrico, água potável, televisão, celular, computador, automóvel, poluição e outros méritos fonte da indolência de muitos. Que alívio! Que triunfo de viver! Somando pessoas de quase cinquenta países, percebo uma Torre de Babel às avessas, pois parecem entender-se à perfeição. Mais de quatro mil criaturas vivem esta história comunitária com alma de Robin Hood. Freaks, hippies, alternativos, doidos mansos, artistas, religiosos, ativistas sociais e ambientais. Recusam uma vida urbana, mercenária e injusta, vivendo fraternalmente e em comunhão com a Natureza, repartindo o pão, comendo juntos com alegria e singeleza no coração. Nos tempos antigos, irmãos de conceitos idênticos foram acusados da prática de heresia, perseguidos e massacrados. Caso dos Cátaros, da Irmandade do Livre Espírito, na Idade Média; dos Quilombos, refúgios de escravos rebeldes, que realçou a figura heróica do majestoso Zumbi dos Palmares.

O sistema local funciona de forma voluntária, com gente de boa disposição revezando-se na cozinha, servindo refeições, lavando tachos, preparando a fogueira e ensinando o que sabe fazer melhor. Não se come carne, não se bebe álcool e a única droga tolerada é o haxixe. Minto, fumamos tabaco Golden Virginia e tomamos café em excesso. Dezenas de artistas circenses, amadores, animam a festa pagã: acrobatas, palhaços, saltimbancos, malabaristas, dançarinos, cuspidores de fogo, pernas-de-pau. Na nervura dos troncos, na terra, no ar, borboletas, abelhas, caracóis, formigas, besouros, grilos, aranhas, joaninhas, lacraias e outros insetos não identificados. Flores-do-campo de diversas cores e tamanhos, girassóis, roseiras silvestres, cardos. Tudo é de um prazer irrepreensível, um deleite para os olhos. A solidariedade expande uma tal fraternidade que deita por terra a arrogância e as ambições materiais, desperta o amor pelos seres, faz recear os atos prejudiciais e incentiva a alegria. Justamente o que precisamos nesta existência de almas mortas, religiosidade decadente, valores ultrapassados, depressão, corrupção e suicídio. O meu espírito goza a paz e o bem-estar, dorme tranquilo. No doce sopro da noite submeto-me aos presságios. São lugares como esse, momentos assim que amo acima de tudo. Sinto a esperança renascida ao ser tocado pelo silêncio e pela proximidade das coisas invisíveis. Um ligeiro arrepio percorre o meu corpo ao perguntar-me: “O que está para além? Para além da escuridão, da noite absoluta?”. Evitando as reflexões obscuras, presto homenagem a jóia do pensamento sublime ao escrever versos:
Que temo eu na noite profunda?
Eu sou uma parte da febril fábula
muitas vezes contada
à beira da fogueira.
Eu sou uma parte da Floresta Encantada,
do reino da vertigem,
da Terra de Holderlin.
Tempo transformador!
Tempo encantador!
Pouco a pouco, as brasas, os cogumelos, as faias,
as estrelas cadentes, os raios e os trovões
são o alvo natural dos olhos.
O que vejo na escuridão?
Quem aguardo?
O que espero?
Eu sou uma parte do suspiro dos Invisíveis.
Magia de viver!
Magia de ser!
Cai a noite alucinógena.
Nibelungos sopram profecias.
Sussurros ao vento.
O pássaro da Lua, louco,
rodopia no infinito três vezes
mergulhando num vôo cego
na paisagem interior.
Que temo eu na noite profunda?


As chamas da fogueira acentuam a intensidade do paraíso. As pedras, a relva, as folhas e os troncos iluminados parecem estranhamente brilhantes ou serenamente escuros. De uma fresta na copa das árvores, finalmente vejo estrelas. A existência inquestionável, imutável. Guardo na memória a luz, as sombras, a dança das folhas ao vento. Movo-me em silêncio e na maior discrição, como os felinos, que assim conseguem o que têm em vista. É tudo inteiramente conhecido e inteiramente novo. Como um relâmpago rasgando a noite, comungo o ardente sentimento de navegar ainda mais longe nas águas da solidão. Durante todos estes anos tenho vivido para a compreensão de todos os seres e de todas as coisas. Não o sabia, e agora sei-o. Sei! E em mim, além dos anos imaturos, descubro uma plenitude imensa já modelada e em crescimento. Sorrindo, deito o corpo desnudo no chão de terra batida, ao lado da fogueira, confiando no destino. O mais leve movimento faz-me cair numa semi-inconsciência. É um feitiço demasiado difícil de quebrar.



(10 de
setembro/2005)
CooJornal no 441


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” (2005, Pé de Página Editores).
A Língua Apunhalada – Crônicas dos Dias Errantes (2004) e
ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br