24/09/2005
Ano 8 - Número 443

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Naud Júnior


RAINBOW´S CHRONICLES

O CHAPÉU MÁGICO

 


“Fôra a Itália que o chamara – a Itália de que ele tinha sempre nostalgia –
quando quis reacender no espírito a flama mística que se extinguia”
(“A Revoada dos Anjos”, de Manuel Ribeiro, 1926)


Há nuvens de dragões pequenos num vôo sublime. Em questão de segundos transformam-se na solidão das florestas, num punhado de pétalas de flores exuberantes e vaporosas, em tantas outras coisas reais ou imaginárias. Está visto que perdi o juízo! Sob a Lua Cheia, faias enfileiradas brilham exaltando o jardim de Baco. Um morcego solitário ronda a clareira, beirando cardos de cor violácea, espinhosos, surpreendidos pela claridade lunar. A brisa dengosa desliza nas folhas secas. Deve ser bem tarde, mas não sei que horas são, nem mesmo se o amanhecer está próximo. Aqui nunca sei as horas exatas, não há relógios e ainda não aprendi a calcular o tempo através da natureza. Agora só me resta ficar onde estou, deitado na barraca, respirando lentamente, refrescado pelo luar, acariciado pelas suaves e silenciosas brisas dos bosques, à espera do sono. Do outro lado do recanto sombreado por árvores, presto atenção no australiano Michael, um ragazzo magro, de bom coração, que deixa de lado a leitura de “Sob o Vulcão / Under the Volcano” (1947), de Malcolm Lowry, dedilhando acordes clássicos na viola. Ele percorre o mundo, solitário, tendo como meta conhecer a beleza, as idéias e a cultura de diversos países, preparando-se para um dia fundar a sua própria comunidade alternativa. Ao encontrá-lo ontem, à beira do córrego, caminhamos de mãos dadas pela Floresta. O ar estava impregnado de um perfume a alfazema e de um cheiro a frutos silvestres. Subimos numa faia, lentamente, galho a galho. Do alto, suspiramos, fascinados pela imensidão das montanhas da Toscana. Ouvia-se o som de um instrumento de percussão, com batidas indolentes. Michael pensou durante muito tempo, olhou para o céu, depois para a copa das árvores e acompanhou o vôo de uma ave de rapina, antes de inesperadamente dizer-me: “Quando o Sol brilha, ilumina o mundo inteiro apesar da cegueira dos seres”. Eu ri, sentindo um bem-estar não localizado, e tendo a convicção de que cada dia é único e final, de que nunca haverá outra vez. Dizia a mim mesmo que não podia ser real estar na Itália, na copa de uma árvore, meio bicho-preguiça, nu, numa montanha de 1200 metros de altura, quase tocando o céu, ouvindo uma frase tão sentida. Seria um capricho da fantasia? Do arcano A Lua?

Eu cheguei recentemente de Firenze, passando alguns dias aos pés do Davi (1504), de Michelangelo. Dentro de mim, a tensão desagradável do confronto direto com a multidão típica do Verão europeu, com as atrocidades do turismo, os monótonos hotéis, as cidades repletas de estrangeiros que não sabem o que fazem e por que o fazem. Por que tiram tantas fotografias? Ah, entendo, minha senhora, passou uma semana no Brasil, mas o que conheceu num resort? Nunca se interessou pelos passos e comportamentos dos nativos ou a visão de uma árvore na selva, com bromélias floridas nos galhos e frutos da cor do ouro? Ocorreu-me que uma viagem é uma espécie de resumo da própria passagem da vida. Qualquer uma delas deveria ser um prazer bastante profundo e pessoal, só assim resultaria satisfatória. Sacudindo o incômodo, vaguei por ruas de iluminação amarelada, feito desorientada ave sobrenatural; o poder da arte e da história resplandecendo em cada prédio, esquina, monumento, praça, ponte, arcada, pátio. Desperto parte das noites, deixava o Viale Michelangelo, onde dormia, andando sem pensar em nada de concreto, sem mapa ou direção, envolvido numa solitária simpatia e compreensão por aquela cidade de magnífica personalidade. Os jardins do Palazzo Pitti, o Duomo, as Piazzas Santo Spirito e Santa Croce, com jovens dispostos a vender erva, a bela igreja-panteão, que contem as cinzas de Dante, e as capelas Bardi e Peruzzi com pinturas de Giotto. Vi-a nua, desértica, e eu caminhando por ela com os mesmos olhos emocionados da Isabel Archer de “O Retrato de uma Senhora / The Portrait of a Lady” (1881), idealizando a liberdade, a felicidade e o conhecimento da Itália (a idéia de felicidade da protagonista de Henry James é viajar numa carruagem, numa noite escura, por estradas desconhecidas). Firenze está descuidada, suja, caótica, mas estar nela é ser tomado por um movimento invisível, subterrâneo, glacial. “Que é que se passa comigo?”, perguntei-me desolado. Nunca conversava, salvo uma vez ou outra por uma questão de delicadeza. Todavia, na última noite entre os fantasmas de Dante, Sandro Boticelli e Hannibal Lecter, conheci dois jovens marroquinos que lá vivem: Rachid e Ahmed. Sentamos na murada beirando o Rio Arno, de costas para a Piazza Mentana, com a visão privilegiada da Ponte Vecchio. Fumamos cigarros, dividimos uma cerveja e conversamos longamente sobre futebol, mulheres e culinária. Depois de uma pausa inusitada, imposta pela passagem de um assustado grupo japonês, eu disse: “O Marrocos é um grande lugar. Voltaria lá com prazer muitas outras vezes”. Eles sorriram, orgulhosos. Nada melhor do que um elogio sincero para quebrar todas as barreiras. Agora à Floresta, tendo visto o que se passa à frente e atrás, posso avançar, fazer com conhecimento de causa o que é conveniente face às circunstâncias.

Durante um momento infinito olho para dentro da noite. O sono demora a chegar. De vez em quanto a Lua surge entre as folhas das árvores, cada vez mais pequena, cada vez mais longe, cada vez mais real. Pensamos que a vida é um poço inesgotável, mas a morte vem sempre a caminho. Quantas vezes mais sentirei a força da paixão? Talvez duas ou três. Talvez nem tanto. E, no entanto, tudo parece ilimitado. E não é, tudo é finito. Coleciono na memória imagens miraculosas que nunca mais voltarei a ver: os bondosos amigos portugueses em volta da fogueira; um neo-zelandez de olhos azuis interpretando uma canção de Leonard Cohen; o sorriso singelo de Farina, mãe da telúrica Naima; a flauta mágica do francês de longas madeixas negras; o corpo escultural da holandesa Freda num contorcionismo absoluto; a suavidade das irmãs Pety e Sabina; as cartas de tarot jogadas pelo italiano Fúlvio; a voz aveludada de Josephina; os chás vibrantes do argentino Nestor; o interessante diálogo com o veneziano Gabrielli em torno de “A Divina Comédia / La Divina Commedia” (1304), de Dante; os olhos apaixonados de Alicia; Garrit e sua guitarra; as carícias alucinantes de Patrick; a massagem infalível de Helga; a carne voluptuosa do andrógino ariano “Peninha” e de um moreno israelense que nunca soube o nome, e a infinitude de um azul profundo. Todos esses milagres ajudaram-me a passar por uma transformação. Analiso todo o mal que fiz ou causei, embrutecido e estúpido. Todo o mal que na minha cegueira aprovei. Nas florestas, os pássaros, os animais selvagens e as árvores nunca dizem nada desagradável e vivem juntos de um modo tão tranqüilo. O próprio Rainbow tem como sustentáculo a antiga lenda indígena norte-americana, dos Hopi, que fala de um futuro superpovoado, rios poluídos, florestas destruídas, animais em extinção e guerra por todos os lados. Nessa situação trágica, surgiriam seres humanos resistentes ao caos, os Guerreiros do Arco-Íris. Poderia passar muito bem como argumento de história em quadrinhos com consciência social, mas é uma bela crença, pronta para o absurdo de hoje. Os milagres, inacreditáveis, algo surrealistas, existem vez ou outra. Basta estar aberto a múltiplas interpretações, deixando-se acompanhar por aventuras sem fim. Um toque n’alma da fascinante viagem de Alice, a menina curiosa que fala com o sorridente Gato de Cheshire, com o estressado Coelho de colete, a infeliz Tartaruga, Cartas de baralho, o Chapeleiro louco, a Lagarta fumando pipa, o Grifo, pássaros... A minha porção Lewis Carroll prontifica-se para “Onde místicas memórias se entrelaçam / Como coroas de flores raras, que um peregrino / Colhesse em longínqua Terra Prometida!”.

Depois de tantos anos, encontrei “Tex” ao lado de uma fogueira, edição número 538, “Colorado Belle”. Uma pequena e agradável magia. Tenho-o como o gibi mais amado por meu Pai; comprava-o semanalmente. Deitado no velho sofá, acendia um cigarro e lia-o do início ao fim. Ele admirava o bravo rápido no gatilho; os contos desenhados do gênero western, caravanas, tiroteios, desertos, cactos, saloons, mercenários, abutres, cidades fantasmas, batalhas, funerais e um herói de bom coração. O moço musculoso, Tex Willer, prisioneiro dos Navajos, casa-se com a filha do chefe e, com a morte deste, torna-se senhor das Terras Altas e das Terras Baixas, destacando-se por sua valentia e senso de justiça. Criado por Gianluigi Bonelli na Milão dos anos 50 e realizado graficamente por Aurelio Galleppini, o personagem atravessou fronteiras. Ao lado do leal pistoleiro, o seu filho Kit Willer e os amigos Kit Carson e Tigre Jack. Com pouca fortuna, Giuliano Gemma, mais conhecido por “O Dólar Furado / Un Dollaro Bucato” (1965), tentou dar vida no cinema ao mito. Mas a popularidade de Tex na Itália – a pátria de Sergio Leone, do western-spaghetti, de Django e das trilhas-sonoras de Ennio Morricone – continuou intacta, dando origem inclusive a uma conhecida pizza com seu nome, que tem linguiça, queijo e espinafre como ingredientes. Uma boa combinação. Provei mais de uma vez com um apetite feroz.

Na madrugada que não revela apenas o mais conhecido e o mais vistoso, a doce canção é silenciada. Ciao, Tex! Buona notte, Michael! Uma estrela cadente corta o céu. Fecho a barraca e, logo a seguir, o saco-cama, sussurrando um dos hits do Rainbow italiano: “Magico, magico / Il capello è magico / Se non hai un soldo, donaci l’amore”. A Itália e o Amor. Que gente apaixonada e apaixonante! Nem mesmo a sombra fascista do bufo primeiro-ministro Silvio Berlusconi consegue abatê-los. De súbito, compreendo que fui presenteado com um chapéu mágico; do chapéu vem o jogo de luz e sombra sobre a água e a terra; as longas e proveitosas horas em silêncio diante do Sol e da Lua; o fortalecimento numa figura de Leonardo, numa música de Giuseppe Verdi, nos bosques da Toscana ou nos aspectos mais verdadeiros, mais profundos de qualquer lugar. Por muito que envelheça, que fique fatigado e por vezes sem esperança, jamais deixarei de lado a alegria de viajar. Que aventura! Que Verão! Que Terra boa! Ouço nitidamente a voz da Lua.



(24 de
setembro/2005)
CooJornal no 443


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br