08/10/2005
Ano 8 - Número 445

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Naud Júnior


 

LA GIORNATA D’UNO INESISTENTE


 



de Milão ( Itália)

 

 

Viajando pelas verdes montanhas do fim do mundo, por vezes não me encontro, e não gosto disso. Se ao menos eu pudesse voltar, desistir, e viver no conhecimento de que há esperança em qualquer lugar. Mas é impossível, não existe regresso. Alemanha, Áustria, Itália... Irmão beat, estou aqui! De carona, comboios de terceira classe, ônibus regionais, sutilezas. Dormindo na relva de bosques e jardins, campings, pensões baratas e castelos invisíveis. De súbito, amanhece mais um dia do Verão europeu. Abro os olhos sonolentos ao lado de um monumento em homenagem aos mortos da Primeira e Segunda Guerras, lendo um por um os sobrenomes em relevo, entre eles, Nanini e Stefanini. Um despertar cara a cara com a estupidez das guerras. Para viver, os jovens partem para a guerra, cheios de medo de perder a vida. Buscam o proveito e acabam como escravos ou cadáveres. Que tolos! Mais sensato seria rir da cara dos governantes e seus interesses sem escrúpulos.

 

A formosa vila nas montanhas chama-se Pievepalago. Será um reduto de gente simpática, que combate a indolência e o torpor com o calor humano? Nem tanto. Depois de beber lentamente um capuccino, dou uma volta pelas redondezas, colocando outra vez o pé na estrada, sem deixar de anotar no Diário a aventura do dia anterior: uma inusitada carona ao entardecer, numa furgoneta vermelha conduzida por um alemão e com um rastafari espanhol como co-piloto, além de meia-dúzia de cães. Após 12km com eles, saltei na primeira cidadezinha com algum mérito, embora qualquer vilarejo com quatro ou cinco casas já me pareça fascinante. A dupla era irrequieta, meio maluca, ouvindo uma perpétua e minimalista melodia de flautas oníricas. Diziam estar a caminho da Turquia. Mas como diz um ditador italiano, muito a propósito em certos casos: “Entre o dito e o feito, há uma distância do tamanho do mar”. No interior do carro sujo, fedorento, via-se restos de comida, mochilas, tocos de cigarros, conchas, caixas de cd’s, adesivos contra a guerra e anúncios de festivais de música. Recordaram a brasileira Joana, parceira de viagem durante alguns dias. “Os brasileiros são interessantes. Misturam dinamismo, sensualidade e espiritualidade na sua forma de ser, nos deixando hipnotizados”, definiu o garotinho germânico. Ao ver-me folheando “Se uma Noite de Inverno um Viajante / Se una Notte d’Inverno un Viaggiatore” (1979), de Italo Calvino, revelou a profissão e as “qualidades” do seu pai: “Ele é um famoso e talentoso escritor”. Qual o seu nome? Não respondeu, rindo, misterioso. Será que viajei com o filho de Peter Handke ou de Gunther Grass? E o que há nisso de essencial?

 

Visitando um amigo, ator, em Modena, surpreendeu-me a beleza, a cultura e a tranqüilidade pouco turística do lugar, passando horas na Piazza Grande, fascinado com o Duomo e a Torre Ghirlandina. A cidade é protegida por La Boníssima, um ídolo popular medieval, que leva uma das mãos no coração. Já Milão é totalmente diferente, opressora, carregando uma inevitável doença da alma. Faz parte da Europa adormecida, réplica de alguém que em sonhos aflitivos se golpeia e a si mesmo se magoa, num martírio masoquista. Este tipo de gente habita uma fortaleza de altivez, de um orgulho em perigo, de desconfiança e frieza. Os inquilinos das convenções absurdas, do fascismo, da máfia, do terrorismo. Dão mostras de muito pouca ternura ou mesmo de nenhuma, parecem ser movidos apenas por uma vontade organizada, por um entendimento, por intenções e planos. Perderam a alma no mundo do dinheiro, das máquinas, da desconfiança. Eu procuro não quero cair em nenhum dos extremos: nem no niilismo nem na crença na realidade dos fenômenos; nem samsara nem nirvana. Recordo uma passeata de extrema direita, neo-nazista, este ano, em pleno centro histórico de Lisboa, divulgada com benevolência pela imprensa. Muitas pessoas não suportam os imigrantes, o mundo novo que se descortina, a queda dos valores caducos. Não sabem que o desconhecido não é desconhecido em si mesmo; não se tornou desconhecido por si próprio. Mesmo assim trocam palavras de cortesia, que são proferidas com brevidade, de modo conciso, econômico e frio, para não dizer hipócrita. Nada fazem para se aproximar do diferente, esforçando-se por compreendê-lo. As minhas recordações prendem-se quase sempre com experiências simples, de pouca importância, fincadas no belo e no suave. Antonio, nada de rancor ou comentários enfadonhos e autoritários! Procuro a palavra pertinente e moderada, clara, agradável e de toada suave e sincera, sem irritação. Não ofendendo ninguém, será mais fácil não ser ofendido. Viajo em rostos nada familiares, figuras humanas que poderiam ter sido inventadas pelo design Gianluigi Toccafondo, um discípulo de Bacon. Às vezes vejo-os como minúsculos espelhos num globo giratório. Não viajo porque está na moda e depois se pode falar disso e fazer figura de importante. Não irei querer comer bobó de camarão quando estiver na Áustria, nem medir as paisagens, as pessoas, os costumes e a gastronomia dos países estrangeiros de acordo com os padrões de minha própria pátria. Seria irracional e mal-educado. Viajo pela beleza do ato de viajar, crendo no entusiasmo que uma viagem é capaz de despertar em mim e aprendendo com as motivações individuais. São os meus singelos segredos da arte de viajar.

 

Caminho por um destino inevitável pintado por um renascentista. Inexistente, confirmo o impalpável ao notar que tenho lido muito pouco nesses dias, quase nada, vez ou outra o jornal Corriere della Sera. Mas a história da literatura italiana se aprofunda em mim há muitos anos, da poesia a prosa, desde as primeiras finuras verbais aos mais recentes autores contemporâneos: Dante, Petrarca, Boccaccio, Luigi Pirandello, Ungaretti, Vasco Pratolini, Giorgio Bassani. O conto “O Amante Abandonado”, de Alberto Moravia, que ensaia um diálogo interior do qual o leitor raramente emerge absolvido, tornou-se para mim um tesouro literário como poucos. Pier Paolo Pasolini, arauto do bem e do mal, escritor contundente, um dos meus mestres, com “ Uma Vida Violenta / Una Vita Violenta” (1956) iniciou o neo-realismo. Camillo Boito toca fundo com uma pequena novela, “Sedução da Carne / Senso” (1883), assim como Alessandro Baricco tocou-me com “Seda / Seta” (1996). A escrita de Italo Calvino desliza sensações, luminâncias. Primo Levi, Dino Buzzati, Leonardo Sciasca e Antonio Tabucchi são interessantes. Umberto Eco? Um intelectual chato e confuso, mas há quem considere “O Nome da Rosa / Il Nome della Rosa” (1980) uma obra ilustre. Para focar a sensibilidade da literatura italiana num todo necessitaríamos de uma perspectiva, de um ângulo visual do qual se enquadre a realidade. E qualquer realidade é diversa, pessoal. Esta é a sua grandeza e o seu limite: aspirar a realidade implica estudá-la, selecioná-la, encontrar privilégios em fenômenos de um e de outro, iluminá-la em uma certa luz e não em outra.

 

A caminho de Triste e Veneza, recordo cidades toscanas (Firenze, Siena, Lucca, Vinci e Pisa), seus arredores dedicados ao cultivo de videiras e oliveiras, convertidos em lugares especialmente indicados para aqueles que buscam a tranqüilidade mais absoluta sem renunciar ao prazer de ver-se enamorado por uma beleza alucinante de um entorno natural repleto da solidão dos bosques, isento de dores e frustrações. Desfrutei desse paraíso italiano. Amante da história estive em vilas onde as marcas dos etruscos perduram. Em Talamone, próxima ao Parque Nacional de Uccellina, ainda se conservam restos arqueológicos desta civilização, assim como vestígios medievais e romanos. São passeios que despertam entusiasmo na nossa curiosidade por terras desconhecidas, cuja essência nunca nos é indiferente. Sempre fugindo de turistas, de hotéis internacionais, de elementos duvidosos e da falta de bom senso, não quero ver e conhecer tudo, vou ao acaso, maravilhado. Afinal um dia ficarei velho. E depois morrerei. Mas se tiver sido feliz, mesmo só por um instante, talvez a minha história valha a pena. E garanto que sou feliz agora.



(08 de outu
bro/2005)
CooJornal no 445


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br