22/10/2005
Ano 8 - Número 447

ARQUIVO ANTONIO JR.


Antonio Naud Júnior


 

LA TERRA VISTA DALLA LUNA
 



de Veneza (Itália)



Era uma visão mágica, com muitos metros de tule de Malines envolvendo-a como uma nuvem; como a Terra vista da Lua. Assim surge Silvana Mangano no primeiro filme que julgo ter visto: “Morte em Veneza / Morte a Venezia” (1971). Esta imagem de sonho inspirada nos anos de juventude de sua própria mãe, a sofisticada condessa Carla Erba, Luchino Visconti repetiria com a Alida Valli de “Sedução da Carne / Senso” (1954), Claudia Cardinale em “Violência e Paixão / Gruppo di Famiglia in un Interno” (1974) e, como um adeus, já doente, Laura Antonelli em “O Inocente / L’Innocente” (1976). Eu não mais deixei de amar o cinema italiano, consciente do conhecimento de uma das escolas cinematográficas mais importantes de todos os tempos. Descobri com reverência a música de Nino Rota, os diálogos poéticos de Tonino Guerra e Cesare Zavattini; o universo angustiado do “poeta do tédio”, Michelangelo Antonioni (“A Aventura / L’Avventura”, 1959; “A Noite / La Notte“, 1961; “O Eclipse / L’Eclisse”, 1962) e Anna Magnani suplicando a volta do amante em “O Amor / L’Amore” (1948), de Roberto Rossellini. Pouco convencido do reinado de Sofia Loren, Claudia Cardinale ou Gina Lollobrigida - que não nego ter qualidades, principalmente o de Sofia -, deixei-me seduzir por deusas mais discretas, algumas hoje totalmente no ostracismo: Eleonora Rossi Drago, Valentina Cortese, Isa Miranda, Stefania Sandrelli, Clara Calamai, Lucia Bosè, Lea Massari, Francesca Bertini, Pier Angeli, Lea Padovani ou Micheline Presle... Houve tantas belezas e tantas ilustres com toda a sua fama e glória. Para onde será que foram parar? Quem lembra de Rossana Podestá, Silvana Pampanini, Rossana Schiaffino, Sandra Milo, Antonella Lualdi, Ida Galli, Valeria Ciangottini, Marisa Mell ou Sylva Koscina?

Dentre as estrelas do cinema italiano, duas estão no topo da minha lista amorosa e imaginária: Alida Valli (n. em 1921) e Silvana Mangano (1930-1989). São saborosas divas em variados sentidos e nunca deixaram de ser atrizes inspiradas. Silvana, a “incarnazione del più raffinato erotismo”, entregou-se de corpo e alma à loucura criativa de Pasolini e Visconti, antes candidatando-se a imortalidade ao mostrar pernas perfeitas no mítico “Arroz Amargo / Riso Amaro” (1948), de Giuseppe de Santis. Tinha 18 anos e logo casou-se com Dino di Laurentiis, na ocasião o magnata número um da indústria cinematográfica européia; filmou em Hollywood (heróina dos épicos “Ulisses”, 1953, e “Barrabás”, 1962), teve amores lésbicos, imensa popularidade e morreu de um câncer no pulmão, encerrando - com qualidade – a carreira como uma rica aristocrata traída em “Olhos Negros / Occhi Chiorni” (1987), de Nikita Mikhalkov. Alida Valli começou ainda menina, como figurante em 1934, e teve o seu primeiro êxito em 1941, aos 20 anos, com “Pequeno Mundo Antigo / Piccolo Mondo Antico”, de Mario Soldati. A projeção nacional deu-lhe um contrato com David O. Selznick, o mesmo de “...E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939), protagonizando em Hollywood obras de Alfred Hitchcock (“Agonia de Amor/ The Paradine Case”, 1948) e de outros diretores menos inspirados, além do mais festejado longa-metragem do inglês Carol Reed, “O Terceiro Homem / The Third Man” (1949), tendo como cenário uma Viena ocupada depois da guerra, o mercado negro, o drama das deportações, a rede de enganos em que um ingênuo escritor de livros de cowboys se deixa enlear em busca de um amigo desaparecido. De volta a Itália, ganhou o papel de sua vida com a recusa de Ingrid Bergman em interpretar a apaixonada condessa Livia Serpieri de “Sedução da Carne / Senso”. Logo a seguir, em 1957, encabeçou outra obra genial, “O Grito / Il Grido”, de Michelangelo Antonioni. Nessa época teve a popularidade abalada com um escândalo envolvendo sexo, drogas e assassinato. Mesmo assim continuou trabalhando até uma idade avançada com nomes como Bernardo Bertolucci, Pier Paolo Pasolini, René Clement, Gillo Pontecorvo, Claude Chabrol, Georges Franju. À maneira de Manuel Puig, houve um tempo em que pensei escrever curtas novelas dramáticas, fantasiosas, em torno da vida e obra destas duas senhoras formosas e inquietas.

Pintor de mundos que se extinguem, fechados sobre si mesmos, retratista requintado de decadências históricas, Luchino Visconti é o autor de “Rocco e seus Irmãos / Rocco e suoi Fratelli” (1960), talvez o filme de minha vida; “Vagas Estrelas na Ursa Maior / Vaghe Stele dell’Orsa” (1965) e “Violência e Paixão / Gruppo di Famiglia in un Interno” (1974), entre tantas obras que mergulham na alma humana. O mestre nascido em Milão era homossexual, refinado, culto, comunista, ousado e dirigiu peças de Shakespeare, Goldoni, Tchekhov, Cocteau, Sartre e Tennessee Williams; aristocrata que só sabia amar numa atmosfera tempestuosa e passional, confundiu vida e arte em romances com Massimo Girotti (o Gino do seu primeiro filme, “Obsessão / Ossessione”, 1943), Renato Salvatori, Giuliano Gemma, Alain Delon, Mario Girotti / Terence Hill ou Helmut Berger. Ao contrário de Antonioni, um cineasta sem paixão ou esperança, que encaminha seus personagens para a solidão e a incomunicabilidade; cinema de estados de alma, de fundos cinzentos, de cenários despidos pelos quais desfilam esses mortos em vida, nos quais tantas vezes tememos reconhecer-nos. Federico Fellini sugere as trevas de uma sociedade degenerada, de estúpidos e vazios que procuram novas sensações, deixando aberta uma fenda e por ela um raio de alegria, de inocência, de esperança.

Poucos cineastas italianos tiveram a projeção de Visconti, Fellini ou Antonioni, e alguns, ocultos no passado, merecem maior atenção. Eu veria outra vez toda a brilhante filmografia de Valério Zurlini. Como não emocionar-me com “Cronaca Familiare / Crônica Familiar” (1962), “A Primeira Noite de Tranquilidade / La Prima Notte di Quiete” (1972) ou “O Deserto dos Tártaros / Il Deserto dei Tartari” (1976)? Alessandro Blasetti, Antonio Pietrangeli, Alberto Lattuada, Giuseppe de Santis, Pietro Germi, Mauro Bolognini, Mario Monicelli, Francesco Maselli e os irmãos Paolo e VittorioTaviani provocaram ressonâncias. A agressiva produção política de Gillo Pontecorvo (“Queimada”, 1969), Elio Petri (“A Classe Operária vai ao Paraíso / La Classe Operaia va in Paradiso, 1971), Giuliano Montaldo (“Sacco e Vanzetti”, 1971) e Francesco Rosi (“Cadáveres Excelentes / Cadaveri Eccelent”, 1976) também é pouco falada no presente. Eles foram a faceta ideológica dos anos 70, tempos de fausto dos atores Gian Maria Volonté, Ricardo Cucciola e da nossa Florinda Bolkan. A interessante carreira da cearense Florinda deu-nos o mítico “Os Deuses Vencidos / La Caduta degli Dei” (1969), de Luchino Visconti; “Amargo Despertar / Una Breve Vacanza” (1973), de Vittorio De Sica; “Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita / Indagine su un Cittadino al di Sopra di Ogni Sospetto” (1970), de Elio Petri, entre mais de 50 filmes. Em 1975 foi a Lola Montez de “Royal Flash”, do inglês Richard Lester. Estivemos juntos em Lisboa, no ano de 1999, na mesma mesa de um stand da Feira Internacional de Turismo. Ela deixava-se acompanhar por uma princesa italiana, que mais parecia uma garota caprichosa, e eu no círculo high-society por obra e graça do caro amigo Emílio Santiago. Comemos lagostas, falei do conhecimento de seus filmes, ela pediu-me que lembrasse do título de pelo menos um deles. Sem vacilar, recordei alguns. A bela mulher, algo andrógina, movimentos elegantes, sorriu, comovida, interrompendo-me com delicadeza ao comentar pausadamente entre uma e outra tragada do cigarro: “Está bem, obrigada. Juraria que nenhum jovem do meu país tivesse conhecimento real do meu trabalho. Felizmente enganei-me”.

A chama de Pier Paolo Pasolini (“O Evangelho Segundo São Mateus / Il Vangelo Secondo Matteo”, 1964) continua intacta, assim como a de Ettore Scola, o autor do impressionante “Um Dia Especial / Una Giornata Particolare” (1977), com um Marcello Mastroianni em uma de suas melhores atuações. O ator sedutor e carismático de “La Dolce Vita” (1960) e “Oito e Meio / Otto e Mezzo” (1963), obras primas de Federico Fellini, trabalhou na teatral Compagnia Italiana di Prosa ao lado de Vittorio Gassman, outro célebre ator que ficou na memória popular com “Brancaleone nas Cruzadas / L’Armata Brancaleone” (1966), entre outros. Antes deles, Raf Vallone, Rossano Brazzi, Amedeo Nazzari e Vittorio De Sica provocavam os gritos histéricos das fãs. De Sica dirigiria peças fundamentais do neo-realismo, sendo a mais venerada “Ladrões de Bicicletas / Ladri di Biciclette” (1948). Sergio Leone (“Por um Punhado de Dólares / Per un Pugno di Dollari”, 1964), Bernardo Bertolucci (“La Luna”, 1979), Marco Ferreri (“Crônica de um Amor Louco / Storia di Ordinaria Follia”, 1981) e Marco Bellochio (“Gli Occhi, la Bocca / Os Olhos, a Boca”, 1983) foram ícones de toda uma geração. Giulietta Massina comoveu meio mundo como a prostituta inocente de “Noites de Cabíria / Le Notte di Cabiria” (1957). Laura Betti levitou em “Teorema” (1968). Rina Morelli, Adriana Asti, Romolo Valli, Paolo Stoppa, Pupella Maggio, Ciccio Ingrassia e Omero Antonutti, coadjuvantes indispensáveis, de luxo, se identificavam de forma perfeita com as suas personagens. Um elenco de bons rapazes fez o par romântico de mocinhas piegas: Renato Salvatori (um ator extraordinário e viril), Massimo Girotti, Gabrielle Ferzetti, Franco Interlenghi, Franco Nero, Fabio Testi, Thomas Milian. A sensualidade madura de Laura Antonelli esteve muito bem aproveitada sob a direção de Marco Vicario, Visconti, Bolognini e Dino Risi. Houve o humor alucinante de Totó e Alberto Sordi; de Monica Vitti e Ugo Tognazzi; de Giancarlo Giannini e Mariangela Melato; de Nino Castelnuovo e Adriano Celentano. Há muito que o cinema italiano vive de recordações chorosas dignas do “Cinema Paradiso” (1989) de Giuseppe Tornatore. Seus gênios morreram; dois ou três, ainda vivos, são apenas faíscas da passagem incontornável do tempo. É que a morte não se perde em considerações pelo que está ou não está por fazer. A vida pode partir de improviso. No lugar deles, o teor político de Nanni Moretti e a histeria de Roberto Benigni arrebatam público e prêmios, mas estão longe, muito longe, da inovação de outrora. Ferzan Ozpetek, Gianni Amelio, Sergio Castellito, Gabrielle Salvatore e Francesca Archibugi fazem parte desta geração de cineastas do final do século passado e início deste. Há inclusive divas: Monica Belucci e Asia Argento. A curvilínea Belucci teve o seu momento mais doce em “Malena” (2000), a história de uma esposa perseguida moralmente que espera que seu marido volte da guerra. É um autêntico “sex symbol”, em certo modo, “à antiga”, inspirando-se em Silvana Mangano. É tão espetacular que na “História da Beleza”, um panorama sobre o ideal humano do belo através do tempo, escrito pelo semiólogo e escritor Umberto Eco, sua foto posando para o calendário Pirelli é comparada com a imagem das Vênus primitivas. Asia, filha de Dario Argento, um conhecido autor de filmes que exageram no sangue e no medo, romana, também cantora e cineasta, ganhou dois prêmios David de Donatello de melhor atriz e filmou com Patrice Chéreau e Abel Ferrara. Há interprétes como Stefano Accorsi, Margherita Buy, Anna Galiena, Stefano Dionisi, Enrico Lo Verso, Gabriel Garko, Giovanna Mezzogiorno, Maria Grazia Cucinotta, Kim Stuart Rossi, Laura Morante, Claudia Gerini e outros. Mesmo com promessas evidentes, a riquíssima história da cinematografia italiana ficou na saudade, hoje o que se vê é pouco estimulante.

Nesta viagem de autodescoberta, acompanho a arte italiana numa experiência tão alucinatória quanto intensa e interessante, pondo em causa a sociedade convencional e monótona que nos circunda, tentando assim dar algum significado à vida. E de qualquer forma, o Festival de Veneza é um ambiente fantástico que tem existência própria, um templo de luxúria dedicado ao melhor cinema, acentuando a fama de liberal e libertina da cidade que o abriga. Vim parar aqui a convite de um ex-amante, um simpático jornalista do Corriere della Sera. Um tipo divertido, de boa onda, culto, clone do italiano típico das comédias de costumes. Ao saber que estava numa Floresta na Toscana, amavelmente ofereceu-me a viagem veneziana, incluindo hotel, alimentação, convite para os filmes em competição e, porque não, algumas festinhas privadas. Nem pensei duas vezes, mesmo vivendo uma intensa temporada rural e com trajes limitados. Ficamos os três no mesmo quarto. Sim, três; eu, ele e a outra (ou melhor, eu seria “o outro”). O ex-amante é casado com uma designer de moda, a causa do fim repentino do nosso tórrido caso no início deste ano. Não tive paixão (ou pachorra?) para meter-me num melodrama, mesmo encantado com o charme a italiana. “Certe passioni non sono che il frutto di una fantasia”, disse-lhe quando insistiu no triângulo. Eles vivem a história de um casal e dos mal entendidos que levam ao fim de anos: a rotina, o cansaço, a fatal banalidade do dia a dia. A garota, fútil e ansiosa, gasta horas no celular, folheia revistas ostensivamente requintadas, prova uma roupa atrás da outra, fuma cigarros Diana, bebe martinis. Aparentemente não desconfia que dormi durante dois meses com o seu marido, nem eu sabia que ele era casado. Para a festa de estréia da Biennale di Venezia, vestiu-se como uma rainha excêntrica, e logo veio dar palpites no meu austero vestuário. Concordei, e ela, improvisando peças minhas, suas e dele, deixou-me com aspecto de alguém com dinheiro. É uma vistosa ragazza, robusta e alta, olhos verde-esmeralda, lembrando Virna Lisi e frívola como a mais atraente rosa de um jardim. Ele, um intelectual comunista, poeta, sabe disso, e gargalhou confessando que não conseguiria viver com uma mulher diferente. Como assim? “Uma mulher que não estivesse cheia daquela tristeza própria de todas as coisas”, respondeu. Olhei-o de relance, um pouco chocado com a crueza da observação, mas ri, com o ar mais natural.

A gala de inauguração do evento, para 1200 pessoas, com figuras bonitas, medidas drásticas de segurança antiterrorista e coreografia de fogos de artifício, divertiu-nos a valer. Sem limites, enchemos a cara, pouco importando em espreitar os decotes arrojados e as formas voluptuosas dos famosos. Os convidados tinham muito em comum, talvez a falta de caráter, de naturalidade, de idéias, de cultura. Não revelavam qualquer personalidade visível e eram meramente objetos de um certo valor. Fosse ridículas ou não, essas pessoas fascinavam-me. Para não perder a prática, participei das coletivas de imprensa em torno de Stefania Sandrelli, Leão de Ouro pela carreira, e Veruschka, que lançou um documentário contando a sua excitante vida de top-model. Duas veteranas magnéticas, curiosas. Entediado, não fiz qualquer pergunta, a entrevista tornou-se para mim um gênero em que o jornalista, fingindo ter interesse nas opiniões do entrevistado, se entretém a desenvolver as suas. Muitas salões cheios de cochichos e risos, muitos personagens agarrados ao desalento glacial, muitas bebedeiras e outros estimulantes. Na recepção oferecida por George Clooney, champagne e uma orquestra de jazz swing deleitaram a todos nós mariposas em busca da luz fatal. Como um imenso rio, a champagne destruía inquietações, deixando cair uma máscara atrás da outra. Muitos pareciam sentir um impulso irresistível de subir à gigantesca árvore Kutashalmali, onde seres com dentes de ferro os agarrariam em abraços e beijos que os despedaçariam. Neste círculo vicioso, poucos compreendem que o eu é como uma ilusão, sem realidade. Passam a vida à procura de ganhos. Uma vez velhos, que fazem com as esperanças frustradas?

Assisti poucos filmes, preferindo tomar camparis e capuccinos nos concorridos coquetéis da Terrazza Martini, um ponto de observação privilegiado e informal do star system. Estava lá quando Jeremy Irons e Lena Olin chegaram de gôndola para a apresentação da superprodução histórica “Casanova”, de Lasse Hallstron. Valeu pelo drama conjugal “Gabrielle”, de Patrice Chéreau, com a sempre surpreendente Isabelle Huppert; “Mary”, de Abel Ferrara, onde Juliette Binoche não tira a bíblica Maria Madalena da cabeça; ou o um pouco nosso “O Jardineiro Fiel / The Constant Gardener”, que não faz feio, muito pelo contrário. Fernando Meirelles filma os bairros degradados de Nairobi como filmou as favelas do Rio de Janeiro, aposta nos contrastes abismais e chocantes de cores, raras vezes pára com a câmara quieta, usa o veracidade documental e desdobra-se em planos impressionistas. O escritor britânico John Le Carré deu corpo e alma a este enredo de intriga política e corrupção passado no Quênia, narrando o drama de um diplomata inglês, Justin Quayle (Ralph Fiennes), que investiga o assassinato da mulher e se depara com uma multinacional farmacêutica sem escrúpulos, que explora o Terceiro Mundo. Mesmo com a competência de outros filmes em competição, “Brokeback Mountain”, do taiwanês Ang Lee, foi o que mais me chamou a atenção e terminou por levar o Leão de Ouro: um western em torno do amor homossexual entre dois cowboys no Wyoming, Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhall). As cenas de sexo praticamente não existem, as interpretações são assentes na linguagem física e no uso do olhar. A obra é comandada pelo laconismo – emocional, verbal, dramático -, pelo não dito, pelo sugerido numa pose, numa expressão e num gesto, pela justeza de expressão, e por muito pudor. Numa das inúmeras recepções, encontrei um estranho muito parecido com o australiano Heath Ledger, num magnífico banheiro totalmente negro. Lavando o rosto para refrescar a bebedeira, através do espelho tomando toda a parede até o teto, atentamente observei-o a mijar. “Sou seu admirador, Ennis Del Mar... Casanova... Will Grimm”, cortejei, fingindo estar falando com o próprio Heath Leadger ao citar os personagens dos três filmes dele apresentados neste Festival. Ele sorriu, parecendo encabulado. Voltei-me, olhando diretamente o seu membro cor de rosa. “Não deseja um autógrafo tradicional?”, perguntou irônico, aceitando o jogo de enganos. “De forma alguma, nunca saberia o que fazer com uma assinatura famosa. Não me parece interessante emoldurá-la ou esquecê-la dentro de um livro”. Desta vez ele sorriu com gosto e, antes de sumir, disse: “Pena que não é possível demonstrar como respeito o meu público”. “É assim tão difícil?”, insisti. “O problema é que estamos num banheiro público e posso estar conversando com um jornalista”. Saiu-se bem. Não voltei a vê-lo na multidão profundamente imersa na inconsciência de suas vidas vazias ou no seu obsessivo receio da velhice, continuando a beber champagne, com a sensação de que o que via e ouvia à minha volta, um mar de vozes intolerantes, não estava realmente acontecendo, ou se estava, então eu não era real.

Três realizadores italianos – Cristina Comencini, Pupi Avati e Roberto Faenza – competiram pelo Leão de Ouro, mas nenhum deles recuperou a velha glória do cinema local, mesmo com a Taça Volpi de interpretação feminina parando nas mãos da bela e talentosa Giovanna Mezzogiorno de “La Bestia nel Cuore”. A 62. Mostra Internazionale d’Arte Cinematrografica di Venecia foi para mim um laboratório experimental, persistindo o jogo de alternâncias entre convenções e emoções superficiais. São demasiadas caricaturas que se mostram excitadas, trocistas e orgulhosas, ou vaidosas e invejosas, ávidas de elogios, desdenhosas. Sei que todos os esforços têm por fim a satisfação; mas a satisfação é difícil de obter, mesmo com riquezas, prêmios e celebridade. Fico com a delícia da solidão das florestas, repetindo a lenda do Holandês Voador, o marinheiro condenado a errar eternamente pelo mundo, a menos que se apaixone por uma mulher e ela por ele. Como não é assim tão fácil, continuo de porto em porto, à luz de uma Lua cor de sangue, escrevendo distraído o que sente o meu coração tão longe e tão perto. Talvez não consiga escrever como devia ser, e mesmo se o que tivesse escrito fosse bom, quantos leitores o saberiam?



(22 de outu
bro/2005)
CooJornal no 447


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm
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