12/06/2010
Ano 13 - Número 688

ARQUIVO
ANTONIO  NAHUD JÚNIOR



Antonio Nahud Júnior



O CASTELO DE RILKE

 


Antonio Nahud Júnior

Majestosa edificação de grande estatura, cujas dimensões, estética e imponência despertam admiração, à beira do mar Adriático, quase inacessível, o Castelo de Duíno sobrevive ao esquecimento. O príncipe italiano Carlo Alessandro e o seu mordomo argentino José Gustavo são os mais recentes moradores deste monumento artístico e cultural imortalizado nos versos de Rainer Maria Rilke (1875 - 1926), que viveu nele de 1910 a 1912, então propriedade de sua amiga e mecenas princesa Marie von Thurn und Táxis. Deslumbrado com “As Elegias de Duíno” (1912-1923), obra em que o poeta austríaco revela a influência do pensamento filosófico de Sören Kierkegaard, visitei o famoso castelo-personagem nos primeiros anos deste novo milênio. Fabuloso, mesmo sem o açoite de ondas em fúria ou fantasmas de contos góticos. Surpreendi-me ao perceber, no alto de uma rocha, as ruínas de outro castelo, tal e qual eu guardava na imaginação. Portanto, há dois castelos em Duíno. Do mais velho se comenta dos cultos lunares ritualizados pelos druídas; fala-se também que teve como hóspede no século 14, o autor de “A Divina Comédia” (1304-1321), Dante Alighieri, considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como “Il sommo poeta” (O poeta supremo).
 


Situado a uns vinte quilômetros da cidade italiana de Trieste, o Castelo de Duíno tem como atração um museu conservando a memória dos tempos de glória. De uma antiga torre, vê-se o caminho que leva da fortaleza a praia de Sistiana, trajeto que era percorrido diariamente por Rainer Maria Rilke durante sua longa estadia. Poeta hermético cujos poemas traduzem a angústia de um ser inadaptado, Rilke acumulava às suas circunstâncias vitais o fato de ser homossexual em uma sociedade especialmente repressiva. Em Duíno escreveu também os poemas que compõem a obra “A Vida de Maria” (1913), os quais o compositor alemão Paul Hindemith viria a musicar. Trabalhando com os limites sensoriais da existência, da melancolia, a sua poesia traduz o fundamento da busca de ser. Para ele, a poesia não podia ser senão mística, no sentido em que a existência humana só poderia encontrar a sua salvação através da linguagem poética, aspirando ao plano da totalidade, ou seja, a de uma dizibilidade absoluta e redentora. As "Elegias" apresentam a morte como uma transformação da vida em uma realidade interior que, junto com a vida, formam um todo unificado. A maioria dos sonetos canta a vida e a morte como uma experiência cósmica. Ainda hoje me lembro do impacto da primeira leitura destes versos: “Pois o belo apenas é o começo do terrível, que só a custo podemos suportar, e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrível”.

Propriedade de família nobre, muito antiga, de origem Bergamasco, os Torre e Tasso, o Castelo de Duíno se aproxima dos mil anos de existência, destacando-se durante séculos com uma intensa vida social, artística e cultural ao receber Marcel Proust, Valéry, Einstein, a atriz Eleonora Duse e outras gigantes. Durante a Primeira Guerra Mundial, bombardeado e arruinado, posteriormente renasceu das cinzas. Atualmente, além de lugar de literárias peregrinações, é negócio turístico-empresarial alugado para seminários ou celebrações de casamentos. Os visitantes se encantam com “Rocca Degli Usignoli”, um superficial espetáculo de luzes e sons. Seguramente não é um castelo de contos-de-fadas, mas se tornou imortal por sua história, pelos versos de Rilke, pela visão privilegiada do Adriático.



(12 de junh
o/2010)
CooJornal no 688


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
RN
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” e "SUAVE É O CORAÇÃO ENAMORADO", entre outros.
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-012.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br
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