03/07/2010
Ano 13 - Número 691

ARQUIVO
ANTONIO  NAHUD JÚNIOR



Antonio Nahud Júnior



OS DEUSES E OS MORTOS:
A SAGA DO CACAU

 


Antonio Nahud Júnior

Recordados como saudosos heróis ou sanguinários vilões, os coronéis - como eram conhecidos os grandes proprietários de fazendas da época de ouro do cacau - não são frutos da ficção engenhosa de Jorge Amado, Adonias Filho ou Euclides Neto. Libertinos, violentos, desalmados, sagazes, impiedosos ou ambiciosos? Com certeza tudo isso. No entanto, esses lendários e rudes homens que desbravaram o sul da Bahia, no final do século 19, enfrentaram desafios homéricos, lutando contra a natureza bruta, conhecendo a fartura e fazendo história. Pela posse de terras, utilizaram o trabalho honesto, a dominação pela força e regras acima das leis. Instigaram caxixes e tocaias, crimes abomináveis, mas começaram pobres e sem instrução, subindo na vida pegando no facão, na espingarda papo amarelo, alimentando-se de carne seca, farinha e rapadura; embrenhando-se na floresta hostil, onde a desmatavam e implantavam a monocultura em meio a Mata Atlântica; morando em casebres e dormindo em redes, antes de atingir as pompas do coronelismo.

Em “Terras do Sem Fim” (1942) e “Tocaia Grande” (1984), celebrados romances de Jorge Amado, encontramos a descrição deste processo de ocupação, da luta pela terra, da disputa entre vizinhos. Foi a partir desse clima de contendas e desconforto, em meio ao perigo, aos índios, animais selvagens e doenças, que surgiu a personalidade mítica dos destemidos coronéis. Através deles e de milhares de humilhados ou massacrados, que não tiveram a mesma sorte, vilas e cidades nasceram para a glória da região dos frutos de ouro, como eram conhecidas as amêndoas do cacaueiro. Os coronéis transformaram esses lugares em palco para seus mandos, se fazendo obedecer, elegendo representantes políticos, usurpando propriedades, manipulando as autoridades e, quando isso não saciava sua cobiça, mandavam jagunços assassinar os pequenos cacauicultores em emboscadas, ou muitas vezes esses acossados acabavam trabalhando para os próprios perseguidores, e conseqüentemente perdiam as suas roças. Temidos, às vezes admirados, eram ativos participantes da vida social grapiúna (*), líderes legitimados pelo voto, quase sempre conquistado pela força do dinheiro, das armas ou do domínio das instâncias públicas – como a justiça, a polícia e a cobrança de impostos. Ao longo do tempo, tornaram-se também comerciantes, juntando as duas principais atividades da exploração do cacau.

Eles não tinham limite de gastos: bebiam champanhe francês nos bares como aperitivo, perdiam fortunas na jogatina, freqüentavam cabarés, acendiam charutos com notas de quinhentos mil-réis e bancavam luxuosamente prostitutas estrangeiras. Sinônimo de prosperidade, seus palacetes eram sobrados faustosos e mobiliados com requinte europeu. Viviam no mais alto estilo. Os trabalhadores, vindos dos sertões da Bahia e de Sergipe, ficavam assustados com tudo o que viam: da exuberância da natureza à violência da conquista. Eram oprimidos de todas as formas: no salário que mal recebiam e tinham que devolver quando compravam, a preços extorsivos, gêneros de primeira necessidade no barracão do dono da fazenda; nas jornadas excessivas de trabalho; na ausência de serviços básicos, como educação e saúde.

A fama de Ilhéus e Itabuna correu mundo. Junto com ela chegaram imigrantes, principalmente turcos e libaneses, que sobreviviam como mascates, indo de fazenda em fazenda vendendo de tudo, e imprimindo a culinária árabe como uma das características da região cacaueira baiana. Os navios aportavam cheios de aventureiros em busca de riqueza fácil. Outros se deslocavam em animais ou mesmo em longas caminhadas, todos à procura do lucro certo, transformando a sociedade grapiúna em um misto de sotaques. No auge da lavoura do cacau, o sul da Bahia chegou a ser responsável por 40% da atividade financeira do Estado, num lucro inegável. Hoje, os coronéis, ex-deuses, são relíquias do passado e o cultivo do cacau passou da opulência à decadência. Porém, a saga dos plantadores de cacau dificilmente será esquecida, graças aos populares romances do itabunense Jorge Amado a aventura de uma pequena região se tornou conhecida em todo o Brasil e no estrangeiro, numa narrativa sedutora que relembra riquezas fundadas em episódios sangrentos, atentados e arruaças.


(*) Grapiúna significa aquele que nasce no sul da Bahia. A designação tem origem tupi, sendo corruptela de igarapé-una (igarapé, pequeno rio; una, preta) ou de igaraúna (igara, canoa; una, preta) com a queda da vogal e a contração das sílabas gara.

Saiba Mais Sobre o Tema em:
“Os Coronéis do Cacau” (1995), de Gustavo Falcón;
“Tensões do Tempo: A Saga do Cacau na Ficção de Jorge Amado” (2001), de Antonio Pereira Souza



(03 de julh
o/2010)
CooJornal no 691


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
RN
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” e "SUAVE É O CORAÇÃO ENAMORADO", entre outros.
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-012.htm
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