24/07/2010
Ano 13 - Número 694

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ANTONIO  NAHUD JÚNIOR



Antonio Nahud Júnior



IMIGRAÇÃO CLANDESTINA:
A IMITAÇÃO DA VIDA

 


Antonio Nahud Júnior - CooJornal

Por toda a Espanha se assiste a crescentes reações de xenofobia contra os imigrantes. Mas quais as razões que justificam essa repulsa? Analisando algumas declarações descobri que o medo em suas diversas facetas é o tema mais recorrente. O medo da perda da identidade nacional devido a um possível predomínio dos estrangeiros. O medo da concorrência profissional, já que os imigrantes realizam todo o tipo de serviço, mesmo em condições precárias e recebendo vencimentos mais reduzidos. O medo das máfias que se dedicam ao tráfico de mão-de-obra clandestina, prostituição, comércio de droga, etc. O medo da imigração clandestina que muitas vezes resulta no aumento da criminalidade, roubos, comércio de drogas etc. Mas, na verdade, estamos perante um vasto leque de problemas que ultrapassa a questão do medo do outro (o diferente). O problema da imigração envolve hoje a questão do modelo de sociedade globalizada que está sem saída. Todos a sentem como inevitável, mas desconhecem-lhe os contornos e resultados, por isso a receiam.

As profundas desigualdades provocam contínuos fluxos de seres humanos dos países mais pobres para aqueles onde as condições de vida são melhores. Estas disparidades de desenvolvimento, ao contrário do que seria de esperar, não têm diminuído a nível mundial, mas aumentado. O que se reflete no crescente número de clandestinos nos países mais ricos. Este drama é particularmente sentido na Espanha. Todos os anos muitos morrem afogados quando tentam atingir a Andaluzia ou as ilhas Canárias vindos do Norte de África, num tráfico humano mortal que como negócio começou nas costas do Marrocos e hoje atinge o litoral da Argélia, de onde partem barcos (cayucos ou pateras) lotados. A travessia do Estreito de Gibraltar é uma viagem de 13 quilômetros entre a costa marroquina e o litoral sul espanhol. A ilha de Forteventura das Canárias, outro destino freqüente, dista 120 quilômetros, e o deslocamento por barco dura entre 14 horas a três dias. Os ilegais são originários de toda a África, mas, sobretudo do Marrocos e dos países sub-saarianos.

Calcula-se que entre 800 mil e 1,2 milhões de imigrantes ilegais vivem em Espanha. Esse número não pára de aumentar, por mais medidas repressivas que sejam tomadas. A maior parte destes imigrantes são equatorianos, marroquinos, chineses, colombianos e peruanos. Existem também outras comunidades importantes tais como a brasileira, a guineense-equatorial, romena e filipina. Todos sobrevivem da economia paralela e são muito mal pagos, vivem e trabalham em péssimas condições. Muitos são escravizados por máfias. Os brasileiros, geralmente pertencentes à classe média, aceitam trabalhos inaceitáveis no país natal, mas cujos salários local ultrapassam a remuneração brasileira. Entre o salário e o status, vence o primeiro. Boa parte tem dúvidas quanto ao retorno e buscam a legalização. Essa realidade do imigrante brasileiro indica como principais causas do deslocamento, a falta de oportunidades no nosso país e redes sociais que o amparam de alguma forma no ponto de chegada. Dados mais precisos do Instituto Nacional de Estatísticas afirmam que predominam os homens entre os imigrantes que chegam à Espanha (53%) e têm entre 16 a 44 anos (44%). Assim, o predominante é o jovem do sexo masculino.

Ainda segundo o Censo, um em cada seis vizinhos nas grandes cidades espanholas é imigrante, ilegal ou não. A Espanha se transformou no país da União Européia onde mais aumentou o número de imigrantes, principalmente porque vários setores da economia espanhola dependem da imigração. A população nativa também tem envelhecido gerando poucos nascimentos. É comum encontrar idosos que moram sozinhos, muitas vezes morrem entre quatro paredes e só se fica sabendo dias depois. Porém, estão acontecendo mudanças que garantirão a sobrevivência da nação. Graças aos imigrantes. Mas existe o medo, a fobia derivada do diferente, do desconhecido. Eu vivi muitos anos em Barcelona, Madri e Cádiz. Tive sorte e oportunidades como poucos. Desde o meu primeiro ano por lá, em 1994, na capital espanhola, que o fenômeno da mão-de-obra estrangeira me chamou a atenção. Garçons, atendentes de lojas, trabalhadores em ciber-cafés, cozinheiros, outros empregos do setor terciário, geralmente eram estrangeiros ou descendentes. O mesmo acontecia em qualquer outra parte do país. Em Barcelona identifiquei paquistaneses como proprietários de lojas de souvenires, e romenos com seus filhos lendo a sorte nas ruas mais movimentadas. Ao longo dos anos, conheci um advogado gaúcho que trabalhava como garoto de programa; uma enfermeira mineira que sobrevivia fazendo serviços domésticos; uma colombiana que vendia flores; uma argentina hábil em caricaturas feitas em praças públicas; um barman argentino; uma cartomante mexicana etc. Tantas vidas, tantas esperanças, tantos fracassos. Uma verdadeira imitação da vida, nunca uma vida como realmente deveria ser. No entanto, amo a Espanha com fervor, sou um mix da Bahia com o Rio Grande do Norte e a terra cintilante de Almodóvar. Publiquei dois livros louvando-a e denunciando o ingrato destino da maioria dos imigrantes brasileiros ilegais que lá vivem: “Retratos em Preto & Branco – Contos Góticos de Madri” (1996) e “Se Um Viajante numa Espanha de Lorca” (2005). Ambos esgotados, mas finalizo “Homem Sem Caminho”, que também tem como pano de fundo a imigração clandestina.

O presente artigo deveu-se aos meus olhos estrangeiros diante do que vi.


(24 de julh
o/2010)
CooJornal no 694


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
RN
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” e "SUAVE É O CORAÇÃO ENAMORADO", entre outros.
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-012.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br
www.cinzasdiamantes.blogspot.com 


  
 

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