19/02/2011
Ano 14 - Número 723

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ARQUIVO
ANTONIO  NAHUD JÚNIOR



Antonio Nahud Júnior



ROMÂNTICA LARA, REBELDE JULIE CHRISTIE
 


Antonio Nahud Júnior - CooJornal


Dedicado a Sibely Vieira


Al Pacino se referiu a ela como "a mais poética de todas as atrizes". Indicada quatro vezes ao Oscar, musa das telas nos anos do Swinging London, lançou um determinado tipo de mulher moderna e independente, sem as curvas fascinantes ou a sensualidade explícita de estrelas da época como Sophia Loren, Claudia Cardinale ou Brigitte Bardot. Ela era diferente, anunciava um admirável mundo novo, cativando multidões com os seus sonhadores olhos azuis, forte personalidade, caráter rebelde e imagem totalmente oposta ao da típica star. Em suas aparições públicas, JULIE CHRISTIE vestia-se informalmente, sem maquiagem e não controlava a língua, chocando os conservadores com declarações polêmicas. Simbolizava o espírito renovador do cine britânico dos anos 60, a figura feminina liberal, despojada de convencionalismos, militante dos direitos humanos e ativista em defesa do meio ambiente. De caráter retraído e reservado, nada dada a festas glamourosas e exibições de popularidade tão típicas em Hollywood, teve romances badalados com os atores Michael Caine, Terence Stamp e Warren Beatty. Mas, acima de tudo, transmitia uma carismática energia ao encarnar a mulher dos novos tempos. Nascida em 1941, numa plantação de chá de seus pais, um casal britânico que vivia na Índia, trabalhou duro para chegar ao estrelato. Começou no teatro, porém se tornaria conhecida na Inglaterra ao protagonizar a série de TV “Andrômeda”, encarnando uma espécie de monstro inventado por cientistas, uma Frankstein de saias. No cinema, a primeira boa oportunidade aconteceu em “O Mundo Fabuloso de Billy Liar/Billy Liar” (1963), de John Schlesinger. Com o mesmo diretor fez “Darling, a Que Amou Demais” (1965), uma aguda crítica a alta sociedade inglesa, ganhando o Oscar de Melhor Atriz (ela chorou ao receber o prêmio) no papel de uma top-model, Diane Scott, definida então de “moral duvidosa”, mimada, manipuladora e socialmente ambiciosa, que depois de rejeitar inúmeros amantes, casa-se com um príncipe italiano e mergulha numa vida vazia. No entanto, a fita que elevaria JULIE CHRISTIE ao status de mito do celulóide chama-se “Doutor Jivago/Doctor Zhivago” (1965), dando vida a encantadora enfermeira Lara Antipova.

A espetacular epopéia baseada no romance de Boris Pasternak e dirigida pelo mestre David Lean, levou muita gente às lágrimas, principalmente pelo emotivo mega-hit “Tema de Lara”, da sensacional trilha sonora do francês Maurice Jarre. Com esse filme, o mundo inteiro passou a conhecer a atriz de olhar etéreo e nostálgico. A narrativa, em flashback, começa com o general Yevgraf (Alec Guinness) interrogando uma jovem (Rita Tushingham) na esperança de resolver um mistério: o que teria acontecido com sua sobrinha depois da morte do seu meio irmão, doutor Jivago? Humanista e intelectual, homem das artes e da medicina, Jivago (o símbolo sexual egípcio Omar Sharif) divide-se entre duas mulheres: Tonya (Geraldine Chaplin), com quem casa, e Lara, a quem ama. Ele conheceu Lara no leito de morte de sua mãe, local onde ela foi seduzida pelo inescrupuloso Komarovsky (inesquecível atuação de Rod Steiger). Mais tarde, Lara se casa com o idealista Pasha Antipova (Tom Courtenay). As vicissitudes do enredo unem e separam Lara e Jivago diversas vezes. O labirinto de encontros e desencontros vai sendo reconstruído pouco a pouco nesse amor nos tempos de guerra, bem à moda de clássicos como “Casablanca”.

História de amor com conotação política, vai além de uma superprodução colossal, é a síntese do cinema de um soberbo diretor. Para Stanley Kubrick, Lean era um dos três únicos diretores os quais assistir a todos os filmes era mais que um dever; para a publicação britânica “Sight & Sound”, um dos dez maiores diretores da história do cinema. “Doutor Jivago”, o seu longa mais popular, grandioso, com um orçamento assombroso para a época – de US$15 milhões -, um arrasa-quarteirão rodado em 8 meses na Espanha e produzido por Carlo Ponti (que queria sua esposa Sophia Loren no papel de Lara), é visualmente deslumbrante, num merecido Oscar de Melhor Fotografia para Freddie Young. São de embasbacar a força pictórica de cada quadro, os imensos planos-gerais, as tomadas panorâmicas que apresentam a vastidão inerte de uma URSS que paulatinamente consome e distancia o amor impossível entre Jivago e Lara. No mundo inteiro, as platéias lotaram os cinemas com fervor para ver um filme que, como "...E o Vento Levou", dominou os sonhos românticos de toda uma geração. Mas a crítica foi impiedosa. A sempre combativa Pauline Kael, com sua ironia peculiar, taxou-o de “frio”. Outros críticos foram mais virulentos. Pouca gente se levantou em defesa de David Lean, até então um queridinho dos críticos. O diretor ficou tão magoado e surpreso com a recepção negativa que chegou a jurar nunca mais filmar de novo. Felizmente não cumpriu a promessa.

Inesquecível atuação de JULIE CHRISTIE, Lara ficou na memória coletiva. Afinal, qual o cinéfilo que não é capaz de recordar os olhos cristalinos e azuis de Julie-Lara? Loura, lábios carnudos, pele de porcelana, rosto angelical, sem dúvida uma das mulheres mais formosas do cinema, um dos grandes tesouros que nos deixou o cine inglês.

 

(19 de fevereiro/2011)
CooJornal no 723


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
RN
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” e "SUAVE É O CORAÇÃO ENAMORADO", entre outros.
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-012.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br
www.cinzasdiamantes.blogspot.com 


  
 

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