10/06/2011
Ano 14 - Número 739

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ANTONIO  NAHUD JÚNIOR



Antonio Nahud Júnior



CREPÚSCULO DOS DEUSES: ESTRELAS NA MISÉRIA


Antonio Nahud Júnior - CooJornal


Para quem pensa que toda vida de estrela é um mar de rosas, engana-se. Existem casos comoventes e incríveis de atores e atrizes que um dia foram ricos e famosos e terminaram na sarjeta, seja por vícios, golpes de parceiros ou péssima administração de seus bens. O próprio cinema retratou algumas vezes esse final trágico. No clássico “Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard” (1950), de Billy Wilder, Norma Desmond (Gloria Swanson) é uma antiga e decadente star do cinema mudo. Em “Lágrimas Amargas/A Star” (1952), Bette Davis faz Margaret Elliot, uma atriz sem trabalho e sem dinheiro que um dia foi famosa. Viu o seu mundo desabar ao vender todas as suas coisas e ir morar em um apartamento simplório. Começa a beber. Em uma das suas bebedeiras, é presa, e volta aos jornais, desta vez com destaque negativo. Ela tem uma filha que mora com seu ex-marido, por não ter condições de criá-la. Exatamente como na vida real, onde glamour e tragédia caminham juntos. Listei alguns famosos do cinema que perderam tudo o que tinham.


VERONICA LAKE (1919-1973)

Quando morreu, em julho de 1973, ela trabalhava como criada de drive-in, local onde o telespectador senta-se dentro do seu próprio carro para assistir o filme ou namorar. No curso de sua curta e badalada carreira nos filmes da Paramount Pictures, gastou alguns milhões de dólares e passou por vários maridos gananciosos. Muito famosa no início da década de 40, formou dupla romântica célebre com Alan Ladd e era uma das mulheres mais belas de sua época, com cabelos dourados cobrindo parte do rosto imitados por garotas em todo o mundo. A comédia “Casei-me com uma Feiticeira/I Married a Witch” (1942), de René Clair, foi um dos seus maiores sucessos. Sua última aparição no cinema aconteceu em “Flesh Feast” (1970), um medonho filme de horror. Faleceu três anos depois, vítima de hepatite, aos 53 anos.


GEORGE MÉLIÈS (1861-1938)

Um dos precursores do cinema, utilizando inventivos efeitos fotográficos para criar mundos fantásticos. Produtor e diretor de várias obras-primas, entre elas a conhecida “Viagem à Lua/Le Voyage dans La Lune” (1902), terminou sobrevivendo de uma simplória banca de bombons na estação de Montparnasse, em Paris. Considerado o pai do cinema fantástico, fez mais de 500 filmes e construiu o primeiro estúdio cinematográfico da Europa. Durante uma década divertiu crianças e adultos, sendo considerado o melhor cineasta do mundo. Chaplin o chamou de "o alquimista da luz".


BUD ABBOTT (1895-1974) E LOU COSTELLO (1906-1959)

Dupla famosa da Universal, herdeiros do humor popular de “O Gordo e o Magro”, fizeram também rádio e televisão. Entre 1940 e 1956, atuaram em torno de 30 filmes. Nos anos 50, tiveram êxito com o programa de TV “The Abbott and Costello Show”. No entanto, brigaram e se meteram em um processo rumoroso. Costello morreu de ataque cardíaco, na mais completa miséria. Bud Abbott, atingido pelo imposto de renda, que exigiu pagamentos de antigas e enormes dívidas, se viu obrigado a vender sua casa e os direitos sobre os seus filmes. Pagava as contas dublando desenhos animados e morreu de câncer, pobre e esquecido.


BELLA DARVI (1928-1971)

A polaca Bella Darvi atuou em 15 filmes, destacando-se em “Tormenta sob os Mares/Hell and High Water” (1954), “O Egípcio/The Egyptian” (1954) e “Caminhos sem Volta/The Racers” (1955), mas o sotaque carregado, a falta de talento e alguns escândalos abortaram rapidamente sua carreira. Amante do produtor Darryl F. Zanuck, que a levou a Hollywood para transformá-la em estrela, bebia muito, gastava ainda mais e era viciada em bacará e roleta. Sua vida foi cheia de infortúnios: sobreviveu de um campo de concentração nazista na Segunda Guerra Mundial e dissipou tudo o que tinha nos cassinos de Mônaco. Endividada, tentou o suicídio várias vezes, até que o conseguiu em 1971, ao abrir o gás de seu apartamento. Tinha apenas 43 anos e já nada restava de sua beleza.


JULES BERRY (1883-1951)

Ator e diretor austríaco, muito famoso no teatro e cinema franceses dos anos 30 e 40, começou no cinema mudo e fez mais de 80 filmes, entre eles “O Crime de Monsieur Lange/Le Crime de Monsieur Lange” (1936), de Jean Renoir, e “Os Visitantes da Noite/Les Visiteurs Du Soir” (1942), de Marcel Carné. Viciado em cassinos e corridas de cavalo, perdeu tudo o que ganhou em anos de trabalho, morrendo vítima de um ataque cardíaco.


HEDY LAMARR (1914-2000)

Uma das primeiras estrelas a se despir diante das câmaras e considerada uma das mulheres mais bonitas de todos os tempos, também era conhecida por sua inteligência e durante muitos anos fez parte do cast all-star da Metro-Goldwyn-Mayer. Com o épico “Sansão e Dalila/Sanson and Delilah” (1949), da Paramount, teve o seu maior sucesso. De talento limitado, encerrou sua carreira em 1958, depois de atuar em mais de 30 filmes. Na maturidade, amargurada e solitária, terminou na cadeia após roubar pequenos objetos em várias lojas. Alegou cleptomania, mas realmente estava falida.


STAN LAUREL (1890-1965) E OLIVER HARDY (1892-1957)

Eles iniciaram a famosa parceria no final dos anos 20, sempre com sucesso. Depois de estrelarem 106 filmes, O Gordo e o Magro brigaram e resolveram não mais trabalhar juntos. Em meados dos anos 40 tentaram seguir em frente separadamente. Sem dinheiro, em 1951 voltaram a atuar juntos pela última vez em “A Ilha da Bagunça/Atoll K”. Oliver Hardy teve em 1956 um derrame cerebral que deixou seu corpo imobilizado e acabou morrendo em 1957. Em 1963, Stan Laurel recebeu um Oscar honorífico por sua contribuição ao cinema. Morreu de um ataque de coração em 1965. Estava pobre, enquanto seus velhos filmes continuavam a trazer fortunas a produtores e distribuidores.


RAMON NOVARRO (1899-1969)

Mexicano de nascimento, no cinema mudo sucedeu Rodolfo Valentino, brilhando em “Scaramouche” (1923) e “Ben-Hur/Ben-Hur: A Tale of Christ” (1925), entre mais de 50 outros filmes, inclusive ao lado de Greta Garbo. Um dos “latin lovers” das telas, no cinema sonoro deixou de fazer sucesso, acumulando dívidas e terminando por ser obrigado a aceitar pequenos papéis para sobreviver. Nos final dos anos 60 foi vítima de um crime sórdido envolvendo dois irmãos, garotos de programa. Depois de torturá-lo, eles asfixiaram-no e o degolaram com uma pequena faca, saqueando sua antiga casa, onde encontraram apenas 20 dólares.


HENRI GARAT (1902-1959)

Galã e cantor francês da década de 30, filmou dezenas de musicais de 1939 a 1942, dirigido por cineastas de renome como E. A. Dupont, Max Ophuls, Alexander Korda e William Dieterle. Durante muitos anos como estrela do Casino de Paris, sucedendo a Maurice Chevalier, lotou o local. Esgotado por uma existência de gastos inúteis, sem nada poupar, terminou gravemente doente e paupérrimo. Nos seus últimos anos alguns amigos fiéis o sustentaram.
 

(10 de junho/2011)
CooJornal no 739


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
RN
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” e "SUAVE É O CORAÇÃO ENAMORADO", entre outros.
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-012.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br
www.cinzasdiamantes.blogspot.com 


  
 

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