08/07/2011
Ano 14 - Número 743

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"Amigo da Cultura"

 


ARQUIVO
ANTONIO  NAHUD JÚNIOR



Antonio Nahud Júnior



 MARLENE DIETRICH, A VÊNUS LOIRA


Antonio Nahud Júnior - CooJornal


A sereia alemã MARLENE DIETRICH (1901-1992) deixou meio mundo apaixonado ao representar uma cantora de cabaré, Lola-Lola, no clássico “O Anjo Azul/ Der Blaue Angel" (1930), ensaiando assim os primeiros passos de uma celebrada carreira internacional. Oitenta e um anos passados, ela ainda simboliza o êxtase, a sexualidade bem resolvida, o mundano, o sublime e as paixões inesperadas do coração humano. Não sei que idade tinha ao vê-la pela primeira vez. Possivelmente atravessava a fase da inocência, acompanhando fitas na tevê após a meia-noite, horário dos clássicos naquele tempo. Tive a sorte de conhecê-la no thriller “Testemunha de Acusação/Witness for the Prosecution (1958), de Billy Wilder. É a sua melhor atuação, embora a beleza indomável já não tão fresca denuncie a meia-idade. Hipnotizado pelo magnetismo de aranha, de salamandra ou de qualquer outro espetacular animal cujas escamas brilhem ao sol, fixei-me nos olhos maiores do que os normais, gélidos, o sorriso astuto e as sobrancelhas arqueadas, passando a assistir aos seus filmes da fase hollywoodiana e, entre eles, os sete rodados por seu mentor e amante Josef von Sternberg. Em “O Anjo Azul”, vestida de meias de liga e chapéu, ela tornou famosa a canção “Estou Pronta para o Amor da Cabeça aos Pés”, trabalhando a seguir em mais 34 filmes, muitos deles de mestres como Ernst Lubitsch, Rouben Mamoulian, Jacques Feyder, Raoul Walsh, Billy Wilder, René Clair, Alfred Hitchcock, Fritz Lang e Orson Welles.

Ao ler duas autobiografias - que pouco revelam e muitas mentiras são contadas - e inúmeras biografias que tentam honestamente narrar sua trajetória espetacular, percebi que o enigma permaneceu intacto, pelo menos para mim. De férias em Paris, procurei o majestoso prédio em que morava, na Avenida Montaigne. Tempos depois, caiu em minhas mãos o documentário sobre ela dirigido por Maximilian Schell, seu parceiro de elenco em “Julgamento em Nuremberg/Judgement at Nuremberg” (1961), de Stanley Kramer. Na mesma ocasião, não engoli as declarações amargas de sua filha Maria, na BBC, que dava a conhecer uma MARLENE DIETRICH fria e violenta. Mergulhando na estranha experiência de beleza e glamour dilacerante, terminei por idealizá-la como paraíso e inferno, bem que se desfruta e mal que se padece, tudo o que convém à promoção do encantamento. Redes, armadilhas, truques, perfídias, sensualidade, neurônios, jogos, muito álcool e cigarros. A estrela fabricada para representar a emancipação da mulher moderna. A vênus loira que fez os homens de gato e sapato.

O começo da sua carreira foi duro até ascender ao patamar das estrelas. De início dançando em cabarés e teatros baratos, exibindo as suas belas pernas, MARLENE DIETRICH nunca teve qualquer pudor em revelar a sua bissexualidade. Era, por isso, uma mulher falada, distante dos padrões morais daqueles tempos, ainda que os espaços noturnos gays já proliferassem em abundância na capital da Alemanha. Apreciava mulheres e homens, e isso era do conhecimento público, e viria a casar-se com Rudolf Simmer, assistente de direção. Nascida em Berlim, criada numa rígida educação prussiana, estudou música, fez teatro com Max Reinhardt e o sucesso aconteceu com Sternberg, que a levou a Hollywood. A Paramount imediatamente resolveu transformá-la na mulher mais bela do mundo para fazer frente à M-G-M e à sua estrela maior, Greta Garbo, também importada da Europa. Logo arrepiaria platéias com frases dúbias do tipo “Foi preciso mais de um homem para trocar o meu nome por Lily Shangai” (“O Expresso de Shangai/Shanghai Express”, 1932). No entanto, MARLENE DIETRICH não era a mais bela do cinema de seu tempo. Gene Tierney, Ava Gardner ou Hedy Lamarr eram mais graciosas, mas a diva foi mais longe: num show misterioso de luz e sombra, de androgenia e plenitude intelectual, de felinas emoções. Fumava com extraordinária sagacidade. Nem Bette Davis lhe passava a perna nas nuvens de fumaça. Ela pode ser interpretada como um produto deslumbrante da imaginação coletiva ou um vislumbre paranormal.

Quando entrou nos 50 anos e as ofertas cinematográficas rarearam, usou a voz grave e sensual para cantar em palcos sofisticados de todo o mundo, iniciando uma série de espetáculos por Las Vegas, no Sahara Hotel. No Rio de Janeiro, no Copacabana Palace, com casa lotada e sensacional cobertura da mídia, apareceu com vestido colante, casaco de plumas de cisne e jóias, conquistando a todos com charme e senso de humor. Cantou em inglês, francês e alemão. Na segunda parte ela aparecia com um traje masculino e uma bengala. Sua figura elegante, o porte aristocrático, o viço e as magníficas pernas colocadas no seguro por um milhão de dólares fizeram dela o protótipo da sedutora indomável, que tudo pode. Indicada ao Oscar por “Marrocos/Morocco” (1930), MARLENE DIETRICH foi mais que uma atriz, talvez uma espécie de símbolo erótico inalcançável ou o próprio pecado ornamentado. É difícil não se deixar encantar por seu rosto cheio de pontos de luz, o olhar duro repleto de promessas, o impassível sarcasmo, a voz rouca pronunciando frases ambíguas. Inventou-se como um réptil único, de reações magnéticas e sensibilidade cintilante. Ao chegar a Hollywood em 1930, morena e um pouco gorda, o pigmalião Sternberg pintou os seus cabelos de um quase dourado, afinou-lhe o rosto arrancando os dentes traseiros, esculpiu o seu corpo pelas mãos de uma massagista, arqueou suas sobrancelhas além do normal, alongou e escureceu as pestanas superiores e deu aos olhos da germânica a ilusão de serem enormes pelos artifícios da maquilagem, através de uma linha branca desenhada no interior das pálpebras e que ela estoicamente suportava sem lacrimejar. Nascia assim a estrela andrógina, a vamp que escandalizaria a opinião pública ao aparecer vestida de smoking na estréia de “O Sinal da Cruz/The Sign of the Cross”, em 1932, protagonizado por sua então amante Claudette Colbert (Marlene também teria romances com Greta Garbo, Edith Piaff e a roteirista Mercedes de Acosta).

MARLENE DIETRICH podia derreter um homem com um levantar de sobrancelhas e destruir uma rival com o olhar. Enigmática, a atriz sempre zelou por sua privacidade, vivia contando mentiras e inventando histórias sobre si mesma. Sternberg e ela uniram-se como um visionário e a invenção bendita, o criador e a criatura. “Marlene sou eu”, disse o cineasta numa entrevista. A star terminou por devorar o mentor, que nunca mais foi o mesmo depois dela, e destacou-se provocando reações confusas no público ao beijar a boca de uma mulher numa cena de “Marrocos”, ao namorar escritores como Ernest Hemingway e Erich Maria Remarque ou ao recusar o convite de Hitler e Goebbels para ser a principal estrela nazista, cantando “Lili Marlene” para as tropas norte-americanas. Sua deserção constituiu uma importante conquista aliada na intensa guerra de propaganda entre o partido nazista e Hollywoood. Quando retornou a Berlim, em 1960, foi vaiada, recebida com faixas tipo “Marlene, go home” e acusada de ter traído sua pátria. Nunca mais retornou ao seu país natal.

Gafanhoto magnífico, MARLENE DIETRICH nunca considerou casamento coisa séria. Mulher fatal por definição, esta que nos dá um sentido e um destino à vida mesmo convertendo-nos em objetos usados e jogados fora, não é à toa que seu verdadeiro nome é Maria Madalena. Ao vê-la em “Mulher Satânica/The Devil is a Woman (1935), soube que amava a si mesma e que não se podia permitir qualquer rival neste amor. Idosa, exigiu ser esculpida por cirurgiões plásticos, a silhueta mantida por fortes corpetes, os bicos dos seios eroticamente recriados por duas pérolas que ela colocava debaixo do soutien. Em 1978, protagonizou o seu último filme, "Apenas um Gigolô/Schoner Gigolo, Armer Gigolo”, onde faz a Baronesa von Semering e contracena com David Bowie. Com o esbelto corpo em ruínas, em cadeira de rodas, refugiou-se até a morte em seu apartamento parisiense, evitando entrevistas e não permitindo que a vissem em semelhante estado. Essa imagem impotente, para uma das mulheres mais belas de sempre, era algo que a revoltava. Por isso, apenas a filha, netos, e o médico tinham permissão para a ver. Na realidade, tornara-se, nos últimos anos de vida, numa alcoólatra dependente de calmantes. A sua morte gerou muitos comentários, sobre se teria sido fruto de suicídio, resultante de um padecimento eventual de Alzheimer, ou ingestão excessiva de tranquilizantes. Mas estes comentários nunca foram confirmados.

Embora o seu canto provocasse estremecimento com músicas quase faladas, MARLENE DIETRICH não era cantora, talvez nem mesmo atriz, estava além de tais rótulos. Certa vez, em Londres, vendo uma exposição do figurino de “Kismet/Idem” (1944), compreendi que os belos vestidos não tinham vida, pois faltava o recheio da diaba. A diaba dissimulada na fumaça, o ar afetado, o olhar lascivo, um sugestivo sorriso, que ainda hoje continuam sendo um convite aos sonhos mais quentes. A diaba idolatrada por milhões que morreu solitária nos braços de sua empregada doméstica. Passados todos esses anos desde o seu auge, pergunto-me por que não mais existem belezas assim, belezas que magistralmente nos iludia. Segundo a Norma Desmond (Gloria Swanson) de “O Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard (1950), quando sob a luz fraca do projetor se revê numa película muda do seu apogeu de estrela: “Continua a ser maravilhoso, não continua? E sem diálogos. Não precisávamos de diálogos. Tínhamos rostos. Já não há rostos como aquele”.


(Fontes: “A Beleza – Der Blaue Engel”, de Manuel Dias Coelho; “A Bela e a Fera”, de Fabio Cypriano; “Desejo-lhe Amor – Conversas com Marlene Dietrich”, de Erik Hanut, e “Marlene de A a Z”) 
 

(08 de julho/2011)
CooJornal no 743


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
RN
Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” e "SUAVE É O CORAÇÃO ENAMORADO", entre outros.
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-012.htm
www.elgitano.blig.ig.com.br
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