20/07/2012
Ano 16 - Número 796

 

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ANTONIO NAHUD JR.



 

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Antonio Nahud Júnior


A ENIGMÁTICA CHARLOTTE RAMPLING
 

Antonio Nahud Junior, colunista - CooJornal


Charlotte Rampling em "Sob a Areia"

Atriz britânica inclassificável, surgida no Free-Cinema, aos 54 anos revela, sem inibições, sua beleza madura desnuda como Marie, uma mulher que se encontra sozinha ante o enigma do desaparecimento súbito do homem de sua vida, em férias de verão. “Sob a Areia”, do jovem francês François Ozon, têm recebido críticas entusiasmadas principalmente pela atuação de CHARLOTTE RAMPLING. Este ano, ela abriu o Festival de Cannes e recebeu o César especial por sua longa e versátil carreira. Um ano fértil, onde atuou em quatro filmes, alimentando uma filmografia irresistível. Adotada pelo cinema francês, debutou em “A Bossa da Conquista / The Knack and How to Get It” (1965), de Richard Lester, uma comédia que capta o clima moderninho do Swinging London. Lançada como símbolo de mulher liberada, inquieta e ambígua, o reconhecimento internacional veio com “Os Deuses Malditos”, do mestre Luchino Visconti, reafirmado com o escândalo provocado por “O Porteiro da Noite”, onde fez uma judia sobrevivente do nazismo amante do seu torturador.

A bela e talentosa CHARLOTTE RAMPLING filmou com John Boorman, Patrice Chéreau, Arturo Ripstein, Woody Allen, Sidney Lumet, Michael Cacoyannis e Nagisa Oshima, associando seu nome à personagens misteriosos e ardentes. Casada durante 20 anos com o músico Jean-Michel Jarre, ainda hoje seduz com seus olhos transparentes e elegante fragilidade. Não é à toa que foi considerada pela revista “Empire” como uma das 100 estrelas mais sensuais da história do cinema.

(Entrevista por Antonio Nahud Júnior. Barcelona, 2001. Publicada no jornal “A Tarde” e no livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”)

OZON FICOU SATISFEITO EM TÊ-LA COMO PROTAGONISTA E A CRÍTICA AFIRMA QUE SUA ATUAÇÃO É MAGNÍFICA. FOI DIFÍCIL ENCONTRAR O PONTO CERTO PARA A SOFRIDA MARIE?

Não usei nenhum método diferenciado de interpretação, nenhuma técnica especial. Simplesmente utilizei a memória, porque já havia passado por algo parecido. Eu tive uma grave depressão e um sentimento de perda com a morte precoce de minha filha Sara. Com a Marie de “Sob a Areia” repeti na ficção a dor e a incredulidade sentidas com o desaparecimento repentino de um ser amado. Ela é um personagem complexo. Acho formidável quando no meio do seu desespero se dá conta, depois de  tantos anos, que não conhece realmente o marido, não sabe como ele é de verdade.


PREFERE PERSONAGENS DENSOS E ESTRANHOS?

Gosto da força dramática dos personagens densos. Necessito de papeis que me alimentem emocionalmente. Não me atraem personagens superficiais, caricatos. Sei que isso limita minha carreira, mas não estou no cinema para acumular todo tipo de filmes ou ganhar rios de dinheiro, prefiro fazer o que me dá prazer. Evito fitas simplórias, descartáveis, mesmo que o público se incomode com as minhas escolhas.


COMO FOI TRABALHAR COM FRANÇOIS OZON?

François tem um bom caráter e se envolve com sua equipe, permitindo um resultado empolgante. A filmagem foi muito agradável. Ele é um tipo comum, sem esquisitices. O cinema de autor de antes era muito mais complicado.


TEM BOAS RECORDAÇÕES DE VISCONTI?

Sim. Eu era muito jovem, desconhecia o mundo em que Visconti vivia e fiquei bastante
impressionada. Ele marcou a minha carreira e me ensinou a apreciar filmes profundos e extravagantes. Nunca mais pude rodar filmes convencionais depois de ter trabalhado com ele. Uma pena que não deu certo a nossa segunda colaboração. Ele havia me convidado para fazer um dos papeis centrais de “Em Busca do Tempo Perdido”, mas infelizmente o filme não se concretizou.


TALVEZ TENHA SIDO O CINEASTA MAIS FUNDAMENTAL DE SUA TRAJETÓRIA. AFINAL, ELE FOI O RESPONSÁVEL POR SEU LANÇAMENTO MUNDIAL E “OS DEUSES MALDITOS” É UM CLÁSSICO.

Engraçado, muita gente pensa isso. Visconti foi importante para a minha carreira, jamais negaria, porém a influência de Woody Allen foi bem maior. Quando fiz “Memórias”, em 1980, Allen foi vital na minha vida pessoal e profissional. Eu estava perdida, fragilizada, sem saber como agir e ele me ensinou que a vida poderia ser divertida.


PASSADOS QUASE TRINTA ANOS, AINDA É LEMBRADA PELA LÚCIA DE “O PORTEIRO DA NOITE”. SE INCOMODA COM ISSO?

Com ela encontrei a minha linha de interpretação, o meu estilo. Ela me revelou o que eu queria fazer. Sei que muita gente se chocou com o filme e eu poderia ter direcionada minha carreira para outros papeis após o escândalo mundial, mas preferi seguir a minha intuição, investindo na repetição da luminosidade enigmática do personagem. Acho que foi uma decisão acertada.


POR QUE DIRECIONOU SUA CARREIRA PARA O CINEMA FRANCÊS?

Filmei em diversos países... Grécia, Suécia, Estados Unidos, Inglaterra, Itália... Com o cinema francês tenho um relacionamento amoroso porque ele é generoso com atrizes de qualquer idade. A maturidade não é um problema nesse cinema, como acontece habitualmente em outras cinematografias.


A IMPRENSA TEM ALARDEADO QUE VOCÊ ESTÁ DE VOLTA, MAS NA VERDADE NUNCA DEIXOU DE FILMAR.


Exatamente. Eu nunca abandonei o cinema. Tenho uma visão poética de minha carreira, preferindo atuar em filmes significativos, e muitos deles são de baixo orçamento ou de distribuição deficiente, passando despercebidos em inúmeros países. Entusiasma-me correr riscos, optando por produções irreverentes. Nos últimos meses, fui dirigida pelo grego Cacoyannis, por Tony Scott e John Irvin. No momento, preparo-me para rodar a comédia “Beije Quem Você Quiser / Embrassez qui Vous Voudrez”, de Michel Blanc, com Jacques Dutronc e Carole Bouquet. Portanto, jamais deixei de filmar e pretendo continuar nas telas por muitos anos.


10 FILMES DE CHARLOTTE

(01)
OS DEUSES MALDITOS
(La Caduta degli Dei, 1969) de Luchino Visconti
Com Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Berger e Florinda Bolkan

(02)
GIORDANO BRUNO
(Idem, 1973) de Giuliano Montaldo
Com Gian-Maria Volonté e Mathieu Carrière

(03)
O PORTEIRO DA NOITE
(Il Portiere di Notte, 1974) de Liliana Cavani
Com Dirk Bogarde, Gabrielle Ferzetti e Isa Miranda

(04)
A MARCA DA ORQUÍDEA
(La Chair de l’Orchidée, 1975) de Patrice Chéreau
Com Bruno Cremer, Edwige Feuillère, Simone Signoret e Alida Valli

(05)
MEMÓRIAS
(Stardust Memories, 1980) de Woody Allen
Com Woody Allen e Marie-Christine Barrault

(06)
O VEREDITO
(The Verdict, 1982) de Sidney Lumet
Com Paul Newman e James Mason

(07)
VIVA LA VIE!
(Idem, 1984) de Claude Lelouch
Com Michel Piccoli, Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée

(08)
MAX, MON AMOUR
(1986) de Nagisa Oshima
Com Anthony Higgins e Victoria Abril

(09)
CORAÇÃO SATÂNICO
(Angel Heart, 1987) de Alan Parker
Com Mickey Rourke e Robert De Niro

(10)
SOB A AREIA
(Sous le Sable, 2000) de François Ozon
Com Bruno Cremer


(20 de julho/2012)
CooJornal nº 796



Antonio Nahud Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
RN
http://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br/



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