15/06/2015
Ano 19 - Número 940

Antonio Nahud
 


A ALQUIMIA FOTOGRÁFICA DE MORVAN FRANÇA

 

Antonio Nahud - CooJornal

 

 “A carícia do olho sobre a pele é de uma doçura extrema”
(Georges Bataille)

 

A fotografia enlaça olhares. O mineiro MORVAN FRANÇA, radicado em Natal (RN), está enlaçado ao olhar fotográfico bem treinado e estimulante. Suas imagens beiram a poesia, dando mais importância à perspectiva e ao jogo de luz e sombra do que ao objeto fotografado. Radiografam o mais íntimo da paisagem tropical, valendo-se do estancamento da beleza, daquilo que passa por todos nós, todos os dias, mas vemos sem enxergar. Num aproximado estranhamento, criam uma atmosfera de realismo fantástico - talvez alquímico em seu mosaico de intenções -, perseguindo uma finalidade estética única e profunda. O objetivo aparente é documentar a relação do fotógrafo com a natureza, capturando inclusive seus sentimentos. Isso é muito difícil, mas essa parece ser a meta, tentando tornar visível a invisível passagem do tempo. Afinal, lembrando o poeta gaúcho Mario Quintana, “Se as coisas são inatingíveis ora, / Não é motivo para não quere-las / Que tristes os caminhos se não fora / A mágica presença das estrelas!”. O resultado dessa persistência é notável, mostrando a conexão homem-paisagem, suas vivências e ações, repulsa e colaboração. Ele deixa isso transparecer nas fotografias. Com tato. E essa relação reservada e comovente que estabelece com seus sujeitos fotográficos é a força da sua bonita fabulação pictórica.

São imagens emblemáticas. Mesmo estando, em sua maioria, solitárias e deixadas ora com foco em algo distante, ora encarando com fúria quem as olha, as emoções mais secretas estão vivas. O ‘eu’ do artista é puxado através do assunto clicado. Para captar seus temas, que se repetem à exaustão em imagens, ora extremamente elaboradas, ora apenas cotidianas, mas não menos levadas a sério, ele intervém com miragens alquímicas, pinceladas meigas que conversam com o que foi retratado, mostrando, evidentemente, a que veio o fotógrafo em sua arte. Tudo registrado em detalhes tão íntimos, tão aproximados, que o fluxo existencial se ilumina. Uma coleção de imagens poderosas, ternas, às vezes secas, melancólicas, inertes, perdidas, mas sempre formosas. Paisagens, folhagens, dunas, areia, vento, águas, luas doidas. Fotografias libertárias, de prazer, dor, vida, morte, talvez revolta.

O filósofo francês Gilles Deleuze disse que “A arte é a linguagem das sensações, que faz entrar nas palavras, nas cores, nos sons ou nas pedras”. Essa reflexão vibra na linguagem fotográfica despida e polêmica de MORVAN FRANÇA. Torna-se impossível não ver sensibilidade, afeto, tristeza, solidão e vazio nas suas narrativas visuais de estradas, mares, rios, lagoas, palmeiras, montanhas, matas, espaços. Inclusive em retratos inusitados, por vezes sádicos, como a série “A Face Oculta”, homenageando o pintor irlandês Francis Bacon. Suas fotos de pessoas sugerem inquietude; suas fotos de paisagens sugerem inquietude; suas fotos de árvores, rochas, praias, animais, tudo sugere inquietude. A leitura do olhar fotográfico não é isolada. Ao olhar suas imagens é provável ver muitas facetas e não apenas um retrato. As fotografias de pessoas lembram coisas, as coisas remetem ao delírio, o delírio aos sonhos e distanciamento. Há uma dor singular em cada uma de suas fotos, mas não é uma dor individual, e sim partilhada com o fotógrafo que retratou o que nossos olhos observam. Imagens que podem e devem ser lidas e traduzidas livremente pela sua composição, multilinguística, luz, papel, cor, adereços, memórias e olhares do autor, memórias e olhares do espectador.

Em alguns casos, os artistas revelam-se em suas fotografias, sem limites, num ato confessional. Por outro lado, há aqueles que se debruçam sobre a intimidade do outro, utilizando estratégias esquivas para capturarem imagens que por alguma razão subjetiva os interessa. Nesse sentido, tomam pra si o papel do voyeur, buscando na relação entre olho e câmera, uma maneira de invadir a privacidade anônima. A linguagem fotográfica carrega de alguma forma a essência do voyeurismo. O ato de fotografar permite uma ativação do olhar, que passa a observar o mundo por uma pequena fresta, em que o “objeto” observado por mais próximo que esteja diante de nós, permanece ainda distante, mediado por um aparelho técnico. A câmera reconfigura a maneira de vermos o mundo. Segundo Susan Sontag “ter uma câmera transformou uma pessoa em algo ativo, um voyeur (…) tirar fotos estabeleceu uma relação voyeurística crônica com o mundo, que nivela o significado de todos os acontecimentos.”. A crítica de arte atribui ainda a ação cometida pelo voyeur ao olhar do fotógrafo, pois através da câmera o olhar se desloca de uma condição contemplativa e passiva de percepção para uma forma ativa e investigativa de ver o mundo.

Na arte contemporânea, sobretudo na produção fotográfica, observa-se um crescente interesse pelo experimentalismo. Tal manifestação está evidente nas nove fotografias da obra “Orbitorium”, de MORVAN FRANÇA, de viés contemplativo, onde o autor faz lúdica investida em conchas, raízes, folhas secas, areia. Forma um mosaico de fabulário particular, capturando imagens com a astúcia e técnica de um detetive ou mesmo de um paparazzi, atividades onde a fotografia é utilizada de forma esquiva, mas ao mesmo tempo invasiva. Oferece uma visão panorâmica do fotógrafo, revelando um caráter de subversão, baseado na tentativa de deslocamento do impessoal para um domínio privado e afetivo. Despojado de formalismos, o artista vive a obsessão dos tempos modernos de produzir e consumir imagens. Na sua arte, a fotografia majestosa nasce como tem vontade: na granulação, luz baixa, flash estourado em primeiro plano, interferências na foto, banalismo, documental, alta definição, conceitual, bucólica, histórias pessoais.

A maior parte dos registros fotográficos de vida selvagem reforça a percepção nostálgica de uma natureza exótica, estimulando uma visão ingênua e edulcorada. Tais fotografias alimentam uma cultura visual que desenha a relação romântica que mantemos com esse mundo distante. A bela cena aguça o interesse pela natureza pitoresca, sendo explorada à exaustão e com competência técnica. Essa imagística agrada muitos leitores que apreciam o exótico estampado em folhas de papel, satisfazendo o prazer de reconhecer o “selvagem” em poses previsíveis que reavivam o desejo por aventuras. Contudo, encontra-se em alguns fotógrafos a preocupação de desestabilizar a imagem estereotipada do selvagem e suscitar um pensamento sobre a relação entre os seres humanos e as outras formas de vida. A fotografia de MORVAN FRANÇA não faz parte dessas convenções habituais, propondo outras formas de ver a questão das espécies ameaçadas de extinção e da ação devastadora do homem sobre os lugares que elas habitam. Ele busca invenções, por meio das quais pretende se diferenciar. Chamando a atenção para espaços e situações que a maioria das pessoas não vê, fotografa como quem atira dardos, alheio aos pactos recorrentes e mergulhando num mundo próprio, que desconcerta o espectador.

Explorando aproximações entre elementos díspares, sugere conexões com o jogo de luz e sombra, volume e superfície, repetição da mesma figura em diferentes composições. Esses procedimentos suscitam analogias e tornam sua fotografia virtuosa. Talentoso, crítico e polêmico, o fotógrafo MORVAN FRANÇA ironiza a sociedade em seu experimentalismo, realizando uma arte significante, de referência, que merece um longo percurso. Finalizo lembrando outra vez Gilles Deleuze: “Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga”. Assim parece compreender o autor de “A Face Oculta” em sua arte.



(15 de junho/2015)
CooJornal nº 940



Antonio Naud Jr é escritor, assessor literário e editor do site O Falcão Maltês.
http://www.cinzasdiamantes.blogspot.com.br/
RN


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