15/07/2015
Ano 19 - Número 944

Antonio Nahud
 


ILÍADA OU ODISSEIA?

 

Antonio Nahud - CooJornal


Um verso basta para encontrar-me e será este verso minha remissão. Fico aqui detonando vigílias, mamando no cálice de vinho a loucura santa dos inadequados. Como um esperto Sariguê, eu cheiro os humores da casa atento a qualquer sinal que me espante. Interessa-me o silêncio de tudo, a organização dos livros, a vida em trilhas reconhecíveis que me levem aos tesouros domésticos, aos seus armários cheios de gulosas emoções escritas. Em transe, escrevo para invadir frágeis certezas. Mas que mais tenho a dizer? Que tenha paciência e persevere a simplicidade das palavras, que chore e cante os seus anseios, por mais baratos que sejam, com o vigor de quem descobre um atalho de existência notável.

A vida literária é uma peleja. Veríssimo de Melo ensina que “vaca não bebe leite”. Inclino-me a afirmar, quase como regra, que escritor não valoriza escritor. Simpatiza com os falecidos, os que fazem parte de sua oportuna panelinha (o amigo e talentoso escritor de hoje poderá ser o escroto e charlatão de amanhã) ou com aqueles que conquistaram a “glória” literária e permitem adequada aproximação. Conheci dezenas de escritores ao longo da vida. Quase sempre a mesma inclemência, injustiça, picuinha. A poeta Hilda Hilst, com quem convivi intimamente, desconsiderava os escritores brasileiros da época (os anos 1990). Caio Fernando Abreu, outro amigo meu, somente admirava Hilda. Hélio Pólvora respeitava dois ou três escritores vivos, dando uma risadinha de canto de boca quando outros eram citados. Apenas vislumbrei dois escritores generosos: Diogenes da Cunha Lima e Jorge Amado (que me disse certa vez, “cada um tem seu próprio caminho, portanto todo escritor merece consideração”).

Para quem está iniciando a carreira literária, aconselho não levar a sério o descaso dos confrades. Como “donos da verdade”, criticarão discretamente sua escrita entre eles e vetarão sua participação em encontros literários e publicações culturais. Não dê cabimento, nada de sofrimento ou desistência. Tudo na vida finda, inclusive os escritores intocáveis, secretários de cultura, editores de jornais. Sei também que nenhum espaço - virtual ou editorial - é capaz de conter TODOS os textos propostos para publicação, há sempre uma escolha pessoal, íntima subjetiva e arbitrária que se impõe no simples ato de escolher que tal ou tal texto vai ou não ser mostrado ao público. O principal, a meu ver, para quem não se considera “dono da verdade”, é não boicotar ninguém. Há uma nítida diferença entre divulgar, não divulgar e falar mal de um texto. Quanto a falar mal de um escritor, é pura pretensão de alguns, ignorância de outros e muito ciúme da maioria. Mas isso é opinião de um simples escritor nordestino.

Em Natal aprendi que Câmara Cascudo excedia na valorização dos escritores. Adotei a capital potiguar como minha cidade eleita para viver. Nela, no aspecto de competição literária, não encontrei diferença de Barcelona, Londres, Paris e Lisboa, cidades em que vivi. Mas continuo escrevendo e publicando, sem preocupação com a crítica alheia. Faço o melhor que posso. Fecham-se portas, abro outras, muitas vezes mais prazerosas. E recuso-me a boicotar quem quer que seja. Como leitor, tenho preferências. Como escritor, todos têm minha estima. O importante é ser persistente. Se escrever é o que realmente desejamos. No caminho literário, pode ter certeza, encontraremos a empolgação imbatível de guerreiros da “Ilíada” e o eterno retorno farto de obstáculos da “Odisseia”.



(15 de julho/2015)
CooJornal nº 944



Antonio Naud Jr é escritor, assessor literário e editor do site O Falcão Maltês.
http://www.cinzasdiamantes.blogspot.com.br/
RN


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