01/09/2015
Ano 19 - Número 950

Antonio Nahud
 


A HISTÓRIA DO PÊNIS

 

Antonio Nahud - CooJornal

“Conquanto Príapo de madeira eu seja,
madeira a foice, como vês, o pênis,
vou te agarrar e segurar bem firme
e todo em ti, por longo que ele seja,
mais tenso do que a corda de uma cítara,
até suas costelas vou cravá-lo.”

DA PRIAPÉIA

(Priapéia é o nome dado ao conjunto de poemas sobre Príapo,
deus grego da fertilidade, filho de Dionísio e Afrodite.
Era sempre representado com o falo ereto.)





para o escritor Angelus Magno


O erotismo está presente na literatura desde sempre. Mesmo nos períodos de forte repressão, como na sombria Idade Média europeia, houve significativa manifestação do erotismo. No entanto, muitos dos autores malditos que se aventuraram a tratar de sexo, entre sonetos luxuriosos e novelas libidinosas, quase sempre o fizeram às escondidas, apelando para pseudônimos. Neste perseguido gênero literário, raros testemunhos de transgressão do moralismo celebraram o órgão sexual masculino: monsieur pênis (tributo à “As Onze Mil Varas / Les Onze Mille Verges”, 1906, do emblemático Guillaume Apollinaire). Do latim penis (pincel), popularizado em papiros egípcios, estátuas gregas e em pichações de modernos banheiros públicos, talvez seja o mais famoso órgão do corpo humano. Se não for, certamente provoca curiosidade e polêmica. Apesar do seu enorme papel no imaginário popular, o pau está associado à expressão “Discutir o Sexo dos Anjos”, ou seja, melhor não perder tempo com um assunto absolutamente inútil e impossível de ser determinado. Reconhecer sua dignidade é redirecionar e reavaliar hábitos e costumes.

O fato é que escrever sobre sexo exige audácia. O tema continua tabu. Moralismo oculto, careta. Marta Suplicy, então sexóloga, no programa “TV Mulher”, acendia involuntários constrangimentos, assim como a desbocada Fernanda Young no “Saia Justa”, canal GNT. Falar sobre sexualidade masculina talvez seja mais arrochado. Entre amigos, os machos se vangloriam de aventuras sexuais, mas muito do que contam é balela, raramente revelam desenganos ou performances pífias. Acreditam que falar de sexo é motivo para risos, reflexo da repressão. Ainda assim, por baixo do pano, muita coisa libertária corre solta. Senhor do seu corpo, o homem esmera-se em realizar uma imagem “para inglês ver” e outra para satisfazer-se. Homem é bicho malandro, taras escondidas no lobo do lobo do homem. Alguns transam com a namorada, deixam a crédula em casa e logo a seguir se deixam penetrar por um homossexual. Muitos casados lotam saunas (em Natal, na única vez em que fui, encontrei um juiz, autoridades, gente fina se esbaldando com boys suburbanos) ou arrebatam travestis de rodovias, sendo comidos. A via erótica explicitada atua no sentido da ruptura com formas de repressão social. Na volúpia mais secreta revela o seu poder.

Com a hipocrisia fundamentada, a pulsação erótica masculina trabalha no sentido de elaborar sua vivencia desajustada. No meu pequeno mundo, aprendi com um número expressivo de companheiros. Alguns insaciáveis, outros comedidos. Tipo másculos-passivos. Um deles, faz pouco, no Rio Grande do Norte, inicialmente não sabia muito bem como saciar seu desejo. Fruto de uma sexualidade reprimida e por isso problemática, tem dificuldades eróticas e sofre de anomalia peniana. O caralho torto, sem harmonia, e isso o traumatizou. Na única tentativa sexual com uma garota, afoita, que forçou a barra, não rolou ereção. Por fim, terminou por descobrir que se realiza com criaturas do mesmo sexo. No nosso convívio, descontraiu-se, inventando fantasias sexuais. A sua boca em molhado círculo envolvendo a minha pica ou beijando com suavidade imensa a suada pele. A minha língua tesa enfiada no seu rabo, buscando em dança perfeita o prazer. Num estopim, o desejo inundava os nossos corpos em marés de amor.

Sua bunda que mexia remexia e me levava num belo carretel de apelo e chamego, num dengo gostoso que ninava e acariciava. Um rabo em fogo, a todo vapor. Deixava se penetrar a galope, de quatro como um cavalo puro-sangue, enquanto eu segurava com energia seus longos cabelos, corrompido a sussurrar “tá gostando do pauzão, sua putinha?”, “sua arrombada?”, numa repetição mecânica e saborosa quase cômica. Complicado pra mim, escritor pudico, não falo palavrão. Mas admito que aprecio sexo selvagem, energético, daqueles que nos lavam de suor e sensações lascivas. Em êxtase, fazíamos sexo em rios, praias, matas, reservas, montanhas, pousadas. A minha manjuba tem um bom tamanho, e o jovem parceiro o enfiava na boca até a garganta, sem respirar o que parecia um bom tempo. Via a hora de asfixiá-lo. Após ser penetrado rigorosamente, limpava os resquícios do seu ânus na minha rola com a língua. Ao ler Sade, empolgou-se, pedindo-me que urinasse no seu formoso estomago, enquanto ele se masturbava. Eu o fiz, mas sem resquícios de prazer. São coisas da vida privada masculina, como tantas outras. Pouco comentadas, mas tão corriqueiras como fazer a barba.

O pênis é bicho complexo. Possivelmente uma ferramenta minúscula leve à frustração. Como uma censura, uma falha dos deuses, uma obra de arte inacabada. Quando os paparazzis flagraram Brad Pitt pelado, num iate, revelando mundialmente o cacete pequenino, milhares de machos respiraram aliviados, o big símbolo sexual é imperfeito, santo de pés de barro. No hilário e informativo “The Penis Book”, de Joseph Cohen, o autor ensina, entre outras coisas, que o tamanho do pau depende em grande parte da genética, não do tamanho dos pés, mãos ou nariz como muita gente segue a risca. No livro, ele diz também que entre os quinze e sessenta anos, um homem ejacula de 34 a 56 litros de sêmen, contendo de 350 a 500 mil milhões de células de esperma.


 

De acordo com um estudo de 2013, detalhado na revista especializada “Journal of Sexual Medicine”, que contou com a participação de 1.661 homens, o pau ereto médio possui cerca de 10 centímetros de comprimento. No entanto, a diversidade é o tempero da vida: os pesquisados contavam com membros que variaram de 4 centímetros até 26 centímetros de comprimento. Os países costumeiramente no topo da lista dos maiores pênis são os africanos. O Congo (média de 18 cm) levou o título na pesquisa confiável da Universidade de Ulster, no Reino Unido. No outro lado da lista, encontram-se os asiáticos: as Coreias dividem a lanterna, empatadas com 9,6 cm, segundo a universidade britânica. O maior caralho do mundo é de um cubano, garante o “Guinness Book”, o livro dos recordes. A ferramenta de Yosbany Montalván Santa Cruz mede nada menos que 34 centímetros, quando está “inativo” e 45,5 cm ereto.

A rola foi muito mais assustadora no passado evolutivo dos seres humanos. Em um ponto no tempo, possuía espinhos, mas nossos ancestrais perderam as estruturas espinhosas antes que os neandertais e os humanos modernos se divergissem, cerca de 700 mil anos atrás, de acordo com um estudo de 2010 publicado na revista “Nature”. Os cientistas não têm muita certeza quanto à função desses espinhos, mas alguns acreditam que isso permitia que os humanos da época “dessem uma rapidinha”, já que os espinhos poderiam criar uma ereção rapidamente. Já os eunucos da corte imperial chinesa levavam seus testículos em frascos exibidos em volta do pescoço. Testículos são “bolas de fogo”. São os cojones, pelotas e huevos dos espanhóis. O nosso saco. Difícil acreditar que o pau, pouco celebrado publicamente, possa ser a causa de emoções fortes, aventuras, negócios, pornografia, terapia, bebês, noites de insônia, mentiras, crimes, grandes momentos.

O cinema explora o corpo feminino de todas as formas, mas pouco revela da carcaça do homem. No filme “Intimidade / Intimacy” (2001), de Patrice Chéreau, o fellatio do casal protagonista gerou escândalo. A felação, do latino fellare, mamar, está sempre na moda porque é um ato simples e satisfatório: necessita-se de uma boca e um peru. Pratica-se num carro estacionado – em movimento é arriscado, assim morreu, engasgado, após um acidente, o cineasta alemão F. W. Murnau, do clássico expressionista “Nosferatu / Nosferatu, eine Symphonie des Grauens” (1922) -, na cama ou em qualquer lugar discreto com a dupla podendo se dar ao prazer de utilizar o sugestivo 69. Muitos homens, inclusive, gostam que, enquanto rola a sacanagem oral, que aperte o seu saco ou um dedo teso explore o seu cu. Conhecida como chupada, talvez seja um termo forte, quase baixaria verbal. Seria uma palavra-pornô? Um insulto? Resulta mais poético o “tocar a flauta”, dos antigos gregos, ou o ambarchusi (lamber a manga), dos escribas do “Kama Sutra”.

Há quem veja a pica com preconceitos, mesmo sendo um dos mais fundamentais órgãos do corpo humano. Ela é motivo de chacotas e poucos são capazes de refletir sobre sua estética original. Criticada, olvidada, desprezada até. Causa vergonha, preconceito, cisma, ironia grosseira. Mesmo com o avanço da civilização, falar da marreta comum a todos os homens é como comentar sobre corcundas, anões, virgens, câncer, dívidas pessoais. Sempre constrange. O curioso, engraçado e contraditório é que sexo parece ser a coisa mais importante do mundo para nós, brasileiros. A bunda, unanimidade erótica nacional. Diversos sonham com um traseiro, um rabo, uma padaria, uma poupança, um idi (como conhecido no candomblé). Com o pênis não acontece esse júbilo patente. Não há um culto erótico, sem falso moralismo, tampouco louvor e gratidão para esse profissional arretado, nosso irmão. Uma situação intricada. Se o pau tivesse juízo protestaria, faria greve, pondo em colapso o nosso ardor. É humilhante ser condenado à indiferença.

Assanhadinho, o homem, em surdina, pratica baratos sexuais que Deus duvida. Com atitudes derivadas da “moral e bons costumes”, estilo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. No final dos anos 1980, o belo ator Mário Gomes, em ascensão, foi acusado pelo jornalista Carlos Imperial de ter dado entrada numa clínica carioca com uma grossa cenoura enfiada no rabo, passando a ser apelidado de “Mário Cenourinha”, e não destruindo sua carreira por muito pouco. Dez anos depois, tabloides sensacionalistas norte-americanos anunciaram que Richard Gere metera no seu orifício uma pequena bolsa sintética com um hamster vivo. O objetivo seria o prazer do movimento do ratinho apertado, em pânico, mas o animal acabou por romper a jaula, levando o galã a ser hospitalizado. Em Lisboa, conversando com uma enfermeira, soube que o hospital onde ela trabalha trata - em média quatro a cinco casos semanalmente - senhores casados, respeitáveis, com desodorantes e outros objetos enfiados no roscofe. Uma situação constrangedora. “Para retirar o artefato, o ânus é rasgado e depois costurado. Terrível. Os pacientes sempre alegam um acidente, uma queda”, contou-me a moça. Freud dizia que a descoberta do cu para uma criança é totalmente prazerosa, ela gosta de defecar e termina usando-o como forma de poder. A sensação de deleite só é transferida para a genitália depois dos dois anos de idade.

A vida não é encarada como um todo integrado. Prevalece a visão do ser humano dividido entre o corpo e a alma (ou espírito). O primeiro, menos importante que o segundo, deve ser mantido sobre severo controle. O puritanismo ainda permeia o discurso militante, “vestindo” o sexo, mantendo os pressupostos moralistas. Temas “insólitos” levam à repulsa ou mal-estar, mas para viver libertário é preciso um toque de anarquia. Os múltiplos véus que compõem o mascaramento social são historicamente ameaçados por essa atitude. Ao manipular a vida, o homem reconstrói relações, reorganiza as noções desencontradas, permitindo-se a abrangência das forças entre as pessoas. Reconhece que, onde tanto drama se faz, é possível sorrir e gozar. Ainda que os desvios consumistas se processem, a hipocrisia é a pior solução. A espécie humana é sexuada e todos os aparatos que nos impeçam de sociabilizar o instinto caem por terra. E no erotismo fica evidente a fragilidade humana e sua grandeza.



(1º de setembro/2015)
CooJornal nº 950



Antonio Naud Jr é escritor, assessor literário e editor do site O Falcão Maltês.
http://www.cinzasdiamantes.blogspot.com.br/
RN


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