15/06/2001

 

Opinião Acadêmica

A LOUSA, A MAGIA, O SIGNIFICANTE E O REAL

Antônio Sergio Mendonça


Resumo:
       Mais do que a suposição marxiana de a história se repetir como farsa, parece-nos estar diante não do freudiano "retorno do recalcado" (e sim) de um equívoco rivalizante dos muitos que o discurso da filosofia vem produzindo diante da novidade do pensamento de Jacques Lacan.


       É do conhecimento de todos que a formação cultural de Lacan nos envia ao momento de disseminação na França da fenomenologia (do espírito) alemã do século XIX. Dali foram depreendidas as concepções do hoje dito Lacan do classicismo. Concepções que nos remeteram às reflexões de Koyré sobre Galileu, Leonardo da Vinci e Renée Descartes e às de Kojève sobre Hegel. Delas Lacan inferiu a questão da ciência clássica, como sendo própria do espírito objetivo do quinhentismo, ao contrapor, em seus ESCRITOS (1966), saber e verdade, para que ali pudesse articular Ciência e Verdade e hiperdeterminá-las, (através do sujeito acéfalo do cogito cartesiano, visto como ante-sala do freudiano sujeito do Ics) ao sujeito da ciência.

       Contudo, o marco teórico deste dito Lacan do classicismo foi a sua concepção que dizia ser a linguagem a pré-condição do Ics. Por isto o disse "estruturado como uma linguagem"; no entanto, para ele, via JAKOBSON, seria o significante que fundaria a palavra e não ao contrário como acontecia no raciocínio saussureano ( que se levado, indevidamente, às últimas conseqüências iria supor a linguagem como meramente verbal) sobre o signo lingüístico. Por esta razão sua fonte lingüística (de fato) foi Roman Jakobson e ao relacionar este primado do significante sobre a palavra com o também texto de Jakobson sobre a Afasia pôde, então, deparar-se com a construção "metaforonímica" própria da retórica (desta mesma linguagem) e, de sorte, alheia à literalidade do "CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL ". Esta retórica clássico-linguística, reativada pelo Ics freudiano, tornou-se a expressão pré-condicional deste mesmo Ics, até por se articular com o Pcs (freudiano). E tal leitura nos conduzia à principal fonte freudiana desta reflexão de Lacan: TRAUMDEUTUNG. E a partir de então formulou-se o Ics como uma "formação" ( de linguagem) análoga ao sonho, ao sintoma, sobretudo por ter a Transferência como seu ato. Por isto não nos pareceu procedente a hipótese dos que agora, invocando Jacques Derrida, malgrado o respeito intelectual e o reconhecimento deste autor pelo pensamento de Lacan (bastando, para tal, que se consulte o seu POR AMOR A LACAN'), desejam, ardentemente, que o texto desse autor, que se lastreia na referência ao pouco conhecido texto freudiano "NOTAS SOBRE A LOUSA MÁGICA" , invalide a argumentação de Lacan. Isso nos parece pouco provável, senão vejamos:

       1) Derrida nos afirma em seu texto que o Ics freudiano é de fato uma "escritura" (perdoem o galicismo...);

       2) E "escritura", para ele, contrapõe-se à diferença, que, por sua vez, é sígnica, verbal, dualista, lingüística e binária, apontando, inclusive, para o caráter opositivo inerente ao significante contido no signo sanssureano;

       3) assim tomado o Ics seria análogo muito mais a uma "escritura" em hieróglifo, o que é paradoxal e barroco, pois o Ics do Lacan do classicismo seria simbólico, clássico, sendo apenas o saber, e o gozo, quando místicos, da ordem do barroco;

       4) seu raciocínio nos conduzia ainda a que víssemos tal construção como sendo estruturalista, mas o pensamento de Lacan não o era, pois, para tal ponto de vista epistemológico, não só o Ics é que seria condição de linguagem, mas também o simbólico é que seria Ics, e não o contrário como acontecia no Lacan do classicismo;

       5) "acontece" que o pensamento de Lacan ao dizer que o Ics tem como pré-condição a linguagem não era, pelo que se viu, neo-saussureano, já que sua fonte lingüística teria sido JAKOBSON, revisitado abdutivamente, assim sendo, ao inverter o algoritmo de Saussure, o deslocou para o primado do Simbólico como campo de linguagem;

       6) toma-lo, como fez Derrida, como uma "escritura" revelava que as relações de fundação de seu pensamento eram inscritas na fenomenologia alemã, só que do século XX, a saber: Hursell e Heidegger;

       7) estes autores são seus proto-textos e seu texto nos enviava ao enlace com o indizível poético heideggeriano, distinto do Heidegger-heraclítico tão caro a Lacan;

       8) tentava assim, através desta "escritura" hermenêutica que chama de Ics e atribui a Freud, fundar, a esse pretexto, uma ontologia da verdade;

       9) só que sua concepção de verdade,assim formulada,era, literalmente, distinta do caráter sintomático,não - todo e ficcional da verdade para Lacan (bastando que se consulte, para isto, seu texto: O CONCEITO DE VERDADE EM LACAN);

       10) lido pela hermenêutica "soi-disant" derridadiana o texto freudiano irá ver a palavra Ics retormar a sua origem filosófica , mas não a de HERBART e sim a de uma "nova" filosofia da existência;

       11) e, também, veremos o freudiano "valor antitético das palavras primitivas" tornar-se, por suposição, análoga ao "Pharmakon" platônico como o lê Derrida;

       12) sem duvida, trata-se, de direito e de fato, da inclusão do pensamento freudiano sobre o Ics na "quimera filosófica" de que ele tanto desconfiava...;

       13) e, como se isto tudo não bastasse, esta concepção de Ics, análoga à linguagem que lhe é pré-condicional, não é sequer a formulação última de Lacan sobre o tema, pois a partir de seu seminário: L'UNE-BÉVUE (pronuncia homofônica em língua francesa da palavra Ics em língua alemã) teremos que articulá-lo (e ao sintoma) à impossibilidade do Real;

       14) e o Real para Lacan não é de modo algum, análogo ao latente em Freud,(que era, porém, compatível com a primeira e significante concepção de Ics de Lacan, a que se passava no dito campo freudiano),e, muito menos, com à hiância heideggeriana entre ser e ente, tão cara à "écriture" de Derrida.

       Assim sendo a quem poderia interessar a "contestação" ou mesmo a reinscrição do pensamento de Jacques Lacan ( que é, de fato, como bem assinalou em sua OBRA CLARA Jean - Claude Milner , uma anti-filosofia ) (?); se não aos que, a pretexto de reconhecê-lo e / ou aplaudi-lo, ou mesmo de pretender que se reforme a psicanálise, não se conformaram ainda com a devastação que a sua anti-filosofia provocou no discurso universitário, e, por isto mesmo, pretendem produzir, neste lugar, uma ontologia anti-psicanalitica. Todavia, certamente, isto não se refere a Derrida....; até porque quando do evento: LACAN COM OS FILÓSOFOS, ocasião em que apresentou o POR AMOR A LACAN, ele concordou que sua teoria da (écritere) seria "complementar" à de Lacan... .Ou, então, deve-se assumir a desconstrução de um Lacan imaginado?

       Em suma, se Lacan praticou abdutivamente, a anti-linguística, a anti-matemática e a anti-filosofia na desconstrução dos saberes que lhe informavam, nada mais conveniente agora do que seus adversários lhe "arrumarem" um, também, desconstrutor...


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Titular da UFF,Doutor em Letras pela UFRJ; Docente-livre pela UERJ, Pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Ciência e Arte da UFF, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos - RS, Instituição Psicanalítica.
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