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Opinião Acadêmica

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O CENTENÁRIO E A ATUALIDADE DE LACAN

Antônio Sergio Mendonça


Resumo:
       A questão da atualidade de Lacan está, do ponto de vista conceitual, no fato de que ela estava para a segunda metade do século 20, do ponto de vista da Psicanálise, como Freud estivera para o final do século 19, e isto é incontestável. Há dois caminhos a percorrer: quem foi Lacan? Que é um caminho desnecessário e biográfico e de uma certa forma termina com a sua morte. E o que é pensamento de Lacan? O que é que o faz sobreviver enquanto espírito, autoria, imortalidade do pensamento?


       Tem-se que chamar a atenção para o fato de que as obras que estão sendo lançadas recentemente, Lacan com os Filósofos, A Obra Clara e Lacan e o Espelho Sofiânico de Boehme, destacam, em primeiro lugar, a existência de um pensamento singular em Lacan e a importância dele para o pensamento contemporâneo.

       Temos que nos perguntar, portanto, por que o pensamento em Lacan tem uma relação de abdução com suas fontes e em que consiste, em seus efeitos principais, a sua anti-linguística, a sua anti-matemática e a sua anti-filosofia? E, por último, o encontro numa fase derradeira, do Lacan teórico e do Lacan clínico, isto porque ele reconfigura os conceitos freudianos de Édipo e Castração, que são conceitos clínicos, a partir das reflexões de Koyré sobre o Gótico e de Kojève sobre Hegel.

       Lacan partiu do pensamento de Freud, de Descartes, de Koyré e de Kojève. Vai enriquece-lo com as reflexões de Aristóteles, Santo Agostinho, de São Tomas de Aquino, de Platão nos seus Diálogos e no Convívio, que se tornam fundamentais em sua obra para acrescentar ao amor pela Verdade, presente na transferência freudiana, a Suposição de Saber. De Descartes retira o Sujeito da Ciência como equivalente à acefalia do Sujeito do Pensamento, do Cogito e o despe da certeza paranóica e coloca neste lugar a dúvida maiêutica, que retira do diálogo platônico (O Convívio, Banquete).

       A Aristóteles e seu Organon, ele toma inicialmente como sinônimo, como um modelo antigo e medieval, do empirismo peripatético, que por, influência de Koyré, irá contrapor a Galileu, para ele sinônimo de ciência moderna, e também toma esta tradição quinhentista de Galileu e do Descartes no "Século do Talento" como pré-condição para que a Psicanálise freudiana possa cogitar do sujeito do Inconsciente como análogo ao Sujeito da Ciência.

       De uma leitura livre da tradição mítica grega da Fortuna (Destino), Tiquê e da Lei das Quatro Causas aristotélica, estabelecerá a sua teoria de repetição, que, para ele, é um dos quatro conceitos fundamentais da Psicanálise freudiana, articulando-a ao automaton e a ela contrapondo o que faltava neste autor: a Tiquê, ou seja: o "encontro faltoso com o Real".

       De Koyré, principalmente de seus textos a respeito de Boehme, Galileu, Da Vinci e Descartes, Lacan infere a tradição do mistério teosófico, o gótico princípio da deificação, podendo assim transformar o que ele próprio chamou de Hiatus Irrationalis, a partir de escrever um poema com este nome, que é a sua versão da teosofia foraclusiva, em Gozo do Outro, em saber. Esta herança de Koyré será por ele articulada, via Kojève (discípulo de Koyré), à leitura que ambos, ele e Kojève, empreenderam do ego no "Jovem Hegel" de Jena. Dali irá inferir duas conclusões: o Estádio do Espelho, como especularidade egóica que é distinta do neo-darwinismo de Bolk e Henri Wallon, malgrado este tê-lo indicado para redigir o verbete sobre a família, denominado depois de "Complexo Familiar", para a Enciclopédia Francesa, bem como suas concepções do Discurso da Histérica e do Discurso do Mestre Moderno. Vê ambos lastreados na Fenomenologia do Espírito e mais precisamente na dialética hegeliana do Senhor e do Servo, no que esta tem de cristã, de luterana, de quinhentista referência ao Gótico, o que fez de Hegel e de Descartes sua fontes cristãs, que lhe permitiram o rompimento abissal com o antigo e a sustentação do moderno em Galileu.

       No entanto, este Hegel dá origem ao discurso do Mestre Moderno, moderno porque compatível com esta ruptura cristã com a antiguidade clássica, sustentada pelo Judaísmo heterodóxico do Freud de Moisés e o Monoteísmo, e ao Discurso do Mestre, porque remetente ao Mestre Castrado, aquele que dá ao saber sublimatório o mesmo valor que o Inconsciente dá ao Sujeito, ou seja, valor de Gozo. Por isto Lacan diz ser o Inconsciente, razão de fato, o avesso da Psicanálise para ser compatível com o Discurso do Mestre, e, esta, razão de direito, seria compatível com o Discurso Analítico. Este Mestre Castrado, juntamente com o Édipo de Freud, que incorporava a imortalidade monoteísta, e o de Sófocles que expressava o mito do assassínio do pai, irão configurar a reconsideração de Édipo em Lacan. Lançará mão, também, para fazer exceção à lógica unária de seu pensamento, cuja matriz é hegeliana, da trindade agostiniana, para supô-lo como forma pertinente e necessária à borromeaneidade (entrelaçamento) dos Nomes-do-Pai.

       Estas reflexões levam a dois resultados: um desconstrutor e outro reconfigurador. Desconstrói as bases lingüísticas de seu pensamento ao se utilizar de Jakobson para se contrapor a Saussure e Benveniste e, inicialmente, alterando o algoritmo saussureano, propor a linguagem como condição do Inconsciente e, posteriormente, propor a língua, como elemento índice na desconstrução do saber lingüístico. Logo se vale da linguística para recusa-la, é uma anti-linguistica, malgrado os que viram nele, por imprudência conceitual, alguém que meramente transpôs o saber da Lingüística Estrutural para o saber da Psicanálise.

       O mesmo se deu em relação as suas matrizes filosóficas principais, ou seja, Platão, Descartes, Spinoza e Hegel, pois incorporou as categorias desses pensadores para fundar conceitos e procedimentos clínicos, e de uma certa forma, invalidado algumas de suas acepções originais, ser dito um anti-filósofo. E, também, incorporou a lógica conceitual, Bourbaki, a lógica do argumento, Russel e a topologia para dizer, face a diversidade do tempo, que este pode ser imaginariamente linear, cronológico e horizontal, simbolicamente vertical, e contingente e sintomaticamente se dar no nível da posteridade, tragicamente como "futuro anterior", e ser representável, inclusive topológicamente, à exceção da non durée ( não-duração) do Real, por isso não "mediatizável". Como representar, então, o nó borromeano sem o Real? Com isto parece invalidar o princípio moderno de matemização da Física, que nos remeteu à ciência experimental do espírito objetivo, pertinente ao moderno em Galileu. Aposta, como Kepler, na anamorfose, na ficção, e por isto diz-se ser ele, no sentido Clássico, um anti-matemático.

       Do ponto de vista construtivo irá aproveitar-se da tradição que converteu o espelho unário e teosófico em deificação para dize-lo, conforme o Gozo do Outro, podendo assim limitar o Gozo Fálico e impedir a progressão da perversão. Podendo, também, lançar mão do sintoma freudiano, onde o Gozo fálico metaforiza o Gozo, para impedir, igualmente , a progressão da perversão, bem como contrapor o Gozo do Outro, como limitante, para com isto evitar a progressão da Psicose. Esta limitação de ação recíproca permite que o sintoma seja a outra classe lógica do sexo e que, em última análise, a Castração seja o reconhecimento de haver um impossível saber sobre o Gozo.

       Assim, Lacan se valeu de suas matrizes incorporadas e transformadas para levar adiante o "fio da meada da verdade freudiana", reconceituando o Édipo e reconfigurando a Castração. Este é, em síntese,o seu pensamento e não se pode negar que nada do que se fez em Psicanálise, mesmo quando alguns pretendem recusa-lo a pretexto de homenageá-lo, pode se dar ao luxo de não levar em consideração e conta a sua fala (Seminários), e a sua escrita(Escritos).

       Por isto, nos advertiu em Conferência de Imprensa realizada em 29 de outubro de 1964, no Centro Cultural Francês, em Roma, e publicada nas Cartas da Escola de Freudiana de Paris (pg.18); "Será muito freqüente que após 10 anos, um dos meus Escritos torne-se transparente. Vocês verão que encontrarão Lacan em todos os cantos ...", e isto após ter dito na pg.17 do mesmo texto: "Os meus Escritos, não os escrevi para que fossem meramente 'compreendido', eu os escrevi para que fossem efetivamente lidos, pois eles não contém senão: nada criado que não apareça na urgência e nada na urgência que não engendre seu ultrapassamento na palavra"( confrontar Escritos, Função e Campo de Palavra).

       Por esta razão, desde o início dos anos 90 no Colóquio Lacan com os Filósofos, promovido pelo Colégio Internacional de Filosofia, em maio, em Paris, objetivou-se provocar o retorno do pensamento de Lacan ao pensamento contemporâneo como um todo, embora, do ponto de vista do restrito dialogo entre a Psicanálise e a Filosofia, é, sem duvida, a convocação de um pensamento que pretende descontruí-la .

       Autores como Alain Didier-Weill, que são, no que se referem a Lacan, leitores das fontes judaicas de Freud e Dany-Robert Dufuor com seu Lacan e o espelho Sofiânico de Boehme (RJ, Campo Matêmico,1999) e Jean-Caude Milner, com sua A Obra Clara (Jorge Zahar,1996), onde se estuda as relações do pensamento de Lacan com a ciência e a filosofia, têm seguido esta trilha de apresentação do texto de Lacan, no que são acompanhados, entre outros, também, por Catherine Clément e Dominique Auffret.


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Titular da UFF,Doutor em Letras pela UFRJ; Docente-livre pela UERJ, Pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Ciência e Arte da UFF, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos - RS, Instituição Psicanalítica.
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