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Opinião Acadêmica


Opinião Acadêmica

IDENTIFICAÇÃO IMAGINÁRIA E RAZÃO CÍNICA

Antônio Sergio Mendonça


Resumo:
O presente estudo pretende demonstrar que o imaginário pertinente à sociedade do espetáculo pós-industrial consagra-se à disseminação da Razão Cínica.

Palavra chave:
Razão Cínica, "Nobodaddy Histérico", Identificação Imaginária, Impostura Perversa, Kynisme.

       «Foi precisamente por causa dessa concepção dos "excessos" sociais que Lacan sublinhou ter sido Max quem inventou o sintoma: a grande realização de Max foi demonstrar como todos os fenômenos que se afiguram à consciência comum como simples desvios, simples deformações e degenerações contingentes do funcionamento "normal" da sociedade (crises econômicas, guerras etc) - e, como tal, facilmente elimináveis por uma melhoria do sistema -, são produtos necessários do próprio sistema, ou seja, são os lugares em que transparece sua "verdade", seu caráter antagônico imanente. Identificar-se com o "sintoma" significa reconhecer nos "excessos", nos descarrilamentos do curso "normal" das coisas, a chave do que nos dá acesso a seu verdadeiro funcionamento - exatamente como Freud, para quem as chaves do funcionamento do aparelho psíquico eram os sonhos, os lapsos e outros fenômenos "anormais" similares».


       O objetivo deste trabalho é dizer que na sociedade contemporânea as relações sociais são presididas atualmente, sem dúvida, pelo signo da impostura perversa e vamos dizer porquê.

       Duas manifestações demonstraram isto, indicavam o predomínio, nesta sociedade, que é explícito, de dois eventos: da razão cínica e da identificação imaginária com esta dita razão cínica. Para isso nós teremos que saber o que se entende por razão cínica e o que se entende por identificação imaginária. A origem da categoria de razão cínica remete a um cientista social em voga: Peter Sloterdijk, embora isso tenha sido formulado quando ele não era um autor tão reconhecido, aliás, ele se especializou em crítica da ideologia. Alguns anos depois, num livro chamado Sublime objeto da ideologia, o psicanalista croata Slajov Zizek incorporou essa idéia (de razão cínica) a Psicanálise contemporânea, à Psicanálise do chamado Campo Lacaneano, uma Psicanálise preocupada com o que Lacan vai chamar de campo do gozo. Ele ali coloca essa razão como uma espécie do gozo da sociedade contemporânea, de gozo perverso na sociedade contemporânea. Então vamos ver o que Sloterdijk trouxe como sendo razão cínica.

       A razão cínica se opunha ao que ele chamava de "Kynisme", que seria, digamos assim, um cinismo positivo, um "cinismo de resistência", seria aquela apropriação cínica que as pessoas que estão em desacordo com determinada ordem social fariam da ideologia oficial. Um dos exemplos mais brilhantes de "Kynisme" que conheço é, no Brasil, a obra de Machado de Assis, que foi o grande crítico do 2º Império e como o "Kynisme" nele é uma construção profundamente inteligente e instigante, profundamente indireta e os espíritos menos argutos costumam não se dar conta disto, Machado de Assis foi criticado justamente por isto pelos adeptos de uma ideologia pretensamente progressista, que era a ideologia abolicionista e republicana que, contudo, terminou rompendo o pacto de poder no Império e transformando os seus acólitos em burocratas da República do "Café com Leite", que instalou esse poder agropecuário que ficou conhecido como "República Velha brasileira". Machado de Assis era, também, jornalista, e em suas crônicas não havia diferença, do ponto de vista do excluído, do segregado, entre as oligarquias da República e as do Império, já que isto tudo não passava de uma troca de poder entre as elites e ele exemplifica isto com um procedimento próprio do "Kynisme". Assim, o português, dono de uma padaria no Largo do Machado, que era uma região perto do Cosme Velho, chamava o seu estabelecimento de "A Imperial" e colocou no seu lugar o nome de "A República", após a proclamação. Assim em Machado de Assis faz-se a paródia própria do "Kynisme", que é essa ironia corrosiva de quem é despojado do poder. Isto quer dizer que a passagem do Império para República, do ponto de vista do português da padaria e de seus clientes, era apenas uma questão de letreiro. Ainda sobre Machado de Assis destacamos que se torna, a juízo do insuspeito Astrogildo Pereira,um dos fundadores do PCB, num livro brilhante, A crítica Impura, o grande romancista do 2o Império, isso porque não caiu nesse logro de adotar a ideologia oficial e/ou a nova ideologia como verdade, como um "progressista" marco de interpretações da realidade, pelo contrário, percebeu que, do ponto de vista da maior parte da população (daquilo que o jargão sociológico gosta de chamar de "classe subalterna") trava-se simplesmente de uma mudança de rótulo, de uma mudança no pacto de poder próprio da elite. Saía a oligarquia imperial e entrava em cena a República do "Café com Leite" também oligárquica.

       Creio que com isso é possível entender-se o que é "Kynisme". É quando por exemplo, no domínio português , os "Lusíadas", que são feitos por um poeta que morre na miséria, Luiz Vaz de Camões, mas que foram imediatamente adotados pela elite portuguesa, porque tratava-se de uma glorificação do Portugal que naquele tempo não mais existia, isto porque Portugal, depois da "sandice" de D. Sebastião, se tornara uma espécie de "domínio da Espanha", um domínio não no sentido de colônia, pois Portugal era um reino unido agregado à Espanha, já que tinha o mesmo monarca, era um domínio relativo, mas ainda assim isso feria o "orgulho nacional" e os "Lusíadas" passam a ser cantados pelo povo como uma espécie de "literatura de resistência". Essa ironia, esse espírito que Mário de Andrade muito bem percebeu em Macunaíma, esse espírito de gozação corrosiva da empáfia do poder, esse espírito aparentemente perverso, quando de fato é parodístico e desconstituidor da ideologia oficial, é isso que é chamado de Kynisme.

       Sloterdijk chama-nos a atenção de que não devemos confundir a razão cínica com esse Kynisme auto-defensivo, já que a razão cínica é a hipocrisia, a impostura exposta na forma sublime de "bom-mocismo" pela ideologia oficial, que, então, dissimula o seu caráter perverso.

       Daí esse nome Crítica da Razão Cínica que é uma "blage", uma paródia, que se faz com o texto cristão, a juízo de Kojève, de Kant - Crítica da Razão Prática. Este é um texto onde Kant juntamente com o dito em a "Metamorfose dos Costumes", tenta fazer uma teoria moral da sociedade, não de uma sociedade que existisse, mas de uma sociedade que deveria existir, em nome da Razão e da Liberdade.

       O autor citado, então, faz um "blange" com o texto Kantiano e no lugar da Crítica da Razão Prática - e razão prática em Kant é razão social - temos a Crítica da Razão Cínica. E a função da teoria crítica, para ele, seria criticar esta razão cínica. Razão cínica que seria um traço indelével da cultura contemporânea. Ele toma, já que Kant adota o "livre arbítrio" cristão, uma frase, também, pertinente à teologia própria desse "livre arbítrio" : "pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem", que, então, transforma em "eles sabem muito bem o que estão fazendo, mas mesmo assim o fazem" e afirma, portanto, na razão cínica "eles sabem, muito bem, o que fazem" e dá como um grande exemplo de razão cínica, na URSS, o stalinismo, e sua "moral política" de conveniência, onde se usava, uma ideologia dita humanista, reformadora e libertária para, de fato, se praticar a tirania, o terror e a perversão. Embora, do ponto de vista da ideologia oficial, estes atos de terror e perversão fossem praticados em nomes dos ideais mais sublimes e nobres da humanidade. Logo a razão Cínica dissimula a sua perversão na (sua) alegação "homossexual de bom mocismo", pois dissimula a sua perversidade fazendo de contas que pratica o "bem-estar coletivo", que age em prol do bem maior da humanidade, que conjuga o psicótico "bem-supremo".

       Esta parece ser a tônica que Sloterdijk dá ao discurso da razão cínica, mas não é literalmente o uso que Zizek faz. Zizek, então, encontra essa crítica ideológica no sentido de crítica da ideologia e não fica tendo diante dela esse comportamento quase religioso, considerado "sagrado", que vê como verdadeiro tudo que vier com a "chancela ideológica" à semelhança de alguns partidos políticos no Brasil, muito pelo contrário, ele percebe que a ideologia tem seu caráter dissimulador,e isto está presente até na sua definição dada pelo marxismo, onde ela é da ordem da representação das relações sociais de maneira deformada, sejam atitudes, sejam comportamentos.

       Portanto ele percebe, então, que essa ideologia, principalmente a ideologia política, estabelece com a sociedade um jogo hipócrita, uma impostura, pois, ela age sob um princípio paranóico da exclusão, e estabelece em nome desse princípio o ato de excluir, que é perverso, ou vários atos de exclusão, mas dissimula isso. Ela dissimula isso porque coloca tais eventos como se fossem praticados em nome dos mais belos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa, por exemplo, movimentos, aliás, que (só) serviram para se ter belos ideais. Não vou dizer, contudo que em nome deles não se transformou alguma coisa no mundo, mas não naquilo que eles diziam que iria ser, e, sim, possivelmente, de uma forma cínica, ou, no mínimo, precária, em algo egóicamente semelhante. Logo se estabeleceu, em nome do Iluminismo, o "despotismo esclarecido" e se estabeleceu ainda, em nome da forma como os ideais iluministas eram conversados nos cafés de Paris, os pilares do terror, como muito bem mostrou um livro recente de história das mentalidades, já que muito mais do que Montesquieu, o que ia para "os corações e mentes" da "turba" da Revolução Francesa era a redução sociológica dos ideais iluministas, praticados em nome do rancor e do ressentimento. E o que prometia a Revolução Francesa ?

       Liberdade e Igualdade em nome de dois princípios psiquicamente perverso-paranóicos que são a Fraternidade (cumplicidade) e a Igualdade (anulação da diferença) é que se constituiu a adoção da igualdade social como apenas jurídica, constituindo-se pois, num princípio paranóico. Assim o que a sociedade teria que, deveria valorizar não era a igualdade, e sim a diferença, portanto , não basta a igualdade nominal perante a lei, não basta querer que todos sejam "iguais", pois isto é um princípio paranóico. E em nome disso se estabeleceram todos os regimes totalitários de natureza fundamentalista na medida em que estabeleciam, previamente, um modelo fictício de igualdade e se constituíam numa forma sublime de racismo, de segregação, numa forma de exclusão. Já a fraternidade é um fato perverso. É considerar aptos a serem beneficiados pela lei apenas aqueles que forem escolhidos como "irmãos", aqueles que sejam da mesma causa. Não é à toa que com esse ideário (essa revolução) acabasse praticando o terror, condenando à guilhotina o seu próprio inventor e matando quase todos os seus ideólogos, trazendo ao poder o militarismo bonapartista. Então, com isso, creio, dei um quadro do que seja essa razão cínica, pelo menos na sua origem de reflexão sobre a crítica da ideologia, para se entender como um sistema social, em nome de uma ideologia, seja a mais sofisticada e humanitária possível, estabelece um sistema de impostura perversa.

       Slavoj Zizek trará isso à consideração da psicanálise, pois, lhe cabe essa articulação, ou seja, a articulação entre a razão cínica e a perversão. Portanto, enquanto Sloterdijk estabeleceu o modo de funcionamento da razão cínica, Zizek identificou esse modo de funcionamento como da ordem da perversão. Mas de qualquer maneira será o psicanalista Zizek que trará a categoria da razão cínica, como se disse, à cogitação psicanalística, por conotá-la como perversa, e perversa no sentido de que outro grande psicanalista, Serge Cottet dá a perversão, sentido de impostura, isto é, a perversão como código da impostura, não a simples perversão sexual, já que isso não é senão, paradoxalmente, uma forma de "normalidade", pois toda perversão é sexual, e todo sexo é perverso e foram os preconceitos do século XIX, oriundos do "mito do pudor" vitoriano que, ao falar em perversão sexual, criaram a ilusão, ora da existência de uma perversão que não fosse sexual ou de um sexo que não fosse perverso (polimorfo). Mas de qualquer maneira, a perversão se caracteriza muito mais por essa impostura, por essa manipulação, por esse desrespeito a todo e qualquer fundamento ético, àquilo que se chamaria, em psicanálise, da Lei do Pai, cujo símbolo trágico é, a juízo de Lacan, A Antígona de Sófocles. E quando isso é patrocinado pelo modo de organização do sistema social, se torna preocupante. E esta razão é, neste sentido, o modo de se fazer o liame social da perversão, de esta se tornar uma impostura, e Ziizek vai articulá-la como sendo a forma dissimulada e disseminada de agressividade perversa, o que não é muito difícil de identificar, trata-se da agressividade em suas manifestações explícitas. Já o que é muito difícil é identificar-se a agressividade, mesmo na arrogância, quando esta é dissimulada pelo "bom-mocismo". Mas de qualquer maneira, há uma agressividade que se esconde "nas boas intenções". Ali se exerce um procedimento agressivo na medida em que se suprime do tecido social uma série de procedimentos que teriam de existir ali, já que a sociedade não pode existir, senão em Mal-estar, e pelo menos dever-se-ia conseguir que se abrigasse a única coisa que a justificaria, que é a diferença. Esta razão cínica, fingindo atender as diferenças, faz uma sub-troca identificatória imperdoável entre desigualdade e diferença. Ali se confunde, pois, propositalmente, desigualdade com diferença e com isso se sub-troca direitos em privilégios e vice-versa, logo, chama-se o direito de alguém de privilégio e chama-se o privilégio de alguém de direito, E é perversismo querer impor à cidadania apenas obrigações e deveres.

       A Razão Cínica torna-se um traço identificatório próprio da pós-moderna sociedade contemporânea, é a forma de comparecimento da identificação egóica na sociedade pós-industrial. E essa característica egóica, essa forma de agressividade dissimulada é que é manipulada por uma figura também egóica, e a origem dessa reflexão está em Freud, na Psicologia das Massas e Análise do Ego, onde se deixa claro que, de uma forma ou de outra, os grandes grupos sociais se identificam com imagens egóicas, só que essa forma de identificação não remete mais, necessariamente à figura de um líder, de um líder que era o salvador explícito, que era aquela figura messiânica, que se colocava como aquele cuja competência era a única que podia salvar o país e isto lhe dava valor histérico, e , em nome de tal fato, provocava-se, manipulando a mídia pelo sistema governamental, do ponto de vista das identificações, algo profundamente cruel, que era negar a possibilidade das identificações simbólicas ocorrerem na sociedade. Na medida em que se confundia direito e dever ou direito com privilégio, e se o desejo de ter esse direito é conotado como algo anômalo, como algo perverso, quando perverso é o raciocínio que faz isso, acaba-se abdicando-se dos mesmos. Por isso digo que essa sociedade traz, no seu bojo, uma crise identificatória, que é o que ela põe neste lugar, Ela é uma sociedade pós-moderna, onde a manipulação de "performace" faz-se pelo espetáculo midiático.

       E o que é uma sociedade pós-moderna? É, no mínimo, uma sociedade historicamente pós-industrial. Nesta sociedade pós-industrial as grandes narrativas de legitimação entraram em decadência, essas narrativas eram veiculadas na sociedade, sendo até, por vezes, conflitantes entre si, como interpretantes de e na sociedade, e passam, a partir da função estratégia da mídia, onde a cultura vira "show bussines", a serem dadas como "superadas". E o modo de apresentar as "figuras atraentes" desta mídia faz com que a sociedade as caracterize como "personalidades atraentes" : os que interpretam o mundo para nós. E nós nos tornamos aquilo que Baudrillard chama de a "maioria silenciosa". E nós passamos a tê-los como nossos porta-vozes, eles que não são mais necessariamente "iluministas" ou seja, os porta-vozes de nossas idéias, de nossas posições políticas, são sim, os porta-vozes da grande sociedade do espetáculo que a industria da cultura se tornou para que a mídia realizasse esse feitiço da mercadoria, que é ela por excelência, já que ela se vende e se organiza como tal e serve, também, para vender outras mercadorias. E a indústria da cultura, quando dado interno da indústria do espetáculo, passa a ter dimensão mundial, dimensão planetária, e só depois é que vamos perceber que a "personalidade atraente" é a que tem permanência constante, é a que tem o que Umberto Eco chamou de "visibilidade na mídia". Por isso ela fala por nós, ela roga por nós, embora, antigamente fosse "papai do céu" que rogava por nós, agora é a "personalidade atraente" que "fala por nós". Por isso nós não temos mais a moral cristã da razão prática, nós temos agora é a "performace" da Razão Cínica.

       Na Razão Cínica, dita pós-indústrial, importa a "performace" e o espetáculo, inclusive, na política, pois importa muito mais do que a obra política de alguém, a sua "performace" na mídia. O que faz de alguém um candidato é na realidade um reconhecimento identificatório, egóico, ou seja, o eleitor se identifica, imageticamente, por semelhança egóica, com uma imagem, seja do candidato, seja do cronista social, seja do cronista político, seja do cantor, seja do apresentador de TV. E essa "performace" tomou o lugar das antigas "unanimidades" das narrativas de legitimação. Legitimação é o dado que uma teoria tem ao querer interpretar o mundo, emancipação é a teoria que, além de interpretá-lo, quer modificá-lo. Neste sentido, o século XX trouxe a emergência, como já se disse, de três grandes narrativas de legitimação: as vanguardas poéticas e as vanguardas artísticas, na passagem das duas últimas décadas do século XIX, de Mallarmée de 1888 aos anos 30 do século XX. Aí se teve o surrealismo, o dadaísmo, o futurismo russo, o futurismo italiano, etc. Então teve-se, naquele momento, a legitimação estética, já o marxismo que era uma teoria que se começava a engendrar no século XVIII e que se formou e se consolidou no século XIX, e que era uma forma, as vezes contraditória, de se tentar conciliar o inconciliável, ou seja: a critica da economia inglesa, a crítica da política francesa e a crítica da ideologia alemã. Era, contudo, uma teoria que tentava interpretar e modificar o mundo, e o século XX produziu uma "dessas" formas mais elaboradas de marxismo, que foi o marxismo frankfurtiano, em suma um marxismo que via a possibilidade de transformação social residir no binômio: Alienação X Repressão. Mas, será a partir de 1895 que Sigmund Freud trará para à conceituação inconsciente um saber chamado psicanalítico, pois o inconsciente como manifestação, sempre "existiu", o inconsciente estava presente na "moira" e no "coro" da tragédia grega, na profecia barroca, na utopia e no "maravilhoso" da épica grega e do quinhentismo, e foi conceituado, através do sonho, por Freud, que o conceituou a partir de uma teoria que visava demonstrar que o que o inconsciente trazia "à cena" era um saber específico, era um saber acéfalo (inconsciente) do sujeito da ciência articulado ao "Retorno do Recalcado" .

       Freud, a partir de sua experiência com Breuer e Chorcot, levou a psicanálise ao século XX como uma grande narrativa de interpretação erótica e o cerne da psicanálise para Freud passava por Narciso, Éros e Édipo. O Édipo para Freud, não era uma estória de garoto "com tesão por mamãe", o Édipo para Freud significava que nós temos que sustentar o "mito do assassino do pai" a partir do mito da imortalidade de um Deus monoteísta, é só ler, "Moisés e Monoteísmo". E há uma diferença muito grande entre o Édipo de Sófocles e o Édipo de Freud, porque no Édipo de Sófocles não há Deus monoteísta, nem castração e ali se consagra a versão tebana do mito. Nem, há, insistimos, referência à castração, e sim ao encequecimento. E o que Freud retira deste Édipo, que é um tema constante na sua obra, é a castração que é um tema nele tardio e precário, a que ele dá formulação ainda incompleta, mas só em 1926,vendo-a como aquilo que do Édipo comparece, nos sujeitos humanos, já que o tinha pivô implícito, e isto em Inibição, Sintoma e Angústia.

       Mas banalizar tais teorias faz parte do jogo de pós-modernidade, onde se valoriza, como se disse, a "performace", o resultado, e isso já se dá de tal forma que ela desatualizou, desacreditou, no nível de seu imaginário, essas grandes narrativas de legitimação, independentemente destas teorias nunca se terem "dado bem" entre si; o que faz parte do ponto de vista da função estratégica da mídia. E na pós-modernidade, como as três teorias são interpretantes, trata-se de tentar aposentá-las e ao mesmo tempo, colocar, nesse lugar, a banalização da cultura. A banalização da cultura, que é um produto óbvio da cultura ter sido incorporada ao "show-business", é marco da sociedade do espetáculo. Mas quais são os efeitos da banalização da cultura? São a também banalização da violência (agressividade) e a banalização da sexualidade. Esses são dois exemplos óbvios de banalização da cultura, para não citar outros. Então nossa sociedade hoje vive do culto à banalização da cultura, e a banalização da cultura trouxe o esvasiamento do horror que a violência provoca, porque? Por que a violência se transformou em notícia e notícia é mercadoria e a violência tornou-se, pois, um dado interno do espetáculo. A violência é fruto da divulgação de necessidade de se vender na mídia o apelo ao sensacional, a violência se tornou um evento por ser "performática" e hoje tudo se torna um evento, inclusive a sexualidade, pois, se o pudor em relação a sexualidade foi desmentido pelo consumo imaginário do psicanálise, não por Freud, mas pelo que pensaram que Freud teria feito ou dito, neste lugar se colocou a banalização da sexualidade. Então nós estamos interessadíssimos com a ocorrência de algo que dá à sexualidade o caráter de "Nobodaddy", que é como a sexualidade é mostrada histericamente na mídia de nossos dias. "Nobodaddy" é um conceito psicanalítico a respeito da histeria, feito por Catherine Millot, que, para tal, faz "blague" com o fato de que, na tradição histórica, a histeria sempre fora aproximada da "loucura" e do caráter etimológico e uterino das mulheres, e isto por equívoco, por preconceito. E ai, em suma, a Catherine Millot recorre a um poeta inglês brilhante: William Blacke e toma emprestado um neologismo seu: "Nobodaddy", que era uma palavra dita por uma histérica "endemoniada", composta por Body (corpo), Nobody (ninguém) e Daddy (pai). Para nossa sociedade o desejo histérico torna-se, pois, só uma imagem, sem corpo, sem consistência, dissimulando a sua insatisfação, o seu mal-estar. E com isso recupera "sans le savoir" o caráter endemoniado da histeria, mas o apresenta agora como positivo. Ela, a "nova endemoniada", não existe mais para ser asilada, nem para ser queimada, ela é o cultivo etéreo do desejo de petência, mas do desejo como uma imagem sem corpo, como uma imagem visual produzida graças "à negação da morte e da suspensão do luto". Logo, goza-se socialmente pela alusão ao corpo de ninguém, mas como estas pessoas também existem de "carne e osso", Adriane Galisteu, nossa "filósofa social", não hegeliana, disse, em uma entrevista, que todos os homens com os quais ela se relacionou se embaraçaram com sua imagem fálica e pública. Ela tem, em princípio, toda razão, embora diga, porque dá uma de "feminista de última hora", que se embaraçavam, porque ela "trabalhava demais"... Não se trata disso, não há como concretizar satisfatoriamente esse tipo de relação pessoal com uma imagem pública. Mas é através desta imagem de "personalidade atraente" que nossa sociedade conota uma "mulher" e que ela se torna esta "descoberta anexa" à la "Sharon Stone" : a "mulher tesuda", a "blond inatingível", e isto parece ser a sexualização do princípio medieval da mulher inatingível, só que o é por não corresponder a sua falicidade. Assim torna-se inatingível, agora, porque representa de tal forma a "completude" da falicidade que nenhum homem de "carne e osso" vai estar à altura da mesma, e isto é um procedimento histérico, só que sub-dito a mais uma das imposturas da sociedade contemporânea, uma dessas varias imposturas que essa nossa performática pós-modernidade nos coloca. Assim não temos mais a acefalia, nem o desejo insatisfeito, e sim a suposição de, paradoxalmente, satisfaze-lo só que apenas do ponto de vista da impotência... E viva o VIAGRA ! O nosso Desejo de Saber...


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
coojornal@coojornal.com.br

REFERÊNCIAS:
1 - Este artigo foi escrito baseado no Seminário de mesmo nome, proferido em Outubro de 1999, na Universidade de Caxias do Sul.
2 - ZIZEK, Slavoj. Eles não sabem o que fazem. Rio de Janeiro,Jorge Zahar,1992 p.12