04/08/2001
nº 217

ARQUIVO
Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

PORTUGAL, CAMÕES E O BRASIL
COMENDA DA ORDEM DO MÉRITO PARA MESTRE BRASILEIRO

Antônio Sergio Mendonça


Resumo:

Em jantar de despedida no Palácio São Clemente, realizado no dia 27 de junho de 2001, o Embaixador de Portugal, Doutor Francisco Knopfli, conferiu, em nome do Senhor Presidente Doutor Jorge Sampaio, as insígnias da Comenda da Ordem do Mérito a Leodegário A. de Azevedo Filho, professor emérito da UERJ, titular da UFRJ e presidente da Academia Brasileira de Filologia. Na mesma ocasião, em Lisboa, foi lançado o volume das Éclogas de Camões, que é o oitavo livro da edição crítica do mestre brasileiro, hoje universalmente considerado um dos maiores camonistas do mundo.


       O fato é significativo, pois demonstra a importância dos estudos sobre a língua portuguesa no Brasil. No caso em foco, há mais de 30 anos o eminente filólogo brasileiro vem realizando a sua extraordinária pesquisa sobre os textos da obra lírica de Camões, que andavam dispersos em manuscritos apógrafos dos séculos XVI e XVII, para confrontá-los com o duplo testemunho da tradição impressa multissecular, numa edição crítica que vem sendo publicada pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, de Lisboa. Consagrado como um dos maiores teóricos da crítica textual do mundo lusófono, Leodegário já havia recebido, antes mesmo da recente condecoração, a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. E, no Brasil, o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de obras, conferido pela Academia Brasileira de Letras. Com 60 livros publicados, a sua extensa e intensa bibliografia, além de artigos e ensaios publicados em jornais e revistas especializadas brasileiras e estrangeiras, recebeu o seguinte aplauso do saudoso mestre Antônio Houaiss: "Nos domínios da crítica textual, em cada século, surge uma obra filológica como a de Leodegário A. de Azevedo Filho". Por isso mesmo, é considerado uma das maiores expressões da Escola Camoniana Brasileira, segundo os testemunhos de Barbara Spaggiari, na Itália; de Maurizio Perugi, na Suíça; de Nicolás Extremera Tapia e X. Manuel Dasilva Fernández, na Espanha; de Arthur Lee-Francis Askins, nos Estados Unidos da América; e do saudoso mestre Joseph M. Piel, na Alemanha.

       A importância nacional e a penetração internacional da obra do filólogo brasileiro se evidencia com a publicação de livros na Itália (Luís de Camões - 13 imagens e uma poesia); na Espanha (As cantigas de Pero Meogo, já em terceira edição); em Portugal (Uma visão brasileira da literatura portuguesa, além da já citada edição crítica da Lírica de Camões); na França e na Alemanha com vários ensaios publicados em revistas especializadas, como a Romania e a G.R.M., entre várias outras. No Brasil, além de sua obra Anchieta, a Idade Média e o Barroco, várias vezes premiada, inclusive com o Prêmio José Veríssimo, de Ensaio e Erudição, da Academia Brasileira de Letras, deve-se mencionar a coleção Poetas do Modernismo, publicada pelo antigo Instituto Nacional do Livro, e a Obra em Prosa de Cecília Meireles, em vários volumes, pela Editora Nova Fronteira. Com tal currículo universitário (Professor emérito da UERJ, Titular da UFRJ e Presidente da Academia Brasileira de Filologia), não admira que tenha sido Professor-Visitante na Alemanha, na França, na Espanha e em Portugal, examinando teses de doutorado não apenas no Brasil, mas também no Exterior, aqui incluindo-se os Estados Unidos da América.

       Como antigo Diretor do Instituto Estadual do Livro e como antigo Vice-Presidente do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC), na administração do ministro Eduardo Portella, publicou a Revista Brasileira de Língua e Literatura, dezenas de livros pelo INELIVRO e elaborou mais de 30 projetos de fundamental interesse para a política cultural do livro no Brasil, como Coordenador do PRODELIVRO, do Ministério da Educação. Pernambucano de nascimento e carioca de criação, a nossa Assembléia Legislativa lhe conferiu o Título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro. A influência do seu pensamento no mundo lusófono, de cuja unidade lingüística jamais duvidou, deve-se à consistência científica de sua obra universitária e aos Congressos Internacionais que, ao longo de mais de 30 anos, vem realizando no Rio de Janeiro, com a presença de grandes especialistas das nações européias e americanas. Por tudo isso, num volume de 665 páginas, publicado pela Editora Tempo Brasileiro, foi homenageado por colegas brasileiros e estrangeiros, como se pode ver na obra intitulada Estudos universitários de língua e literatura (Homenagem ao Prof. Doutor Leodegário A. de Azevedo Filho). Rio de Janeiro, 1993. E a Comenda da Ordem do Mérito, que acaba de receber do Governo de Portugal, afinal consagra uma vida inteira de estudos universitários e de lutas pela cultura brasileira e pelo desenvolvimento da educação do povo a que pertence.


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
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