ARQUIVO
Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

IMUNIDADE/IMPUNIDADE: EIS O LEMA DO "FRANKSTEIN" PÓS-MODERNO.

Antônio Sergio Mendonça


       Preliminarmente, gostaríamos de chamar a atenção para o fato de na nossa sociedade, historicamente pós-industrial, as narrativas críticas de legitimação cederem seu antigo lugar para o imaginário próprio à identificação idólatra. Assim sendo, nos deparamos, inicialmente, com o caráter dito pós-moderno e performático dos dias atuais de "nossa civilização". Mas também, tal evento indica que ali se adota a identificação egóica em relação aos rituais cênicos da perversidade. Para tal, podemos recorrer ao que é cênica e imageticamente, mostrado no filme intitulado em língua portuguesa de "O Psicopata Americano" . Trata-se do filme de Mary Harron chamado originalmente de "Psycho Americain" e baseado no romance de BRET EASTON ELLIS . "A viagem" deste filme nos leva, de pronto, ao encontro de algumas considerações:

       a) Mais uma vez, como já o fizera no passado, a arte cênica, agora em sua versão cinemática, ilustrou processos clínico-psíquicos . Isto porque, a arte sempre tem sido utilizada pelo saber psicanalítico para a ilação de alguns de seus principais conceitos. Assim sendo, se nos ativermos apenas à contribuição conceitual de Sigmund Freud e Jacques Lacan, poderemos observar, por exemplo, a constituição do fantasma fundamental na leitura freudiana de A GRADIVA de JENSEN, e também a conceituação freudiana de sublimação na genealogia do artístico presente na leitura das "DUAS MÃES" de Leonardo da Vinci, sem esquecermos do "crime de existir" presente na leitura da fantasia fundamental da obsessão de e em HAMLET feita por Lacan, bem como da heterossexualidade quando advinda da fantasia das mulheres, que é caracterizada na leitura lacaniana do DON JUAN de Molina, isto sem esquecermos, inclusive, do caráter ficcional da verdade e normativo do sintoma revelados, por via mística, na leitura da santificação de Joyce feita por Lacan, e mais ainda, como proto-texto da psicanálise, encontraremos tanto a lição da Lei do pai, do não matarás, que são próprias da heterossexualidade edipica, quanto a alusão à ética do desejo, à ética de Antígona, e ambas remetem ao texto trágico de Sófocles. E isto sem contar com a ilustração do bordel perverso que caracterizaria a sociedade dos dias de Lacan e que este ilustrara na caracterização do "Balcão de Genet";

       b) só que, face ao filme citado, tem-se, antes de tudo, a ilustração cênica e o reconhecimento da demonstração ficcional da obrigação metonímica,ou seja, da suposição de o desejo humano, metonímico, ser sempre uma obrigação de do gozo fálico. Portanto, em seu texto cênico-imagético, esse filme apresentará os mais diversos ingredientes da "salada" perversa, tais como: o homicídio imotivado, a impostura, o logro, a fraude, o cinismo, o ato masoquista sempre incidente sobre outrem, e, sobretudo uma face sempre perversista e renegatória do "sujeito do prazer". Sempre se conjugará , com o álibi do "vencedor" e da "sobrevivência", o prazer, qual Sade, no lugar do gozo. Trata-se de uma versão "multimídia" do "Kant com Sade", a partir de uma questão foraclusiva de caráter megalômano, onde, qual na cultura política brasileira atual, se funde e confunde, num só texto: IMUNIDADE e IMPUNIDADE. Elas são o lema de uma ilusão sempre atual. Ali a imunidade tem um texto foraclusivo porque se trata da suposição de um paranóico "direito natural" ao poder e ao sucesso e a impunidade, por sua vez, apresenta um solo perverso que é sempre apoiado na suposição de existência de um Charles Bronson a confundir, nas telas, desejo com direto de matar...;

       c) então, como já nos advertirá Lacan quando de suas reflexões sobre o "Amor-Cortês", em vez de "ficarmos boiando" no paradoxo deste amor ter surgido na época medieval e tentar entendê-lo pelas razões ditas sócio-econômicas,deveríamos era não perder a oportunidade de ver nele uma exemplar manifestação de MESTRIA, onde a dama-sujeita seria a única senhora neste imaginário sublimatório, ficcional e gótico. Transportado esse tipo de raciocínio para a nossa questão fílmica, não poderíamos ficar meramente perplexos diante do paradoxo deste filme consagrar-se, ao mesmo tempo, ao sucesso social e ao culto à violência, e, por isto, ao se adotar procedimentos fóbicos de aversão,abrirmos mão de ver nele a tentativa pós-moderna de se dar moldura estético-performática à perversão. Devemos, pois, abdicar desse "complexo pedagógico de censor", próprio da ilusão panóptica do pedagógico "delírio interpretativo", e ver nele a oportunidade de se demonstrar o imaginário que funciona, egoicamente, como ícone da idolatria perversa. Dito de outra forma, deveríamos era abrir mão dos "conselhos das Cassandras" e dos "moralistas de plantão" que vêem, de forma míope, este filme como sendo apenas uma mera manifestação ficcional da violência, que lá, sem duvida, é retratada, e, poder vê-lo, principalmente, como a manifestação cênica e ficcional da perversão requerida pela lógica dos "vencedores" ("Winners") dos tempos de hoje.

       Concluindo, ali, sem dúvida, se retrata e ilustra, exemplarmente, o fato de que a idolatria perversa tem apenas acolhido egoicamente, isto é, por imagem e semelhança, uma estética midiática do "vencedor", deste "vencedor" "neo-yuppie", como sinônimo, inclusive, de sobrevivência na nossa nova "lei do mais forte". Este dito "darwinismo", social, que é, de fato, splengeriano, não passa de uma metáfora do novo lema que é indissociável de nossa "pós-modernidade" globalizada. Pois, sua nova postura performática coloca-se para além da agressividade, para além do poder, uma vez que, paradoxalmente, sempre os justifica, já que se inscreverá, perenemente, não mais como um sinal místico, não mais como um signo mercadológico do espetáculo da modernidade, e sim como um emblema que irá fazer parte, como um novo brazão, dos escudos destes cavaleiros de uma nova távola,cuja catedral, nada gótica, está em "wall street" e no dito mercado global; e se presentifica em seus "cartões de visita" . Alí não havia mais o dístico gótico-cristão: "com este sinal vencerás", e sim a dualidade: IMPUNIDADE/ IMUNIDADE, que é um novo ícone do lema: vitória /sobrevivência, no lugar da outrora razão e sensibilidade.

       Em síntese, nesta selva da mídia e do consumo, não temos mais lanças e sim "cartões de crédito", não há mais brazões e sim "cartões de visita", onde sempre se lerá: IM(P)UNIDADE.


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
coojornal@coojornal.com.br