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Opinião Acadêmica


Opinião Acadêmica

A UNIVERSITARIZAÇÃO DA PSICANÁLISE EM QUESTÃO

Antônio Sergio Mendonça


Texto preparado para o evento: Comemoração do centenário de nascimento de Jacques Lacan:a questão da formação dos analistas, promovido pela Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro em 6 e 7 de outubro de 2001


       O livro "Moisés e o Monoteísmo" de Freud tem guardado uma profunda relação com o romance-ensaio. Não nos podemos esquecer de que foi Thomas Mann um dos autores que, neste tipo de produto ficcional, apoiou a argumentação de Freud, juntamente com o grande sociólogo das religiões ancorado em Weimar que foi Max Weber, a favor da existência ficcional e de fato do Moisés egípcio. Sabe-se, também, que, do ponto de vista do pensamento de Lacan, este texto foi fundamental tanto para o resgate conceitual da concepção freudiana de Édipo (seu tema constante), quanto para a reconfiguração lacaniana do conceito, se nos ativermos ao "Édipo, Moisés e o mestre castrado" exposto em "O avesso da Psicanálise".

       Contudo, recentemente uma nova atribuição é feita a Freud em termos de romance-ensaio, pois vem à baila um possível (e compatível com o texto já publicado de Freud) último capítulo (até, então, desconhecido) de seu "Moisés". Este dito "último e provável capítulo do Moisés" freudiano tem a sua suposição de existência abonada, apesar de ignorado Ana Freud, pelo hoje reiteradamente sensacionalista "Arquivos Freud" e é de lavra universitária "Novayorquina" tão a gosto de EASTON BRET ELLIS... Sendo de lavra, enfim, "made in USA", estamos diante do mesmo posicionamento que permanentemente vem tentando diluir o saber inconsciente próprio da Psicanálise. Foi esta mesma lavra a confrontada por Lacan, nos anos 50 e 60 do século passado, com a teoria do Ego nele emanada do Hegel de Jena e de Freud de "A Introdução ao Narcisismo". E o foi para que ali ficasse patente o seu obscurantismo pedagógico, pragmático e universitário.

       Contudo, este "novo e complementar" romance-ensaio atribuído à autoria freudiana nos conduz a um mal entendido observado a partir da semântica de seu título, produz um equívoco, ao menos em sua versão em língua portuguesa, embora possa parecer aos mais incautos como se fora uma equivocação. - Porque a megalomania de Freud?(1). Se fosse em, no pensamento de, Freud, tudo bem! Como ousar em apropriação indébita que lembra a prática do "delírio interpretativo" sugerir a adoção da parte de Freud, seja por abonar, seja para expressar, de um procedimento megalômano? Só se for produto de uma séria crise de amnésia que olvidasse o fato do que foi simplesmente a razão de ser de sua obra, ela nos remetia sempre, como evitação ilusória do mal-estar, ao obrigatório caráter paranóico tanto do ensinar quanto do governar, assim como do delírio interpretativo, o que foi exaustivamente destacado por Lacan no discurso de Roma.

       Como ousar, se não a partir de simulação de leituras pseudo-bibliófilas sem qualquer incidência transferencial, sugerir qualquer tendência foraclusiva (de caráter psicótico) justamente em relação a que nos legou o dito que a psicanálise só avançaria, quando transferencialmente posta, onde a paranóia fracassasse? E quanto à referência conceitual à megalomania em seu pensamento, seja como constatação de morfose adquirida no e pelo "delírio homossexual", seja como presença temática, ela nos parece óbvia, bastando para tal, que se confrontem entre si a suas reflexões alocadas no "Mal-Estar", na "Psicologia das Massas" (principalmente quando referente à figura foraclusiva do líder), e o agora "conhecido" e suposto capítulo final do "Moisés" e, sobretudo, o presidente Schreber.

       E este dito "último capítulo", escrito possivelmente nos anos 30, mas só agora revelado, não impediu que, mesmo antes de sua "revelação", este tema já tivesse sido abordado, no mesmo sentido, pela obra de Lacan, bastando que se consulte o seu "A Agressividade em Psicanálise" nos ESCRITOS (1966). Mas, ainda não contente com isto a diluição universitário-ficcional norte-americana apresenta-nos, ou pretende faze-lo, como um último "líder" da Psicanálise, o único a assim se auto-reconhecer autocriticamente em seus anos derradeiros. Ora, esta suposição atributiva não tem sustentação na semântica dominante no texto freudiano, pois se levada ao pé da letra iria significar, paradoxalmente, que a Psicanálise por ser uma anti-paranóia, necessitaria de uma "líder megalômano"para avançar... Menos, por favor. Na realidade trata-se de uma nada sutil interpretação mal direcionada de seu texto, da adulteração e do assassinato cultural de sua obra. E ele bem que já nos advertira que a deformação de um texto sempre equivaleria a um assassinato... Mas, "falando sério", preliminarmente, "líder" e/ ou "guru", se preferirem, é "surto midiático" da verve dos "paulos coelhos" da vida; jamais foi autoria da própria palavra, mestria. Pois mestria é, no mínimo, além da citada autoria da própria palavra, a articulação entre o acéfalo saber do ICS e o também acéfalo saber inerente ao gozo do mestre, quem, por acaso, duvidar consulte o texto literal de Lacan. Logo, "líder" não é analista, sequer mestre, é fruição megalômana. E Sigmund Freud ao verificar e premunir que, possivelmente, discípulos ou o seguiriam apenas repetindo literalmente a sua novidade teórico-clínico, ou se confrontariam, por vezes negando-a, embora com isso quase sempre se afastassem de duas de suas questões fundamentais: o ICS e a transferência. Com isso ele parecia prever os futuros "descaminhos" e a origem da tão insistente e suposta crise atual da transmissão do saber ICS, da Psicanálise, enfim.

       Todavia, o caminho conceitual de sua obra não é, por exemplo, literalmente trilhado ou mesmo, em suas linhas gerais, contestado por Melanie Klein, e se o foi, tal fato deu-se apenas implicitamente quando da proposição de uma teoria objetal e egoíca que se apoiava na fusão entre o super-ego e o masoquismo moral, nela não havendo, pois, lugar para o freudiano: "Wo es War". E tudo isto sem falarmos na obra de Jacques Lacan(2) que, após te-lo retomado e compatibilizado seu "fio da meada" com a questão da linguagem vista como pré-condicional ao ICS na sua opção científica pelo classicismo quinhentista de Galileu, o reconfigurou ao propor o campo matêmico de seu pensamento como sendo o do goza, restando, a seu juízo, ao mestre de Viena, apenas a fundação de um campo conceitual.

       Talvez, e já que todos o fazem, façamos a nossa própria ficção, se Freud, ao receber, em mãos, a tese de doutoramento de Lacan, não fosse impelido, possivelmente pela intriga, a responder com algo mais que um simples cartão de agradecimento rasurado, a história do pensamento Psicanalítico talvez fosse outra, mas não nos esqueçamos, e Lacan disso nos advertiu em "O Momento de Concluir", de que o caminho freudiano para a fundação da Psicanálise fora trágico, e que o de Lacan para reconfigurá-la, era cômico, na esteira de Aristófanes, Genet e Kojève (Hegel), embora ambos fossem, em termos aristotélicos, dramáticos.

       Então, como dizíamos, o argumento (de que o "megalômano" Freud, por ser de psicanálise o texto original, seria o seu "único e provável líder", e isto por restar aos demais apenas seguí-lo e/ou confrontá-lo, parecendo-lhes impossível a aposição e produção de um significante novo) carece basicamente de consistência argumentativa. E isto porque qualquer ilusão de liderança social, principalmente por "direito natural" e/ou "identificatório" esbarraria no texto freudiano, por anular o caráter simbólico das identificações e da transferência, na sua qualificação psicótica. E se a liderança é expressão natural de um "direito natural à prima vera", isto não é Freud, é o Kant com Sade, mais precisamente é o oposto da "Analise Leiga" que é o "livre arbítrio" kantiano, já identificado por Lacan, por diferença para com Antígona, nos termos foraclusivos do ideal de "bem supremo". Logo, se não é, nem quer ser um líder (social), se sua obra, portanto, ao ser reconfigurada por Lacan, se prestou a consolidar a psicanálise no século XX, como e porque insistir em querer vê-lo inserido no mesmo campo semântico da megalomania, se foi ele mesmo que já a denunciara quando presente nas ilusões delirantes inerentes ao governar, ao ensinar e ao psicanalisar? Se foi ele próprio que conotou o delírio de liderança como tal? E agora pergunta-se, com ênfase, a quem pode interessar esta tese "obscurantista"? Só se for ao pensamento universitário norte-americano que agora se "traveste" do bom-mocismo bibliófilo. E esta, infelizmente, não é a única incursão indébita do ideologismo próprio do discurso universitário em sua permanente tentativa de se apropriar e diluir a transmissão psicanalítica. Hoje, por exemplo,se sabe que, por um lado algumas instituições psicanalíticas incorporam possivelmente, "sans le savoir", "posturas" inerentes à burocratização do saber e da clínica tão caras à universidade, e que de outro, há , sem duvida,todo um movimento a favor do ensino de clínica, em suma, do ensino clínico da psicanálise nos cursos de pós-graduação das universidades, como se, em última análise, alguém pudesse vir a ocupar o lugar, o ofício e a suposição de saber do analista simplesmente, por ter, por exemplo, concluído o curso de Mestrado e/ou de Doutorado, ainda que dito em Teoria da Clínica Psicanalítica.

       Então, pergunta-se: como situar a questão da transferência diante do caráter perverso da burocratização do saber na universidade? Como, em suma, colocar ali, institucionalmente, as exigências teórico-clínicas de caráter transferencial pertinentes à tríade de uma formação psicanalítica: analise pessoal, formação conceitual e, sobretudo, a recomposição permanente da análise de resistência? E por melhor que fosse, e nem sempre é o caso, a transmissão dos "conteúdos" programáticos e temáticos da dita "teoria clínica", isto seria realmente suprido? E ainda que se argumente que os cursos não "prometem" tais coisas, quem, dentre nós, poderia, honestamente, afirmar que não "rola "este imaginário junto ao público-alvo dos cursos?

       Entretanto, tal constatação não quer dizer de modo algum que o ensino da psicanálise deva ser banido do ensino universitário(3) e sim de que lá se deveria encontrar o seu verdadeiro lugar, até porque Vincennes, Paris VII, foi, inclusive, autorizada pelo próprio Lacan. E , a nosso juízo,esse lugar estaria indicado na adoção curricular do necessário ensino de suas conexões e, sabe-se o muito que a psicanálise deve conceitualmente à estética, à semiologia, às artes dramáticas, à literatura (especificamente), à epistemologia (o que, no caso de Lacan, traz à cena Koyré e Kojéve), à filosofia,à linguística,às lógicas matemáticas,e,à topologia, o que justificaria, de saída, nosso ponto de vista. E isso teria o mérito de não manter viva a ilusão de se suprir o lugar, o papel e/ou a função transferencial da psicanálise por nenhum "canudo" e enfatizaria o compromisso de se revigorar conceitualmente o ensino e/ou a transmissão da psicanálise. Tal evento sempre deveria levar em conta a freudiana lição da histericização da ciência, a inferição maiêutica da platônica suposição de saber, cuja origem também nos remete ao Discurso Universitário, seja aos medievais TRIVIUM e QUADRIVIUM, que são nosso legado gótico, seja à pederastia própria da pedagogia ática em sua herança anti-prometaica e à experimentação quinhentista própria do espírito objetivo, bem como ao barroco e acéfalo sujeito do cogito cartesiano, isso apenas para darmos alguns exemplos.

       Foi isto o que tentamos transmitir nos anos 70,80 e 90 do século passado nos cursos de pós-graduação ( especialização, mestrado e doutorado) fosse na PUC /RJ fosse na UFRJ, na UERJ ou na UFF, onde estivemos e estávamos até março do corrente ano(4).


Notas

1- cf. ROSENFIELD, Israel. Megalomania de Freud. RJ, Cia. das Letras, 2001.

2- A dita "última palavra" de Freud foi, sem dúvida, prenunciado por sua obra derradeira, mas, de fato, foi-nos legada, paradoxalmente, pelo Lacan do Classicismo ao se colocar contra o que, então chamou de "a inoperância de Freud", produzindo, neste lugar, o resgate de seus quatro conceitos fundamentais.

3- É óbvio que esta apropriação indébita da psicanálise feita tanto pelo Discurso Universitário quanto por sua "verdade burocrática" está a contaminar, por vêzes, a própria forma de transmissão da psicanálise. Assistimos hoje um espécie de "revanche" da universidade, esta é a sua reação face à ameaça de desconstrução de seus saberes e disciplinas por parte da psicanálise. Todavia,dever-se-á evitar o avesso especular deste procedimento, que seria o absurdo de nos metermos a psicanalisar a universidade, "interpretando-a".

4- E, por fim, deveria provocar em todos uma certa estranheza o fato de que estes discentes ao invés de reconhecerem a impagabilidade da dívida simbólica, ou de pagarem qualquer valor imaginário por suas ánalises e formações, ainda disputam "bolsas", ou seja, ainda percebem imaginariamente recursos institucionais, e são, de fato, pagos para fazerem o arremedo de formação oferecido pela universidade.


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
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