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Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

TRIBUTO A ÁLVARO DE SÁ
E/OU
FOI PRECISO ESPANTAR PELA RADICALIDADE

Antônio Sergio Mendonça

1. Inovação

       O Poema-Processo é uma criação poética atenta à mentalidade e à "performance" do final dos anos 60 que se projetou, (no clima de 1968), no início dos anos 70. É, neste sentido, uma das respostas ao masoquismo cultural que diz ter sido esta década "um século de trevas". Foi uma alternativa poética, sem jamais ter sido "arte alternativa". Apostou na renovação dos "materiais", dito benjaminianamente "técnicas de expressão", avançando assim na suposição herdada do Futurismo Russo e tematizada pelo Formalismo (Russo) do estranhamento, distinguido, qual Jakobson que a incorporou,poesia de poema (poética).

       Investiu no receptor, ao contrário do textualismo que impregnava a critica (New Cristicism, Concretismo, Estilística, etc...) de então. E o fez ao propor a leitura, dita contra-estilo, como forma participativa do leitor,e esta arte da recepção, mais do que Iser e/ou Jauss, retomava Mukarovsky, este esteta tcheco fundador não só da semiologia literária, mas também da Estética da Recepção. Isto porque contrapunha e hiperdeterminava versão e contra-estilo, apontando para a distinção, tão cara a este esteta, entre texto (obra) e recepção / leitura do texto (obra-coisa). Foi apoiado pelo livro de Gilberto Mendonça Telles (Vanguardas na América Latina) e Poesia de Vanguarda no Brasil, Antares, de A.S. Mendonça e Álvaro de Sá, e, sobretudo, foi incluído como variante da, então, recente Poesia e Arte de Vanguarda Brasileira no vol. VI da coleção Poetas do Modernismo, editada pelo I.N.L., sob a Coordenação de Leodegário A. de Azevedo Filho, juntamente com os movimentos Práxis e Concretista. Na Universidade, em 1970,1971, e 1972, foi tema curricular (disciplina optativa/Comunicação e Literatura) do Curso de Comunicação da UFF; bem como tema dos cursos de graduação de Silviano Santiago e Gilberto Mendonça Telles na Letras da PUC/RJ.

2. Renovação dos Procedimentos

       Wladimir Dias-Pinno que com seu livro Processo: Linguagem e Comunicação (Vozes) solidificou uma "espécie de estética informal do movimento" lança a polêmica: "O Concretismo não passou da soleira". Com Isto retomava, ao avesso, o dito pelo ícone concretista: o poeta simbolista francês Mallarmée, autor de uma das melhores indicações de sublimação estética com sua categoria de "fracasso fálico", e ao invés de: "um poema não se faz com idéias e sim com palavras", já tínhamos "um poema não se faz com palavras e sim com idéias" e exemplifica sua tese nos projetos de Ave e Sólida contrapondo-o, sem dúvida, ao "jogo de dados" mallarmaico, Assim o significante poético não era mais apenas verbal, e, nem simplesmente abria espaço gráfico-visual no signo verbal, tratava-se de contrapor espaços ainda verbais no signo visual. E de novo faz-se a analogia com Jakobson: "é o significante que funda a palavra, e não apalavra que funda o significante". Levando-se esta conclusão um pouco mais longe temos o significante como letra (suporte material de caráter visual) da palavra poética, num "lacanismo intuicionista", pois de seus nomes principais como Álvaro de Sá, Neide Dias de Sá, Daillor Varela, Nei Leando de Castro, José Neunâme Pinto, Moacy Cime (ele e Álvaro introduziram o "gibi" visualmente na temática teórica e planificação visual do movimento), possivelmente, apenas o primeiro, tivesse do pensamento lacaneano, pois, estávamos em 1967 e este autor era, no Brasil, não só praticamente desconhecido, mas também, "misturado" com a "euforia estruturalista", alguma informação...

3. Surpresa

       A maior parte dos movimentos de vanguarda poética, e, alguns, até da vanguarda musical, reivindicavam parte da herança oswaldiana; tida, então como o mais radical traço modernista, principalmente, a Antropofagia. Os concretistas viam-no como predecessor, anterior a João Cabral de Mello Netto, da "palavra direta" que, com equivalência ao "estranhamento", embora abonado dentre outros por Sapir e Korzybski, e, eles praticavam. Eles que já se haviam apropriado do nome, "deletando" o concretismo do Rio de Janeiro de que participara Wladimir Dias-Pinto e tivera na Luta Corporal de Ferreira Gullar seu ponto de maior expressão, e, de Noigandress (termo importado, via poesia, de Arnaut Daniel) tornaram-se, a seu juízo, os únicos concretistas. Ligavam-se, no nível das mentalidades, a face formal do progressismo, juntamente com a Bossa-Nova, ficando a parte "ideológica" por conta do "reformismo político" e do esteticamente estalinista, porque realista socialista, CPC da UNE. Assim como os tropicalistas, que deles incorporaram Oswald / Antropófago, para poderem entender, na ocasião, o Pan-Sexualismo do Rei da Vela do grupo Oficina de José Celso Martinez Corrêa, são sua continuidade léxico-musical, (basta consultar o Balanço da Bossa do cronista Augusto de Campos), embora a isto aglutinassem a ingenuidade do "envenenamento da mídia", onde fundiam o Chacrinha e sua audiência, à Jovem Guarda e sua guitarra e cafonice e à tradição poético-instrumental da Bossa Nova; eram, também, um movimento, com raízes tanto na recém-fundada mentalidade dos anos 60, quanto no convulsionado 1968. E o poema-processo, de Oswald de Andrade toma dois exemplos: "a permanente renovação dos materiais poéticos" e a radicalidade. E aí surge o epíteto poético e "performático" "é preciso espantar pela radicalidade". Logo, via tempo Brasileiro, a crítica universitária reagia com o dito: "é preciso espantar pela criatividade". Só que em proposta poética o poema fundiu estes procedimentos, no sentido do esteta Mukarovsky, pois estavam sobredeterminados. Era só um lamento. Não pararia a repercussão do movimento. Mas as vanguardas "de movimentos": as históricas (do fim do século XIX: da simbólico-decadentista a dos anos 10 e 20), bem as dos anos 50,60 e 70, apostavam no talento coletivo, conquanto, a história e/ou a genealogia das formas poéticas já houvessem nos ensinado que Joyce: a santidade da Vanguarda, foi texto-solo. E ai, no "New Wave" anos 70 (2ª metade) e 80, Rita Lee (que já estivera ligada, via Mutantes, ao Tropicalismo) nos adverte do fim dos movimentos e inicio da era do talento solo. Alguns desavisados confundiram isto com "o fim das vanguardas" ou com a "apologia do Narcisismo". Deixa para lá: Navegar para uns (Pessoa) e delirar para outros é preciso, já viver não...

4. Mal-Entendido

       Boicotado pela mídia, pois há muito o SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil) deixara de existir e, o SOL foi uma efêmera tentativa de Reynaldo Jardim o, então, recente movimento, numa "performance" à la passeata, deglute "oswaldianamente" o Pão de Açúcar de cada dia do Escapulário recifense e rasga livros de autores consagrados tanto esteticamente importantes (Cabral, Bandeira), como outros nem tanto, numa ao mesmo tempo ousada e desesperada forma de romper o "bloqueio da mídia", e, contra a vanguarda sempre andaram de abraços dados as "ditaduras" e o "reformismo" e, surgiram condenações à esquerda e à direita. Surgiram também, analogias insidiosas com procedimentos nacional-socialistas e equívocos de gênero.

       Hoje, sentada a poeira do tempo, principalmente em relação a Bandeira e Cabral, o fato foi esteticamente um excesso, mas social e convencionalmente uma necessidade,já que o poema-processo germinou-se na "mentalidade à la 68" onde a agressividade como a hegeliana "lei do coração" ditava as paixões, contra as exclusões.

       Assim, ao contrario dos que hoje acham que 1968 não acabou... dissolveram o movimento, após "parada estratégica", por entenderem, possivelmente, ter sido superado o ciclo das "performances" e a era dos movimentos. Mas, foi importante, durou o que segundo Lacan duraria o parnaso e o estruturalismo: uma época literária; o que não quer dizer, em absoluto, que não tenham sido fecundos.


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
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