08/06/2002
Número - 262

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Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

POR QUE AINDA SE DEVE FALAR DA AGRESSIVIDADE EGÓICA?
(conferência, "Perversão & Enlace Social?", proferida na UCS, em 16/08/2001)

Antônio Sergio Mendonça


       Queria, preliminarmente, agradecer o convite que me foi dirigido pelo Curso de Serviço Social. Esta é a terceira vez que aqui venho convidado por este Curso. A primeira destas vezes foi em 1999, pela manhã, um pouco antes de ir para a Espanha. Estava de licença-prêmio, hoje licença-especial, e aproveitei-a para trabalhar em Cáceres (Congresso) e na Universidade de Granada. Porém, uma semana antes de ir, vim aqui em Caxias do Sul e falei sobre um tema que se articula com o de hoje; falava, na ocasião, sobre a Razão Cínica, que é uma forma social e discursiva de perversão, e a Identificação Imaginária. Mas hoje vamos falar, novamente, sobre a Identificação Imaginária, mas de um tipo que não mais vai se valer, se utilizar da Razão Cínica e sim fazer enlace com a agressividade egóica. Agradeço, portanto, a UCS e a seu Curso de Serviço Social pela acolhida. Hoje, pela manhã, dei, a este respeito, uma entrevista na televisão da Universidade e à tarde participei de um "bate-papo" extremamente agradável na rádio da Universidade, ambos sobre a questão da agressividade egóica.

       Pois bem, a primeira questão que vamos colocar, após estes agradecimentos, é por que existe a Psicanálise Extensiva? Pois isto que pretendemos expor aqui tem tudo a ver com a Psicanálise Extensiva. Da Psicanálise Intensiva ouve-se falar todo dia e a confundem com a própria Psicanálise em seu modo de ser fenomenológico: é a Psicanálise de gabinete, é a Psicanálise de divã. Já a Psicanálise Extensiva responde, seja do ponto de vista do ensino, seja do ponto de vista da clínica, pela intervenção e presentificação da Psicanálise na cultura. Assim, quando Freud escreveu Moisés e o Monoteísmo, isto não só já era um esforço de interpretação com vistas à redefinição de sua clínica questão edípica, mas também era um texto que pretendia interpretar a cultura judaica, de forma herética, assentando ali as bases de sua (Freud) complementação em relação à teoria grega do Édipo. Isto fica mais óbvio ainda, quando nos apresenta o tema da Sublimação em Leonardo da Vinci. Mas foi Lacan que nos brindou com a categoria de Psicanálise Extensiva, embora ela, sem dúvida, tenha tido suas bases lançadas nos textos freudianos denominados de: a) A Análise Leiga; b) O Mal-Estar na Civilização; c) O Futuro de uma Ilusão e, sobretudo, por fazer laço com o tema das identificações: A Psicologia das Massas e Análise do Ego. Para Freud, a possibilidade de se analisar, de conhecer, de forma competente, o Imaginário de uma sociedade nos remete, sobretudo, à questão egóica, isto é, às formas de comparecimento do ego na sociedade. Lacan retoma esta perspectiva, também nestas duas direções, seja o do enlace social, seja o da clínica intensiva, quando estuda o ego como fonte de toda e qualquer agressividade nos seus Escritos. Então, isto nos coloca, de forma explícita, a importância da questão egóica, que começa pela não substituição desta palavra, em língua portuguesa, pelo pronome (ora substantivado) Eu, pessoal do caso reto. Na língua de Camões a palavra ego é um substantivo (próprio e/ou comum) masculino, singular e está dicionarizada, bastando, para tal, que se consulte tanto o novíssimo Dicionário Houaiss, quanto o Dicionário Enciclopédico Koogan/Houaiss. É uma palavra com derivação diacrônica regular, cuja genealogia nos remete ao clássico latim de Roma e que atravessa o latim medieval, clérigo, dito vulgar e também o latim novilatino do século XVI. Do ponto de vista da norma culta, de seu registro lingüístico oriundo do campo semântico da filosofia, será a língua alemã, através deste já citado registro lingüístico-conceitual de norma culta, que irá incorporá-la no nível categorial. Foi o pensamento de Kant que assim o procedeu. Dali foi transmitido, em sua acepção conceitual, relativa ao sujeito, por Fichte, conforme se queira, neo ou pós-kantiano, que fez e/ou estabeleceu um elo de ligação entre a incorporação feita pelo autor da Comunidade Humana e a pré-romântica e romântica filosofia clássica alemã. Vale dizer, entre o espírito de Weimar e o espírito de Jena. Isto porque, tanto o latim, como o alemão apresentam uma nítida distinção entre o nominativo quando masculino e quando neutro. O id freudiano, que é o isto latino, bem o demonstra. Então, via Fichte, esta acepção chega a Hegel, a seu "ego-desejado" tão bem destacado por Kojève em sua Antropologia do Desejo. Assim, este Hegel ("jovem") o incorpora, em seu pensamento, à temática da alienação, própria desta filosofia clássica alemã. Esta semântica será encontrada no romântico Goethe, de onde Freud, motivado por sua idéia de natureza, diz ter sido levado por ela à cogitação da Psicanálise. Assim sendo, Freud, austríaco de nascimento mas cultor deste tipo de visão de mundo, vai apresentar, em sua obra, o equivalente alemão ao termo latino. Em Freud, o termo Ich, masculino, verte o ego latino com propriedade, inclusive, de caso (nominativo), e é o que encontramos na expressão quando corretamente traduzida, evitando o percurso alemão-francês-português: "Wo Es war, soll Ich werden", ou seja, "Onde for suposto o Id (era), lá estará o ego (que venha)". Já a palavra Je, que aparece na versão francesa no Estádio do Espelho, parece indicar a versão de ego por Eu. Mas, não, em língua portuguesa. Senão vejamos: o Je, para Lacan, é o sujeito do Ics, refratário e distinto da imagem Imaginária e consistente (substantiva) própria do ego, que em seu caráter de miragem seria melhor designado por moi. Até porque, na expressão comum da língua francesa, diz-se, costumeiramente: "moi, qui parle". Mas, voltando-se à língua de Camões, o Je, enquanto eu, é pronominal e o pronome é um significante locativo por excelência, cabendo ao substantivo, aí sim, a indicação de substância e/ou consistência. Sabe-se que só se deve criar a substantivação de uma palavra, pronominal na origem, se já não houver outra incorporada, com tal acepção, na deriva da língua. Acontece que há, pois está, historicamente referendada, a palavra ego, que foi assimilada regularmente e é portadora das desinências número-pessoais próprias da morfo-sintaxe portuguesa. E agora pergunta-se, para que substantivar o pronome eu para indicar o que já está contido semanticamente no substantivo ego, de clássica origem latina? Isto seria recomendável apenas se o pronome eu, que ridiculamente torna-se supereu, quando relativo, por falsa equivalência, ao termo superego, demonstrasse a mesma precisão conceitual da palavra ego. E aí a coisa piora. Sabe-se ou dever-se-ia saber que o ego é, por Lacan, no Estádio do Espelho, formatado por uma "gestalt" especular e unária, sendo fruto conceitual da fusão entre a consciência de si hegeliana, própria do sujeito humano em sua relação com o ego-desejado (conforme Kojève) e o ego, de acordo com a Introdução ao Narcisismo freudiana, ali designando a função egóica do narcisismo secundário (1914) e não o ego ics da segunda tópica de 1915. Sendo assim, significa a identificação imaginária, na forma de substância, por consistência, existente entre a imagem do sujeito e a de outrem, onde ambos são imaginariamente objetificados por semelhança.

       E não nos podemos esquecer que Freud, por se valer da expressão sintático-semântica de língua alemã, ao se referir ao mítico id, usa o neutro, usa Es, assim como quando se referiu ao nominativo masculino e singular, ao ego, usou a forma Ich.

       No Brasil, sempre dizemos que "santo de casa não faz milagre", mas, se nós observarmos o que é estudado nos cursos de pós-graduação do Rio de Janeiro, vamos encontrar,por exemplo, no curso de "Comunicação, Imagem e Informação" da UFF, a disciplina: Psicanálise e Discurso estudando a questão social da análise do ego. Também, se formos ao curso de Psicologia Social da UERJ, e observarmos a cadeira: Inconsciente e Subjetividade, lá também foi estudado, no ano 2000, quando ali lecionava, a questão da análise do ego. Também na UCS, desde o ano 2000, há uma cadeira, acredito que de graduação, dedicada ao estudo do ego, só que do pontp de vista estrito de suas formas de presentificação no social. Então, talvez tenha sido isto o que motivou este departamento a me convidar por uma segunda vez, na suposição de que eu seja um especialista no assunto, pois além de ter ministrado as duas disciplinas citadas (UFF e UERJ), também consegui orientar, e digo consegui porque a carência bibliográfica criava-me um certo problema, principalmente, quando transportada da questão clínica para o ângulo social. Mas, mesmo assim, consegui orientar uma dissertação sobre o programa do Ratinho que tinha o mérito de, a partir de uma adequada configuração da questão egóica, acabar com o preconceito intelectualista existente sobre este tema. O programa do Ratinho é competente em sua estratégia de marketing e inteligente ("smart") quando se coloca, a partir de seu personagem central, fazendo a intermediação, que é detectada do ponto de vista da recepção, entre o seu público-alvo e a desassistência social que lhes afeta. Este público-alvo, que são as classes populares, aquelas que o jargão sociológico adora chamar de povo, ou será que eles não o definem mais como o conjunto das classes populares?, e vem ocupar, por ficção, o lugar de desassistido na retórica verbivocovisual deste programa. E o jornalista Massa se investe do personagem de ficção Ratinho e vem ocupar, também por ficção, para o Imaginário de seu público, este espaço social deixado em aberto no mundo globalizado, onde, como sinônimo de modernidade, o governo brasileiro, por exemplo, decidiu encurtar, em nome da estabilidade financeira, a função social do Estado. Isto não só abriu espaço para a criminalidade, mas também, para que esta população socialmente desassistida solicitasse um mediador, no lugar do único que veicula, na função estratégica da mídia, a voz do vencido e não o ódio ao vencido como parece valer no Imaginário de Wall Street conforme Bret Easton Ellis. Lá, o vencido devia morrer, que é o que acontece ao mendigo no final Psycho American. Já o Ratinho se coloca, inteligentemente, como o que faz a mediação entre o mundo do "vencido" e a inoperância do mundo oficial. Ocupa, no significante rasurado da memória brasileira, que é um significante deixado em aberto, vide o getulismo, e não foi à toa que o Sr. Presidente da República, numa pseudo-polêmica com o sociólogo Betinho, assim supôs. Porém, na realidade, o que foi "morto", apagado, foi este significante e toda vez que se toma um significante pelo outro temos o espaço da impostura. E assim, os vencidos, não reconhecendo quem fale por eles, participam do psicodrama do Ratinho, que obtém cerca de 40% de audiência, o que significa que é visto e consumido por todas as categorias sociais. E a possibilidade de se "ler" o Ratinho sem preconceitos intelectualistas, que têm remetido apenas à falência mental da universidade, quando, por adotá-los, esta não consegue senão ficar repetindo seus eternos clichês de ideologia sócio-antropológica, nos remete à necessidade de se dar conta do porquê aquele programa, gênero "mundo cão", agrada tanto as classes populares. E em vez de se colocar no lugar moralista de porta-voz de juízo de atribuição, deveríamos evitar, e seu público, o povão, se dá conta disto, julgar, moralmente, o Ratinho, pois estaremos julgando, denegatoriamente, é quem gosta dele, e assim, manifestando o nosso preconceito elitista. A dissertação mencionada é de autoria do professor Clayton e foi defendida na UFF. Portanto, esta questão egóica é uma questão extremamente interessante, já que ela nos permite revisitar o tecido dos discursos sociais, os fenômenos sociais, sem ficar repetindo, seqüencialmente, aquele "bom-mocismo" sócio-ideológico que, desde os anos 60, pouco acrescentou ao conhecimento científico. E para compensar uma suposta "derrota" econômica para o capitalismo, invocam, de uma vez por todas, a impotência como álibi e optam pelo culto masoquista à visão melancólica da sociedade que herdaram dos frankfurtianos. Então, nos parece que responder a isto, nos remete à necessidade de nos darmos conta de como é possível ver-se ilustrado o Imaginário social na questão egóica. Outro exemplo disto é reconhecê-lo no filme que ilustra o Imaginário implícito do e no segmento mais valorizado de nossa sociedade, ou seja, na elite econômica de Wall Street. Pois é este o leit-motiv e cenário de um filme onde as corretoras bem-sucedidas criam a nova nobreza deste capitalismo pós-industrial e globalizado (cf. "Psycho American"). E não poderemos nos dar conta disto fazendo uma leitura tipo "interpretativa" e/ou literária do filme, pois estaremos vendo este filme como algo que ilustra o modo de ser Imaginário desta sociedade, o modo de ser de fato, e não aquele disfarçado por qualquer Imaginário que recorra à retórica do "bom-mocismo". Teremos, então, o culto ao "vencedor" sem disfarce, sem os supostos disfarces "éticos" daquele Imaginário e assim se explicitará, em seus momentos decisórios, a retórica da supremacia. Isto está óbvio na entrega do Oscar: "o vencedor é"... , a ele e somente a ele será dado o reconhecimento e o direito à vida, o que contrasta com o nosso Machado de Assis, que preferia dizer: "ao vencedor, as batatas"... Mas, para nos darmos conta disto, deveremos evitar o psicanalisar, ou como Freud nos advertiu: o delírio interpretativo, e sair por aí interpretando personagem como se fosse cliente, é da ordem da megalomania, é da ordem de se suturar uma impossibilidade freudiana. Para não fazer isto veremos de que modo a Psicanálise tem lidado com a arte, de que modo ela se relacionou com a arte. A Psicanálise nunca se deteve a interpretar a arte, falamos da Psicanálise competente, pois Freud não tinha o menor interesse pela idéia de Belo, esta questão era platônica e kantiana. Em momentos sucessivos, Freud e Lacan se darão conta daquilo que a arte poderia emprestar à Psicanálise. Então, em vez de psicanalisarem a arte, reconheceram que a arte foi um manancial inesgotável de conceitos psicanalíticos, inclusive clínicos. O conceito de Sublimação em Freud, por exemplo, nasce de sua leitura de Leonardo da Vinci. O conceito de Sublimação, se continuarmos nesta linha, de fantasma, no sentido de fantasia fundamental em Freud, nasceu da observação que fez do romance Gradiva de Jensen. O matema do fantasma fundamental da obsessão, por sua vez, nasceu da observação feita por Lacan sobre Hamlet em seu seminário O Desejo e sua Interpretação, que foi por ele denominado de A Tragédia do Desejo. Já a possibilidade de se produzir um sintoma, por artifício e provocar alguma recomposição da questão da paternidade na psicose, Lacan a ilustrará quando for estudar o que ele chamou de Symptôme (Sintoma Santificado), identificado na "obra-em-progresso" de Joyce. Mas quando Lacan vai estudar a heterossexualidade e defini-la como o discurso e o ato dos "que amam as mulheres", do ponto de vista do sintoma, isto vai reconfigurar o Édipo para Lacan como uma síntese entre o Édipo grego, o Moisés de Freud e o Mestre Castrado hegeliano. Porém, esta mesma heterossexualidade, se vista do ponto de vista da fantasia das mulheres, vai-se configurar e se espelhar no Don Juan, que foi uma composição literária ibero-barroca do frade Tirso de Molina, vulgo Gabriel Telles.

       Todavia, quando Lacan vai estudar a questão da identifidade fantasmática, isto do ponto de vista estrutural, entre a fobia e o fetichismo, vai-se espelhar em Hans. Então, começamos a perceber que, com exceção do último exemplo, a arte tem, sistematicamente, servido à Psicanálise, sejam as artes dramáticas, as cênicas, as pictóricas ou as literárias. E, também, para permitir que o pensamento psicanalítico visse, ali ilustrados, alguns dos seus principais conceitos, no tocante à perversão, Lacan pretendeu dar conta do bordel genetiano, em que se transformara a sociedade que lhe foi contemporânea e, para isto, viu lá implícito, o predomínio maníaco, inclusive da sexualidade. Tratava-se da introdução que fez ao O Balcão, de Genet.

       Logo, o que estamos fazendo não é sequer novidade, do ponto de vista epistemológico. Por isto não vamos nos deter a interpretar o filme, já que tal procedimento revelaria falta de intimidade com o saber psicanalítico. Iremos é ver, neste filme, uma invulgar oportunidade de ser ali ilustrado o modo de comparecimento da perversão, modo este que é aparentemente implícito nos focos mais avançados das sociedades ditas pós-industriais, que são: o cenário urbano e a elite econômica. O filme citado, como sabemos, nasce de um romance vitorioso de Bret Easton Ellis. E aí, já nos deparamos com aquela "mixórdia psicológica" tão cara ao pensamento norte-americano. Ali, um "delirante de plantão" queria "convencer" a diretora do filme e seus receptores, que o "pobre" do Bret escreveu este livro desta forma porque tinha tido um pai alcoólatra. Até entendo que se responda, em termos clínico-intensivos, com a nomeação da agressividade, ao fato de se ter tido um pai alcoólatra. Agora, do ponto de vista sublimatório da escrita, é um pouco demais... E aí pergunta-se: por que em Wall Street? Por que num cenário "neo-yuppie"? Na realidade, não nos podemos deixar impressionar pela retomada constante do simplismo e da mesmice. Além do que, isto manifesta o pensamento psicopedagógico em seus piores e mais censórios aspectos. A partir de argumentos psicologistas como o mencionado, irão achar, por exemplo, que filmes como este deveriam ser evitados por estimularem o culto à violência. Então, os espectadores recebem o lugar pavloviano de "débeis mentais", porque, a partir daí, não custa chegar-se à conclusão de que se não houvesse filmes como esse, esta sociedade não apresentaria tal Imaginário perverso, e não o contrário, como de fato se dá. Os espectadores não são tão sugestionáveis quanto o "cão de Pavlov", e a não ser uma minoria que esteja marcada por questões foraclusivas de efeito perverso, não nos parece que irão sair por aí repetindo em ato, tal e qual o personagem de Táxi Driver, o que o filme sugere. Ou, então, que sem o filme a violência, por um ato de "beatitude" extremo, não existiria. Será este tipo de pensamento que fará da manifestação artística um bode expiatório da violência social e isto o novo filósofo André Glucksman chamou de metacensura. Ali, referindo-se à mídia, especificamente aos efeitos das cenas de violência, lembrava-nos que isto remetia às causas sociais da agressividade, que seriam assim dissimuladas, o que nos lembra que este papel de supremacia da mídia a que nos acostumamos, desde que se estruturou, a partir da função do jornal, por isto chamado por Hegel de "a oração diária do homem moderno", é fundamental como pólo de hegemonia na sociedade pós-industrial. Portanto, parece-me que, conforme aquele "censor delirante de plantão", deveríamos nos descartar da mensagem agressiva deste filme, e para tal, o bom seria é que simplesmente deixássemos de vê-lo. Na verdade, ali se cultua e retrata, sem dúvida, a agressividade, a questão é saber por quê? E assim, nos iremos deparar, novamente, com a lição contida nas referências existentes no pensamento de Lacan, ao O Balcão de Genet. Lacan refere-se ao O Balcão como uma forma de ilustração do "bordel" em que se tinha transformado a sociedade que lhe era contemporânea, na medida em que a política, ali, tornara-se um exercício de cinismo e de traição em prejuízo de seus nobres ideais sempre alegados. Tanto ali, como no filme comentado, encontramo-nos diante, de modo figurado, do Kant com Sade, no filme, em versão multimídia, já que intersecciona texto/som/imagem. O Kant com Sade é uma reflexão de Lacan onde se destaca a questão do sujeito do prazer, que é indissociavelmente vinculado a uma questão paranóico-perversa. No primeiro caso, supõe-se colocar a virtude e/ou a honra (das Gute/Bem-Supremo) no lugar do gozo, e no último caso, ali se aloca o prazer. Com isto se mostra que, do ponto de vista da moralidade natural, Sade é o avesso de Kant e qualquer semelhança com o fato de que, neste filme, o que nos é (de fato) ensinado, é que a prerrogativa da impunidade é um direito social dos que têm a prerrogativa da imunidade como direito natural. Por fim, quando Lacan vai estudar o Amor-Cortês, nos chamará a atenção de que o problema não estava em se dizer o óbvio, ou seja, que o Amor-Cortês era ligado a formas de desenvolvimento social e/ou sócio-econômicas medievais, e sim, precisava-se ver nele uma oportunidade exemplar de ali se demonstrar a existência, naquele período, da fealidade como uma forma de Discurso do Mestre em que este lugar era da dama, sujeita do amor, no sentido mais servil do termo. Isto porque o discurso do Amor-Cortês propiciava, numa sociedade em que esta mesma "dama" era sexualmente tratada, salvo exceções literárias, da forma mais repressiva possível, a disseminação de uma fantasia existente na ficção que, para dissimular tal fato, a fazia: sujeita do amor. E jamais nos daríamos conta disto fazendo análise de conteúdo da ideologia do sistema econômico medieval ou estudando aparentes causas históricas remetentes à historiografia e não ao deciframento do aspecto lendário da mentalidade românica e gótica. Voltando-se ao filme, foi algo como isto que me despertou a atenção de que não poderíamos ficar como uma "Cassandra grega", vendo-o como mero anúncio da degradação dos costumes, porque isto é óbvio. Desconfiem sempre do moralista, do reformador, do misantropo e, principalmente, dos políticos e pedagogos que se investem destes álibis porque, na maior parte das vezes, as perversões tendem a se esconder sob estes álibis "psicóticos" da honra e da moral, e não precisamos ficar, para isto, surpresos diante do sacrifício em nome da causa homossexual perpretado por Mishima. Então, pode-se ficar fazendo isto, ou pode-se também, inteligente e conceitualmente, ver neste filme uma excelente oportunidade de se discutir as relações entre o ego e a agressividade, como o fez Lacan, nos Escritos, em 1966; e mais do que isto, se dar conta de como essas relações (entre o ego e a agressividade), já que, para Lacan, o ego é a fonte de toda e qualquer agressividade, estarão presentes, em suas formas de ser contemporâneas. Não podemos negar que a diretora do filme, Mary Harron, foi brilhante na apropriação roteirizada do romance, onde demonstrou que, mais do que ocultar um pai bêbado, tratava-se de um libelo contra a sociedade de consumo. Por isto, no texto do trabalho que vos apresento (MENDONÇA, A. S. Impunidade/imunidade, eis o lema do "Frankenstein" pós-moderno. In... www.riototal.com.br/coojornal/antoniosergio006.htm, nº218), aproveito-me do próprio marketing do filme, que nos diz ser o personagem Patrick uma espécie de "Frankenstein pós-moderno", "Frankenstein da era pós-industrial". Mas por que dizem isto? Porque ele é uma versão bem-sucedida dos Intocáveis. Os iniciais Intocáveis se referiam aos Estados Unidos da Lei Seca e eram os homens do FBI. Mas, naquela época, por muito tempo, os verdadeiros Intocáveis eram os mafiosos, porém, os corretores mostrados no filme é que são a nova "máfia neo-yuppie", elegantes como manda o figurino e não mais uma máfia "carcamana". Eles não precisam mandar matar ninguém, não precisam construir edifícios em Chicago e colocar suas vítimas acimentadas nos pólos de sustentação dos prédios. E por quê? Porque eles se comportam, dissimuladamente, como se fossem uma "nova nobreza". A nobreza, de fato, sempre se deu a prerrogativa da imunidade, que era ali um dom divino, que atravessou duas escritas: a medieval e a do absolutismo. E essa prerrogativa, este direito natural, constituía-se num falso livre-arbítrio e não passava de um exercício de reconhecimento ao direito natural à impunidade, e isto como conseqüência de um outro direito natural: a imunidade divina. Assim, em nossa época, o nosso personagem Patrick acredita possuir um direito natural a agredir, já que vai, na maior parte do tempo, reivindicar e se deparar com o fato de que este direito natural à imunidade lhe dá um direito social à impunidade, que é a o seu "delírio". E quando é que manifesta a sua dimensão egóica? No filme ela é até caricatural. A crítica de jornal diz ser o filme uma sátira, mas não é uma sátira, é uma paródia, é um texto que, por conter outro, torna a parte contida assimilada, sem efeito. Se fosse sátira provocaria a "corrosão" pelo humor, pelo riso. Mas quem conseguir rir, neste filme, se candidata a ser um caso, também, de "patologia americana", ou então, não passará de um "neurótico", sem graça, que ri de nervoso, por ação da Versagung... Mas, de qualquer maneira, esta forma de paródia que o filme escolha intencionalmente, vai-nos mostrar a dimensão egóica do personagem de forma caricaturada, de tal forma que, impregnada pelo delírio de Lasch, certa "bobajada" atualmente disseminada na universidade e na mídia, chamaria de "narcisismo contemporâneo". Na realidade, sabe-se que uma das dimensões do narcisismo é o narcisismo egóico, é só ter lido Introdução ao Narcisismo do Freud de 1914. O ego, que em Freud, está, também exposto em Psicologia das Massas e Análise do Ego (pois não há como fazer a dita "psicologia das massas", sem fazer a correspondente análise do ego), este ego não é o ego inconsciente, é o objetal de Introdução ao Narcisismo. Trata-se daquele tipo de ego capaz de produzir um efeito identificatório e imagético. Esta identificação de "ego-a-ego", dita por Lacan identificação egóica e/ou imaginária, é aquela em que os dois identificados se tomam como uma única imagem. É a identificação ao semelhante. É esta identificação que se estrutura, para Lacan, na resolução de O Estádio do Espelho, dita Formação do Ego. Ela é diversa, por sua vez, do caráter egóico/imaginário do inconsciente, na forma como é exposto, desde Freud, em O Ego e o Id. Trata-se da singularidade do duplo na forma de Unheimlich e não da duplicidade egóica, especular, que reduz a alteridade à semelhança. Pois bem, tal evento é caricatural no filme, já que lá aparece o nosso Frankenstein (Patrick) na frente de seu espelho fazendo um culto estapafúrdio e caricatural do próprio corpo. Mas, na realidade, a dimensão egóica descrita, mesmo no filme, é aparente. A verdadeira dimensão egóica em questão é a que se quer ver refletida no duplo especular de sua imunidade, que é sua impunidade. Ali o personagem se autoriza a especularizá-la por delírio. Deste modo, toda vez que não vê refletida sua imunidade lança mão de sua agressividade, apostando em sua impunidade. Não consegue vê-la, por exemplo, diante dos "vencidos" e isto o leva a um assassinato aparentemente imotivado do mendigo, pois ali ou se é um "vencido" ou se é um "vencedor" que merece o Oscar. E assim o são porque representam na nossa "nova moral" todo um contexto de dimensão cínica, mas no que se refere a ele mesmo, tem-se a dimensão própria do culto maníaco ao consumo e à sobrevivência. Vale tudo pela nova lei da sobrevivência, e isto que parece ser um "darwinismo social" significa que ao vencedor é permitido tudo, já que sobrevive à "seleção natural" entre os humanos, e a perversão é óbvia. Perversão é colocar-se acima da Lei do Pai, cuja referência é a lei divina de Antígona contra a tirania. Mas ali a própria lei jurídica é escamoteada de um modo perversista, pois todos, menos Patrick, são iguais perante a lei. Daí a relação conflituosa que tem com o advogado, que nos remete ao fato de sua dimensão agressiva ser provocada quando o personagem não consegue ver refletida na sua imagem a sua suposta supremacia que é ditada conforme os critérios de semelhança daquele ritual egóico. Assim, ao encontrar alguém que se sobressaia mais do que ele neste ritual egóico, onde o cartão de visitas, era o novo brasão desta "nobreza selvagem" que, como a de outrora, tudo fazia para se manter no lugar de vencedor. Ou seja, quando o cartão de visitas mostrava um brasão mais bem feito que o seu ou quando o personagem reconhecia um apartamento mais bem localizado e decorado que o seu, um salário melhor do que o seu, a agressividade na sua forma hetero-hostil surgia, de repente, de forma delirante, autorizada pela megalomania, que era o que o personagem tinha à mão para suprir esta fratura narcísica com a qual se deparava toda vez que alguém, egoicamente, o superasse. Ele, então, o mataria em delírio, pois se afetava por tudo o que não se incluísse no seu jogo de semelhança, fosse um "vencido" (excluído), fosse um "vencedor" (melhor do que ele); e, neste momento, dava lugar ao delírio megalômano e colocava a agressividade no lugar de supremacia e se autorizava a supor a morte delirante de outrem. "Matava" indistintamente, fosse o corretor mais bem-sucedido do que ele, fosse o mendigo de rua, e fez de seu primeiro assassinato (o do mendigo) um ritual de non sense. Porém, aparentemente, a morte do corretor, neste delírio seria "justificada" por ter o personagem Patrick perdido para ele esse jogo egóico e imaginário de supremacia, já, em relação ao mendigo, mataria o "vencido", o que era um "direito natural" seu, onde recusado pelo Simbólico, retornava ao mesmo lugar de "ego natural", em Verworfen, e acionava a agressividade.

       Agora, reservará "a melhor parte de sua agressividade" para as mulheres, pois tem delas a visão literal de "corpo a ser despedaçado", tem, em relação às mulheres uma reação perversa quando agressiva, por ser moralista quando foraclusiva. Tem em relação às mulheres uma moral de beatitude, já que são (todas) para ele "prostitutas". Umas "prostitutas" que ousam fazer sexo com ele, que ousam satisfazê-lo, e por isto devem morrer, pois só ele pode se satisfazer, daí a dimensão egóica atingir, neste momento, o nível de "Mal de Narciso". E na medida em elas entram em seu jogo heróico-libidinal irão satisfazer o seu "delírio sensual", simulacro de gozo fálico e imediatamente as tratará como as que devem morrer, já que sendo imorais, o fazem gozar. Se a todos pretende "matar" em delírio, desde que o ameacem, às mulheres pretenderá mutilar, esquartejar, numa ilusão ao que no texto sobre a Agressividade Egóica, nos Escritos, Lacan identificou como sendo um delírio de hetero-mutilação pertinente à psicose paranóica. Dava estatuto natural ao que, se fosse simbolizado, seria próprio do fantasma obsessivo, mas porta-se como seu avesso, e em vez de conjugar as mulheres com que se goza por oposição às mulheres que se ama, não amará nenhuma, já que oscila, do ponto de vista de uma fenda real, entre a ausência de amor na perversão e a hiperdeterminação entre a demanda de amor egóica e a megalomania. Em síntese, vai reduzir as mulheres a corpos a serem despedaçados por terem tido a ousadia de satisfazê-lo sexualmente. Sua única hesitação se apresenta em relação à secretária, que o "admirava", e isto porque no exato momento em que poderia triturá-la, recebe um chamado telefônico cujo teor o desvalorizava egoicamente e isto o deixou paralisado, com uma enorme dificuldade de retomar a ação, o que fez com que a convidasse a ir embora. Todavia, a única figura, no filme, que o contradisse, por equivocá-lo, foi a do advogado, por simular ali um procedimento que é essencial na escuta da psicose, ou seja, simulou sem se dar conta disto, ser seu ego auxiliar. Pois, tanto o advogado, quanto a primeira vítima "yuppie" que assassinou, o tomavam por uma outra pessoa. Logo, deparou-se com um significante cuja "mancada" o remeteria ao lugar de sem-nome, na medida em que ambos pensavam que ele fosse um outro corretor de valores mobiliários mais bem-sucedido do que ele. Mas usa isto como álibi e se apropria, em seu delírio, aparentemente, do apartamento do outro corretor para poder matá-lo. Mas, na medida em que se dirige, num momento de pânico confessional ao advogado, onde é trazido por aquilo que caracteriza, na psicose, o pânico desmedido, trazido na sua alucinação de "sujeito do prazer" quando os seus álibis perversos foram desmascarados e os seus traços hetero-hostis não mais funcionaram, fica literalmente à mercê deste. Ou seja, ao acreditar que vai ser "descoberto", quando de fato não poderia sê-lo, já que nada daquilo acontecera senão em delírio, dirige-se ao advogado como sua "tábua de salvação". E aí fica a questão: por que não lhe dirige a mesma dimensão de agressividade? Porque o advogado o trata, assim como o corretor bem-sucedido da bolsa de valores, como um sem-nome, ancorado naquilo que em Direito se chama "erro de pessoa". Se isto não impediu que em delírio matasse o corretor, naquele momento, quando o advogado o trata novamente desta forma, explicita-se que o advogado não acreditou no que disse, já que a pessoa por quem o tomara seria incapaz de fazer o que o personagem relatava. Desta forma, se dando conta que é um outro, diferente do que supunha, o advogado o despreza, e o personagem fica novamente paralisado, "impactado". Entretanto, tem-se ali um verdadeiro tratado de procedimentos perversos, tais como: a) o perversismo (quando frauda o sistema financeiro da bolsa de valores); b) a perversidade homicida, sem álibi (quando supõe ser, em delírio, um serial-killer autorizado pelo duo imunidade/impunidade). Neste momento, deveríamos nos dar conta de que estamos diante de um imaginário social vigente em segmentos representantes do que há de mais avançado economicamente na dita "sociedade globalizada", e que abona, por momentos, o cinismo e o disfarce vitimado desde que compatíveis com o culto à lógica do "vencedor". E na sua luta pela sobrevivência, o personagem, por fazer parte desta nova nobreza, fará parte dos que têm imunidade natural, o que lhe garantiria, socialmente, a impunidade. Este filme parece deixar isto extremamente claro, lançando mão, em sua locação, do espaço social e cênico dos "vencedores". E, pouco importando o que fizesse, seus membros eram uma casta, onde só não se podia era "fazer escândalo" e/ou se comportar inadequadamente segundo as regras sociais do ritual egóico vigente. E foi só por isto que seus amigos estranharam um pouco a forma como Patrick ficou "afetado" quando se julgou "descoberto", evocando o pânico da perversão flagrada de repente, mas como ali também se recorre a uma estrutura maníaca e não se aposta no anonimato, pois, pelo contrário, o personagem faz tudo para ser "descoberto" , pois isto colocaria em prova a sua imunidade, confirmando a sua imunidade, mas em pânico o "herói", por momentos, dedica-se à degradação.


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
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