02/05/2003
Número - 313

ARQUIVO
Opinião Acadêmica


Opinião Acadêmica

"Tudo o que pertence ao passado é do âmbito da morte".
(Sêneca)

SOB O SIGNO DA "REENCARNAÇÃO" DA PENÚRIA
(e/ou como a penúria, a morte do amor e o delírio
foram escritos na "fogueira" do século XVI).

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça


       Ao ler, como de costume, os textos de LEODEGÁRIO DE AZEVEDO FILHO, que estão sendo publicados na revista eletrônica COOJORNAL, tive o interesse despertado para a leitura de um romance de Clair de Mattos, que se intitula: As Vidas de Katherine (RJ, Razão Cultural, 2002). O trabalho do Prof. Leodegário a respeito deste texto se intitulava: Sobre o Romance Existencial de Clair Mattos (In....www.COOJORNAL.com.br, Opinião Acadêmica, Coojornal n° 300 de 01/02/2003).

       Então, direi, pois, ao meu eventual leitor, que não me deterei aqui na descrição de eventos narrativos inerentes à fabulação do romance, já que estes foram sobejamente demonstrados no trabalho crítico antes citado; e, tal qual este leitor eventual, também situar-me-ei diante de um texto a fruí-lo, reconhecendo, pois, que sua estruturação (forma interna), dita OBRA, irá provocar (em ambos), afetações e identificações inerentes a seu efeito de comunicação estética, o que o qualifica como uma obra-coisa, enquanto recepção, isto na acepção que foi dada a este termo por JEAN MURAROVSKI (esteta e semiólogo do círculo lingüístico de Praga).

       Assim posto, e ainda informado pelas conclusões profícuas da leitura do Prof. Leodegário, ousaria afirmar, ou mesmo constatar, que a narrativa em pauta, por apresentar um ponto de vista interno, se irá hiperdeterminar a um tempo próprio da suposição de que a duração da memória nos remete à permanência de sua apreensão.

       E este tempo não é o tempo contínuo da exigência memoralista, mas, sim, o tempo descontínuo, existente, inclusive, entre vida e morte, a sugerir (ali) a alusão à eternidade. Para tal, teve-se que fazer a redução de percepção temporal egóica (consistente) e objetiva à percepção da subjetividade (romanticamente tomada como sendo a da verdade ficcional e/ou delirante da personagem). E isto nos é aparentemente proposto como se fora uma versão imaginária da "durée" bergsoniana, onde o tempo de "subjetivas vivências anteriores", face à ilusão de suspensão da morte, própria dos momentos em que o destino trágico substitui a Castração, visse que a "vida interior e objetiva" da personagem (Katherine) consistia na conjugação de um "eterno agora", o que, em outro contexto, Jacques Lacan diz ser próprio do tempo do sonho ao nos indicar que "sonhamos o tempo todo". (cf. O Momento de Concluir).

       Ali se irão, pois, fundir, no regime "eterno" da ilusão de memória, que é um suporte para a conversão do fracasso (predestinado) do amor em delírio, daí "amor ao delírio", o tempo do "sonho" com o tempo da "vida", isto é, dar-se-á à suspensão da consistência a ilusão da eternidade, onde a imortalidade será substituída pela suposição espírita da reencarnação de "vidas pretéritas". E esta ilusão, ao ser eternizada como causa última dos eventos narrativos referentes à personagem, funcionará como suporte para a inclusão temática desta suposta "vida pretérita", que, por sua vez, irá atuar como fundamento (causa primeira) do destino trágico-dramático da personagem principal. Assim, o sacrifício de Santusa (na fogueira inquisitorial do século XVI) estará tanto na origem das trágicas vicissitudes de Katherine, quanto na "causação" de seu fracassado projeto amoroso. Ela não irá reparar a penúria pelo amor, pois este também será condenado ao regime da decadência de Eros. Isto porque aqui não se trata de uma trágica e ática heroicidade à la Sófocles, ou seja, "do que, por não saber, agiu" (Édipo), por ser predestinado pela TIQUÊ (pelo encontro faltoso com a FORTUNA), e, também, por esta razão "jamais ceder sobre o seu desejo". Logo, teremos a pré-determinação à penúria como o seu destino. E, para tal, este destino irá substituir o cristão e Kantiano "livre-arbítrio", era tão caro ao trágico-drama benjaminiano, quando apontava, no seu herói alegórico, para a insatisfação moral com a dominação face ao contexto maquiavélico, cujo ícone era HAMLET. Desta maneira instala-se um ciclo de peripécias e surpresas onde às mutações e situações levam ao fracasso e ao sacrifício da "heroína", malgrado breves instantes de felicidade dentro da melhor tradição folhetinesca tão cara do século XIX. As vicissitudes, o malogro e a penúria têm sua origem na imagem do A (Outro não-Castrado), que é emanada das "vidas pregressas", a mesma imagem que, no desfecho, lhe fechará os olhos para a vida: SANTUSA. E nesta sucessão de eventos, regidos pelo ATURDIMENTO, iremos encontrar a repetição, com propriedade, de procedimentos folhetinescos que foram característicos da chamada 2ª geração romântica da literatura portuguesa: a que teve em CAMILO CASTELLO BRANCO o seu ícone. Do mesmo modo que a fabulação daquela enunciação literária, aqui, também, teremos: a montagem de cenas, o ritual da partida, a situação inicial de penúria, o reencontro, a ruptura, o malogro amoroso etc...

       Todavia, será do ponto de vista de uma recriada referência contextual que o sabor de revisitar o século XIX irá aflorar e neste mister a autora ambientalizará seu texto em sólidas fontes histórico-culturais, como foi assinalado pela leitura do Prof. Leodegário. Trata-se, pois, da reconstituição, parcial, sem dúvida, mas minuciosa, da mentalidade deste século citado, filtrada, com mestria, às necessidades da fabulação ficcional, chegando a nos lembrar MORTE EM VENEZA, pela alusão ao duo: roteiro / viagem (reencontro). Portanto, a mentalidade, os costumes e as crônicas política e social deste século na Europa e no Brasil funcionaram como uma contra-forma (no sentido cinematográfico do termo), pois se trata de alusões e de citações valorativas, cujo efeito de reconstituição serve de cenário perfeito às intenções semânticas da narrativa ficcional. Ali a origem trágica dará lugar à ambientação romântica do drama onde o império do destino leva a personagem a conjugar a penúria e a morte (melancolicamente) como efeitos do dilema amoroso. E, articulando-se a esta descrição do panorama próprio da mentalidade dezenovesca, iremos perceber que a alusão ao "passado enquanto morto" se irá hiperdeterminar (pós penúria amorosa, com evidente valor "foraclusivo" de trauma, já que por solicitação do "pai morto" - o Barão de Villalba - Alfredo (o erômeno) irá "enterrar o seu amor") ao surgimento de "suposta loucura" da personagem. Ali, de saída, esta amará (até que o amado venha a morrer na Guerra do Paraguai) a "penúria do amor" como a si mesma, malancolizando-se, enfim, e apresentando o "clássico quadro depressivo" (posteriormente). E, neste momento, ao falar dos "distúrbios emocionais" e de "seus tratamentos" o romance é rigorosamente fiel às ilusões do século XIX a este respeito. Recusa-se, como bem observa Leodegário, a "ser modernoso", pois embora publicado no século XXI, é ali indicado que, embora a psicanálise freudiana estivesse precisamente em seu nascedouro (1895, 1900, respectivamente: "Estudos sobre a Histeria e a "Interpretação dos Sonhos") ela não é adotada. Até porque o primeiro médico, "soi-disant" "terapeuta", não adotará sequer os procedimentos psiquiátricos pré-freudianos, tão caros a Charcot. Estes procedimentos só estarão presentes, em alguns momentos, não no Dr. BRANT, mas no Dr. EVANDRO. E ali terá lugar uma contra-transferencial paixão, não da analisanda pelo analista, o que permitiu a Freud substituir Breuer e inferir dali a transferência (Ubertrangung, 1912), e sim do analista, pela "paciente", e esta, apesar de se dizer "restaurada" pelo tratamento, não lhe dá lugar desejante, pois este já fora, melancolicamente, substituído pelo culto mortal ao erômeno falecido.

       Se em Charcot, por via do asilamento universitário, descrevia-se a suposição histérica de se tratar, como soma, o "sintoma" histérico, e isto a juízo do psicanalista francês JEAN ALOUCH, no "tratamento" do Dr. Evandro se adotou, face ao enigma do fracasso do desejo, face à impotência em relação ao suicídio, procedimentos, aparentemente, análogos ao método catártico utilizado em Salpetrière. Não todos, mas, sem dúvida, alguns, pois, temos a suposição de que o "trauma" da perda amorosa criou fantasias inconsistentes de "vida anterior". Além do que só se consegue levar Katherine a falar disto, através da hipnose e não pela "talking cure" (proposta por Freud). E, como em Charcot, a melancolização e a suspensão temporária do delírio poderiam ser, também, vistas como uma "cura parcial de histeria". Nisto crê o Dr. Evandro, mas nos parece que Katherine, embora se julgue "restaurada", abra mão, malgrado sua vontade, de permanecer fiel à crença Kardecista em "vidas passadas". E, se o herói trágico não abre mão de seu desejo, até a morte de Alfredo, Katherine não o fez, e até o fim, ela não abrirá mão de seu delírio auto-referido: (Santusa) como uma causa última de sua penúria financeira e, sobretudo, amorosa, embora, a causa próxima de primeira seja ANA MOREIRA (antagonista). Aqui cabe ressaltar que o Kardecismo invocado parece-nos mais próximo ao dezenovesco esoterismo de MYERS, e ambos, estarão, completamente afastados do esoterismo pré-gótico de um Boehme. Em tempo, do ponto de vista de sucessão dos eventos, teremos que à penúria amorosa seguiu-se a crença e a reclusão mística (Pde. Ancelmo) mais, só "pós-mortem" do erômeno (Alfredo) e que sobreveio o delírio, parcialmente restaurado enquanto "sanidade" pelo Dr. Evandro, após a eclosão da depressão melancolizante. E veremos que no lugar da neo-platônica e plotínica imortalidade da alma, tivemos a imortalidade do sofrimento, do fracasso e da penúria. Neste texto, Eros só se conjugará em abundância em dois momentos: no amor por Alfredo e no talento para o canto.

       Todavia, no texto, ao recusar o amor do Dr. Evandro, a personagem central Katherine parece se dar conta de algo que é psicanaliticamente sustentável, ou seja, que a dimensão traumática, principalmente quando "foraclusiva", parece ter um efeito fóbico permanente que, embora parcialmente recalcado nas neuroses, tomará forma delirante nas psicoses. Ela ali os intitula, dando-os como razão de negativa amorosa, de "seqüelas do sofrimento". E estaremos, pois, diante de uma penúria consolidada, onde à decepção fálica segue-se o culto mórbido ao amor-morto, assim como a este seguiu-se a penúria financeira. Só faltava a morte e esta se dará no regime do "delírio" persecutório, que é o que teremos quando SANTUSA, uma "personna imortal", "fechar os seus olhos", após dizer-lhe "você seguirá conosco".

       Em suma, este texto ficcional apresentou-nos através da personagem Katherine (o mesmo nome de uma das histéricas de Freud) a evidência de uma "questão foraclusiva" que era originada da anulação, por penúria, da vida da mãe e da dignidade do pai (um fracasso fálico absoluto em lhe legar os efeitos legiferantes da procriação, pois cede a paternidade a estranhos), e que permaneceu vigente, mesmo após a penúria melancólica (fracasso amoroso e morte do amado) e financeira, até o seu final, quando SANTUSA lhe "encerra" a vida. E malgrado ter, na melhor tradição dezenovesca, um "tratamento compatível", e/ou análogo, por ser hipnótico-catártico, com o asilamento histérico, próprio das hipóteses hospitalar e universitário de Salpetrière, não se livrou jamais dos efeitos delirantes da palavra-plena de seu delírio: SANTUSA, a quem recorre como um duplo especular, pois a investe no valor de A (Outro não-Castrado) do papel de causa de seu destino, e esta vem, por fim, ocupar o lugar deixado vago por morte de erastes (o amante). E, então, só lhe resta, em penúria amorosa e financeira, esperar a própria morte, cedendo sua vida a SANTUSA, com quem, definitivamente se identifica, de forma homeomórfica, como a uma ancestral identidade mortal, como se fora um exemplo do que, em seu Seminário: O Sintoma, Lacan nos indica como sendo o "ter um symptôme" (ter um sintoma "natural"), emanado da verdade trágica e não-Castrada de sua lide delirante.


Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
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