08/06/2003
Número - 318

ARQUIVO
Opinião Acadêmica




Opinião Acadêmica

(Texto preparado para o Seminário específico dos Estudos Avançados Freud / Lacan - CEL/RS).

AS IDENTIFICAÇÕES EM JACQUES LACAN: UMA ABORDAGEM HISTÓRICO-CONCEITUAL

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça




A) Anos 50:

Preliminarmente, gostaríamos de lembrar que Lacan formula a sua concepção de Identificação a partir do pensamento de Freud, em três momentos distintos: anos 50 ("Relação de Objeto"); anos 60 ("Estádio do Espelho" e "Ato Analítico") e , por fim, anos 70 ("RSI"). Assim, inicialmente, irá procurar resgatar a lição freudiana esboçada desde 'A Psicologia das Massas e Análise do Ego" (fonte principal), e, também, ainda que, secundariamente, no que se refere a questão do "duplo" (já que existem tanto identificações simbólicas, quanto imaginárias), irá apoiar-se em "O Ego e o Id". Sabe-se, e não é demais repetir, que lendo-se o Seminário, Livro IV, Relação de Objeto (1955/1956) encontraremos a presença, em homenagem explícita ao campo matêmico inaugurado por Freud, de três identificações que são, a saber:
a) à figura paterna, que era, então, tida como uma imago e, portanto, análoga à especularidade unária que envolve este termo desde "O Estádio do Espelho", e a seus sucedâneos substitutivos; b) estes serão: a identificação à mãe (de caráter fálico) e a, também, identificação ao objeto (símbolo), onde o $ se "cola" neste símbolo que é supostamente "perdido para sempre" e resta mortalmente, em penúria, acéfalo. Trata-se, pois, respectivamente, do FETICHISMO e da MELANCOLIA. No 1º caso, teríamos o objeto a no lugar do A (a/A) e o conseqüente Ato Masoquista a se abater sobre o A, e, no 2º caso, teremos a conjugação do masoquismo propriamente dito, ou seja, a incisão do Ato Masoquista sobre o próprio $. Logo, todas estas formas de identificação se davam, apenas do ponto de vista do falante, no 4º tempo da Estrutura, posteriormente à Castração, à Privação e à Frustração (presentes no 3º tempo). Assim sendo, a identificação à figura paterna era dita como própria de normatividade edípica, confirmando-se ali o Jf como acerto, com valor de j, e era denominada de identificação viril. Nela o Agente (semblante do Real, tanto ali quanto nos 4 discursos) simbólico era o NP, cujo efeito de privação seria a constituição, por "automaton", do "encontro faltoso" com o real (falta real) e em comum com a Castração apresentaria o objeto imaginarizado. Já na identificação que era fruto da "colagem" do $ ao acéfalo objeto, tido como "morto", o Agente (por ser semblante do Real) implicava no desmentido da referência fálica (Bejahung), que era, contudo, momentâneo, pois dali, de forma contingente, poder-se-ia convocar o luto. E, quanto ao JÁ, do ponto de vista da sublimação, conjugava-se o seu acerto, pois como Idéia (saber) era aposto no lugar do gozo, mas teremos, na melancolia, a sua convocação como engano. Lá a falta I incidirá sobre a anulação fálica dos efeitos do objeto a, enquanto um objeto simbólico. Já o FETICHISMO, por cerzir ("colar") S e I, ou seja, compor, na constituição do fetiche, uma imaginária "zona erógena parcial" + uma simbólica, porque significante, "descoberta anexa", substituirá a obrigação e/ou fixação de sentido, por seu engano e vai hiperdeterminá-lo à obrigação de Jf . Mas, para tal, teve que se "dessubjetivar", uma vez que apresentava, conforme o Seminário 4, a fobia como seu fato estrutural e, por esta razão fará a fantasia passar-se (perversa e/ou sádica) integralmente do lado do objeto, e, deste modo, a falta S (própria e também presente na Castração) será convocada e elidida, por esta "sentinela avançada contra a angústia", sendo, para isto, inclusive desmentido o Agente que, por sua vez, imaginarizava o semblante do Real do ponto de vista da constituição da potência (Pai Potente), e, por último, o objeto, por este fato, tomava lugar no Real, pois nesta revogação do Pai I (Potente), seria inscrito, no lugar desta versão de Pai, o objeto-fetiche, por estar, já aí, na fantasia sádica(d®à   $).

 

B) Anos 60:

No momento conceitual que é ali fixado, embora ainda inicial, pois se passava nos anos 60, precisamente em seus "Escritos" (1966), Lacan irá nos brindar com a categoria de identificação imaginária, que era própria, inclusive, da formação do ego conforme o "Estádio do Espelho"; e a tomava, por isto, como sendo de "ego a ego". Por esta razão, irá considerar como sinônimos os termos: identificação egóica e/ou identificação imaginária. E restar-lhe-ia uma questão ainda a resolver, um problema, um enigma, pois preocupava-se, então, com a possibilidade de como se daria a "passagem" de um tipo de identificação à outra, ou seja, da identificação imaginária à simbólica e vice-versa; já que, implicitamente, por conceber o Édipo enquanto simbólica manifestação, pela via do sintoma, do Amor Heterossexual (o que se legitimou em L'Etourdit), concebia como tal, também, por extensão, a identificação à imago paterna. E esta, do ponto de vista de sua substituição ("passagem") pelo FETICHISMO, trocaria a identificação simbólica por um tipo de identificação imaginária que era pertinente, inclusive, a toda e qualquer forma de idolatria perversa. E se, também, a identificação peculiar ao masoquismo propriamente dito conjugava o JÁ como engano, ela mesma, em princípio, assim como a Psicose (por isto Freud as aproximou) relacionava o Real ao Imaginário. Só que a Psicose os "colava", em junção, por diferença da Sublimação, que era, também, uma forma Imaginária de idealização do Amor (cf. "Lê Non-dupes-errant") e apresentava-nos, do ponto de vista da Arte e da Ciência, a partir da mentalidade quinhentista, o JÁ como acerto. E, assim lido, neste JÁ, (de que só se sabe que há, pois é o SABER) o Imaginário invade o Real. Porém, o seu avesso será a Angústia onde o Real invadiria o Imaginário e não a Melancolia, que é o seu oposto, pois nela o JÁ é conjugado como engano e não como acerto, e a Sublimação, por ser "o verdadeiro e sublime amor", onde se "ama o próprio amor", se configura na gênese da Arte, como se disse, enquanto a Imaginária idealização do Amor. Ela , por isto, se irá distinguir da Melancolia, porque apenas visa interromper e não revogar o circuito pulsional. Mas, a MELANCOLIA, mesmo quando alegórica (discurso melancólico) seria, no mínimo, a imaginária idealização da representação da morte, ainda que, na citada forma alegórica, viesse a representar o amor, do ponto de vista de erastes (do que ama), por uma "amada que era a eromena, morta". Mas, ainda assim, o pensamento de Lacan guardava, neste momento, uma predominante referência às formas imaginárias e não às simbólicas de identificação. Portanto, teríamos, aí, sem dúvida, a possibilidade de se dar conta da "passagem", ou melhor, da transformação, da identificação simbólica à figura paterna, nas referências imaginárias ao fetiche e ao JÁ como engano, bastando, para tal, observar-se a presença da articulação imaginária no fetiche, em seu agalma, em seu mais gozar fálico ("zona erógena") e na alegoria (esta por inversão, por engano de JÁ). Surgirá, em seguida, a suposição de um momento de "passagem" que é, de certa forma, análogo ao que ocorreu com o conceito de Psicose em Lacan. Neste, a preocupação era em se dar conta da "passagem" da "psicose sem delírio" (alucinação verbal) à "psicose com delírio" (surto). Mas, aqui, no tema das identificações, já, então, se podia propor a demonstração da "passagem" e/ou transformação de uma identificação simbólica à formas, no mínimo, parcialmente imaginárias de identificação. Fica, pois, para ele, a obrigação de se demonstrar isto topologicamente. E aí Lacan lançará mão do "Ato Analítico" (1967/1968) e ainda estamos na vigência do Lacan do Classicismo, porém já indicando, textualmente, o confronto entre a questão da linguagem e do significante e a questão do gozo. As identificações continuam, partindo, como não poderia deixar de ser, da referência edípica, mas procurar-se-á demontrá-la(s) em seus efeitos significantes e inconscientes junto ao $. E, com isto, tomava-se por base a possibilidade de se topologizar a segunda tópica do Ics. Assim, no campo da palavra, articular-se-iam, também, o $, a significação do sonho e a lógica do significante. Conseqüentemente, nestes termos, a identificação inicial com que se deparava o $, dita, só por isto primeira, seria o "traço unário", do mesmo modo que o 1º objeto a ser destacado da pulsão oral pelo A, para o falante, seria, conforme o "Estádio do Espelho", o seio materno. Abrindo um parêntese lembraríamos que só mais tarde, nos anos 70, o Lacan do campo do gozo recolocaria esta questão, e não mais do ponto de vista da relação entre o $ e o Campo do A, mas na direção do Amor ao significante e do Sª (sujeito narcísico), e, também não mais do Édipo como ponto de partida, mas da Bejahung, ou seja, da pré-constituição, por incorporação, do Amor e também do NP. Tratava-se, contudo, ainda nos anos 60, dos desdobramentos em direção à representação do $, dos efeitos fálicos recebidos e transmitidos pela freudiana figura do Pai, desde sempre destacada pelo mestre de Viena conforme o seu "Psicologia das Massas e Análise do Ego". Porém, como se dizia, neste momento de "passagem", Lacan ainda não estava integralmente imerso no campo do gozo (lacaneano), pois estávamos ainda em 1968 e não em 1970 (cf. "Avesso da Psicanálise"), e, assim, levarei em conta, momentaneamente, apenas os efeitos desta identificação unária, e todos a verão como pertinentes às relações e articulações, porventura, existentes entre a Castração (Angústia) e o Ics (Significação dos Sonhos), isto é, vai-se, preferencialmente, vê-las como efeitos no $ de um traço imagético e unário emanado da identificação edípica, sendo sempre, então, para o $, (advindo de "traço unário", transmitido pelo NP) um objeto de Desejo oriundo do A. Vai-se, então, a nosso juízo, o que é, inclusive, corroborado por Pierre Kaufman (cf. "Dicionário de Psicanálise, Albin Michel, Paris), recorrer à necessidade de se topologizar este efeito primeiro e Ics da identificação edípica, que é simbólica e paterna, projetando-o para além das imaginárias formas egóicas de identificação. Assim sendo, a rigor, não se formulará nenhuma "passagem" das identificações imaginárias às simbólicas, ao contrário, se permanecerá na lide oposta. Só que a aludida imaginarização ali ocorrida não irá convocar como em "A Relação de Objeto", o fetichismo e a melancolia como alternativas à identificação edípica. Será, pois, fixado como efeito desta identificação ao "traço unário" do NP a possibilidade de constituição, por nominação, da representação do sujeito, mas será, também, proposta uma outra identificação simbólica, onde o objeto de Desejo apresentaria os efeitos metonímicos e sintomáticos do recalque histérico. Mas, abrir-se-ia um campo para a qualificação, para além de todas estas, imaginárias e/ou simbólicas, formas de identificações heteromórficas, para a configuração de uma forma imaginária e delirante de identificação homeomórfica, onde, por efeito de Verworfen, nós nos defrontaríamos com a exclusão do fundamento simbólico (NP) do $. Contudo, o caráter simbólico das identificações será objeto da possibilidade de serem topologizados os termos da 2a tópica, a saber: o Ideal-de-Ego e o Ego-Ideal de Freud. Portanto, naquele momento e lugar, seria registrado um 1º efeito, dito "traço", próprio da representação unária do NP, que, por ser mortal em referência original, nos remeteria à origem pulsional da Castração e do sujeito do Ics. Logo, este registro imagético do "traço unário", representará o $, como um destacável efeito do NP (S) e, deste modo, será o "Não" deste, também, o seu traço diferencial (mortal e denegatório). Então, para o $, que foi intromisturado ali pelo sintoma, pois Jacques Lacan, naquele tempo, privilegiava o significante e preocupava-se com o estatuto da Alienação e do Cogito(Pensamento), ou seja, preocupava-se com o modo de representação, nos moldes da lógica do significante do $ para outro significante e, nesta trajetória, este aludido "traço" seria a sua marca original de diferença e repetição. E como efeito deste procedimento poderíamos ter a represen tação, por confirmação nominativa, do $, desde que fosse tida como um pensável efeito do "traço unário" que, do ponto de vista do campo do A (ali temos: NP(S) S1/S2 ® $, onde S2 representaria o Não-do-Pai) lhe seria pré-constituinte. Porém, o desdobramento seguinte disso poderia imaginarizar, só que por "colagem do I no R", e trazer à cena a exclusão do fundamento significante do $, que era o NP (S) e, então, nos termos homeomórficos da identificação, confirmar-se-ia a construção da Verworfen, enquanto manifestação da exclusão do $ (exclusão da inclusão). Tal referência implícita à psicose, entraria no lugar que foi outrora ocupado, noutro momento de sua trajetória conceitual, pela melancolia, onde, ao contrário do fetichismo que o afirma obrigatório nos termos do JF, o $ é desfalicizado e posto, em acefalia, por estar colado à morbidez em seu culto à penúria. Conseqüentemente, teríamos, até aqui, três identificações propostas, já que a derradeira, como já se disse, por se referir à angústia e a sua hiperdeterminação aos efeitos sintomáticos do recalque histérico, estaria implicada nestes efeitos e ligar-se-ia, desse modo, à Castração, daí poder-se escreve-la, como tradutora da questão do "Desejo do Homem/Desejo do A", nos termos de a/ j.

 

C) Anos 70:

Todavia, já nos anos 70, no "RSI" (1974/1975), tomando-se, também, como primárias as fontes freudianas: "A Psicologia das Massas e a Análise do Ego", bem como: "O Ego e o Id", Lacan vai-nos apresentar três identificações simbólicas, relacionadas, respectivamente, ao Amor, ao NP e ao objeto a e vai também dizê-las como tal, por abandonar de vez a suposição "de passagem de uma à outra", mas permanecerá em vigor a qualificação egóica das identificações imaginárias (homeomórfica, idólatra e/ou ao semelhante).


 

       Assim, se para o $ se tratava, inicialmente, de identificar-se ao "traço unário e simbólico do NP, agora se trata de dizê-la uma identificação ao simbólico do Outro-Real, e assim novamente qualificada, veremos que ali se apresenta a 1ª metáfora com valor de símbolo, recebida por "traço unário" que, por ser denegatório (Não-do-Pai) nos remeterá à origem pulsional (mortal) do Desejo que advém do A para o $, nos possibilitando, assim, por metonímia, o acesso ao Desejo pelo outro, isto por efeito de constituição do Não-do-Pai (Desejo de Mãe), onde o símbolo, 1ª metáfora, por metonímia, possibilitará a produção de metáforas novas.

       Contudo, não foi ali, mas aquém, que se estruturou o NP(S) e o Amor (na origem, narcísico); e estes lhe são pré-constituintes. E, desta forma, o que para o $ se apresenta como uma identificação original, primeira, inicial, é para a Estrutura (R,S,I em entrelaçamento) o efeito seguinte de uma anterior identificação, por incorporação, que irá resgatar, do ponto de vista da constituição do narcisismo imagético e auto-erótico, por ser efeito de Bejahung e de Masoquismo Primordial, o que Freud definiu como sendo 'A FORMA MAIS PRIMITIVA DE LIGAÇÃO COM O OBJETO". E nesta identificação se obtém, como efeito, o Nome-do-Pai e o Amor, e, também, ali o Sujeito Narcísico primeiro se identificou com o Desejo de Mãe, que era ainda um Outro não barrado, e só depois, seria possível, por ser barrado na identificação seguinte por um unário "traço" do NP, o encontro de um Desejo dependente do A. Aqui, na identificação ao Real (Falo) do Outro-Real (Coisa Assassinada) não se obtém Desejo que advenha do A, porque o Sujeito Narcísico não se encontra, nesta auto-erótica e mais ancestral forma de ligação com o objeto, dependente de nenhum Desejo advindo do A. Ele não se encontra, ainda dependente disso e só poderá receber (não mais como sujeito narcísico), em reciprocidade, o acesso ao Desejo pelo outro, quando o A (Outro) for barrado. Ali, contudo, vige a Bejahung, enquanto efetivação do Masoquismo Primordial, que incluiu a libido no circuito pulsional e isto pós-assassínio da Coisa (das Ding) e, por isto, desde o Real, o Falo se tornara o "verdadeiro objeto de Desejo" e a Coisa, pós-assassínio, passou a simbolizar não só a impossibilidade de haver um objeto que satisfizesse o Desejo humano, mas também, a negação do Bem-Supremo, e de todos os outros bens ilusórios. E, então, sedimentou-se com o mortal valor de "Real do Gozo". E, também, observaremos, que o lugar fundante do narcisismo, como efetivação do imagético e mortal amor auto-erótico, provoca ali, de fato, a sua produção em lugar (e isto nos termos do Amor ao Significante) do Real (Falo) do Outro-Real. E se, para o $ a identificação só surge como efeito do "traço unário" do NP a destacar-lhe o Desejo advindo do Outro, isto é, sem dúvida, a requisição de uma necessária topologização da 2a tópica, pois, para tal, em relação ao Ics o $ dever-se-á articular ao Ideal-de-Ego por via simbólica, e ao Ego-Ideal, vertido para o objeto de semelhança, por via imaginária. Logo, para o $ haver é necessário o "traço unário"[1] e para este ocorrer necessita-se da produção do Nome (Não)-do-Pai e do Amor que, via Bejahung, lhe são pré-constituintes, e, sem a constituição do A como promover o acesso do $ ao Desejo? Mas, todavia, se produzidas, as metáforas novas efetivar-se-ão no espaço metonímico prévio da fantasia e do Desejo e manterão em vigor a que foi antes tida como derradeira modalidade de identificação, ou seja, a identificação histérica ao objeto a(sua causa) e ali, por efeito de recalque, visa-se a Castração, pois lá se realiza a sua fórmula: "O Desejo do Homem é o Desejo do A". E se esta forma de identificação simbólica ainda não é egóica, ela abre campo para tal, ainda que se torne obrigatória por desmentido de seus próprios fundamentos histéricos. Trata-se da identificação ao j, isto é, ao Imaginário (Pai-Potente) do Outro-Real (memória pulsional invocadora da Coisa Assassinada), só que a dimensão egóica, com ela vigente, será sempre mediada pelo objeto a, que é o semblante do Falo, ou seja, um objeto simbólico que se apõe ao Imaginário do Outro-Real, a saber: j, daí: a/ j, para ela a sua versão desejante do próprio Pai-Potente.

Em suma, teremos:
I - DO PONTO DE VISTA DO FALANTE, (cf. os anos 50 e 60) e baseados em Freud e Lacan e/ou em: "A Psicologia das Massas e a Análise do Ego", "A Relação de Objeto", "O Ego e o Id" e "Os Escritos": teremos uma identificação simbólica e três identificações imaginárias:
a) à imago (figura) do Pai, viril e edípica que é simbólica;
b) mas, quando imaginária, dar-se-á face ao objeto desfalicizado, onde o $ se cola "em penúria", "morbidez", num ato masoquista incidente sobre o próprio $, dito masoquismo propriamente dito, ou seja, trata-se da melancolia como forma imaginária de engano do JÁ;
c) e, também ora dar-se-á, por uma identificação imaginária à mãe quando falicamente tomada com valor de Falo faltante: Ato Masoquista incidente sobre o A, isto é, trata-se do Fetichismo, que é uma forma imaginária de mais-gozar fálico, onde o Engano de Sentido Û à obrigação de JF;
d) e ao ego ® "de ego a ego" ® onde é Imaginária e apresenta-se ora como idolatria perversa, ora como identificação (imaginária) à imagem do semelhante.

II - DO PONTO DE VISTA DO $ em sua relação com o NP(S) e com o campo da palavra (cf. Anos 60, Lacan: "O Ato Analítico" e "Os Escritos"):
Aí teríamos duas identificações simbólicas possíveis e identificações imaginárias:
a) ao "traço unário" do NP(S), cujo efeito é a nominação do $, tida, então, para ele, como uma 1ª identificação;
b) aos efeitos sintomáticos e Ics (Ego-Ideal e Ideal-do-Ego) do recalque histérico. Lá se respondia à fórmula da Castração que era, então, tida como "a derradeira forma de identificação". Tratava-se, ainda, de uma forma de identificação simbólica, embora, implicitamente imaginária e era tida, então, como a terceira identificação;
c) à exclusão, por Verworfen, de efeito homeomórfico[2], do fundamento simbólico do $, que é o Nome-do-Pai (S). Ali se cola R/I, porque não se entrelaça, mas se conjuga, por junção, R,S e I;
d) obs[1]: tal reflexão, nos "Escritos" (1966), portanto, na década anterior, hiperdeterminou o tema das Identificações às relações da subversão do $ com o campo da palavra. Lacan, via Koyré, pós-cartesiano, contrapõe, neste mister, tendo a linguagem como pré-condição, o ser ao pensar. Assim, o ser, que é próprio da existência e da res extensa do $, subverteria o pensar (res cogita), próprio do Ics e vice-versa. Logo, teremos, como enunciado desta subversão: sou onde não penso, porque só penso onde não sou.
e) obs[2]: para se entender a distinção entre identificação homeomórfica e heteromórfica deveremos lançar mão da questão mimética como esta se apresenta no saber ático. A mímesis platônica é reminiscente e imita o Real, daí ele ser dito não um idealista como muitos pensam, mas um realista. Do ponto de vista da estética literária trata-se da verossimilhança externa. Do ponto de vista da imagética trata-se da forma unária, onde a representação especular desvincula o duplo da alteridade, como, por exemplo, na relação entre o Sujeito do Delírio e o Outro não castrado. Já a mímesis aristotélica é da ordem, como bem estabeleceu Roman Ingaarden, da representação. Sua especularidade unária só se faz por mediação de um duplo inscrito na alteridade. Trata-se do modelo de representação imagética próprio da predicação do argumento contingente. Trata-se, também, da representação por intermediação, ao passo que a primeira é uma imitação sem intermediação. O exemplo lacaneano dos "Escritos" recorre ao mundo animal, mostrando a pomba e sua imagem refletida como exemplos de homeomorfia e a mutabilidade formal do mimetismo animal era, como não poderia deixar de ser, um elemento de distinção em relação ao ambiente. Logo, se trata de uma mediação formal própria da alteridade, portanto, implica numa identificação heteromórfica. A mimeses aristotélica, do ponto de vista da estética literária, resultava na verossimilhança interna.

III) DO PONTO DE VISTA DO ENTRELAÇAMENTO ESTRUTURAL DOS REGISTROS (R, S e I):
Obs: Isto é destacado nos anos 70, por Jacques Lacan, no Seminário "RSI" (74/75).
Lá encontraremos três identificações simbólicas e três identificações imaginárias:
a) a identificação narcísica, amorosa, por incorporação. Esta se dá, como se disse, por incorporação ao Real (Falo Impossível) do Outro-Real (Coisa Assassinada). Ali se obtém, por origem narcísica, o Amor, a Lei, a Alteridade e o NP. Lá também ocorrerá a ação da Bejahung e do Masoquismo Primordial, bem como se irá constituir, em suplência ao Falo Impossível, nos termos do Amor ao Significante, a dita por Freud "forma mais ancestral de ligação com o objeto", que é auto-erótica, mortal e imagética. Ali se constitui o Sujeito Narcísico, e o seu auto-erotismo imagético é que irá expressar esta forma ancestral. Esta identificação passa a ser, então, considerada como sendo a primeira, em função de seu papel pré-constituinte do NP e do Outro como efeitos da negação radical do Bem-Supremo;
b) a identificação ao "traço unário" do NP: esta se apresentava, até a década anterior, onde se destacava a relação entre o sujeito e o campo da palavra (o Ics), como sendo a 1a identificação(1968). Ela nos remetia ao acesso ao desejo pelo outro em função da instalação do Símbolo, enquanto 1a metáfora, e de seu desdobramento metonímico em direção ao campo das metaforizações. Ali se espacializava em direção à produção de metáforas novas. Este "traço unário" era recebido do NP e tinha, em direção ao sujeito, o seu "Não" como porta-voz, momento em que se hiperdeterminava ao Desejo de Mãe, bem como, por suplência, à sua origem mortal. Ali se obtinha o Desejo já advindo do Outro. Após os anos 70 passa a ser considerada como a 2a identificação. Trata-se de uma identificação ao Simbólico (NP) do Outro-Real.;
c) a identificação histérica ao objeto a. Ela é efeito deste citado espaço metonímico, onde foram produzidas as metáforas novas. É tida, desde os anos 60, como a 3a identificação e se vincula à realização da fórmula da Castração: "o Desejo do Homem é o Desejo do Outro". Trata-se de uma identificação ao Imaginário (Pai-Potente, j) do Outro-Real. Por isto, até porque em sua definição anterior relacionava-se à angústia de Castração, se expressa apondo o objeto a ao Imaginário do Outro-Real, ou seja: a/ j;
d) ao se utilizar da hiperdeterminação entre os registros (R, S e I), a Bejahung e o Sa como novos critérios, no RSI, para conceituação das identificações Lacan nos legou o fato evidente de que elas atualizavam, sem dúvida, o elo borromeneano, assim como, noutro momento, já nos indicara ser a transferência a atualização do Ics.

       Concluindo, destacaríamos que Jacques Lacan, desde os seus "Escritos", sempre manteve em vigor a qualificação da identificação Imaginária, e irá vê-la, no âmbito de seu artigo sobre agressividade egóica como idólatra, e, nos termos do "Estádio do Espelho", como uma identificação egóica ao semelhante. Logo, neste texto, Lacan não deixará de nos indicar que, do ponto de vista da formação do ego como atualização imaginária e consistente do acéfalo Je, que é sua matriz simbólica, e que lhe é refratária, se trata, lá, também, da produção da identificação imaginária, vinculada à especularidade unária, seja por homeomorfia (corpo despedaçado), seja por heteromorfia (representação da alteridade, do semelhante), não se poderá esquecer que ali foi, sem dúvida, resgatada, conceitualmente, a hipótese freudiana, de um secundário narcisismo objetal. Contudo, a suposição, desde os anos 60, de uma identificação mimética e homeomórfica própria da foraclusão do fundamento Simbólico do $, isto é, do NP, se irá articular com as hipóteses ancestrais do corpo despedaçado e do mimetismo de Boehme. Tal procedimento se prestará à efetivação de que esta suposição se torna fundamental para a compreensão e tratamento da clínica das psicoses. O que se dá por elas serem compatíveis com a dita "alienação psicótica", produto da intrusão por Verworfen (exclusão) e incidente sobre o Sujeito do Delírio e constituinte da agressividade emanada de um ego natural. Ali se colocariam em junção o ciúme e o ódio passional, ao serem conjugados, por exemplo, sob a síndrome de Otelo. E, no mesmo sentido, as formas heteromórficas de identificação, que foram aventadas desde o "Estádio do Espelho", parecem, também, resgatar o valor conceitual de toda identificação, seja simbólica, seja imaginária, implicada na presença do duplo, ou seja, quando está em jogo a alteridade.


Bibliografia

1. FREUD, Sigmund. O Ego e o Id (1923) In... Obras Completas, vol. XIX, Rio de Janeiro, Imago, 1969.
2. FREUD, Sigmund. A Psicologia das Massas e a Análise do Ego (1923 ). In... Obras Completas, vol. XVIII, Rio de Janeiro, Imago, 1969.
3. LACAN, Jacques. Os Complexos Familiares, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987.
4. LACAN, Jacques. Os Escritos, Rio de Janeiro,Jorge Zahar, 1998.
5. LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 15, O Ato Analítico, Rio de Janeiro, Taurus, s/d.
6. LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 5, Formações do Inconsciente,Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.
7. LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 4, Relação de Objeto, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995.
8. LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 22, RSI, Rio de Janeiro, Campo Matêmico, s/d.
9. MENDONÇA, A. S. As Identificações. In... O Ensino de Lacan, Rio de Janeiro, Gryphus (Forense), 1993.


Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
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