05/07/2003
Número - 322

ARQUIVO
Opinião Acadêmica




Opinião Acadêmica

(Texto preparado para o Seminário específico dos Estudos Avançados Freud / Lacan - CEL/RS).

VOCABULÁRIO DE TERMOS PSICANALÍTICOS

LACAN E O(S) NOME(S) DO PAI

Prof. Dr. Antônio Sergio Mendonça




Epígrafes:

a) "...perguntava (a Marc-François Lacan) em particular se, em sua opinião, Jacques Lacan não permanecia com a obsessão pela questão da Trindade e se sua interrogação sobre a paternidade não continuava tributária deste vínculo teológico, tal como o testemunha seu Seminário de 20/11/1963 sobre "Os Nomes do Pai"." (cf. Jacques Sédat);
b) "A Trindade? Esta palavra abstrata faz parte de um vocabulário teológico (agostiniano) que nos instala no nível de um saber teórico (mentalidade gótica). O Pai (Deus), o Santo (Espírito) e o Outro (Deus/Filho). Isso nos introduz na relação do simbólico com o real. Em Teologia a relação do simbólico com o real é a condição da linguagem. E o real não é, senão Deus, esse Outro que a revelação bíblica chama de SANTO, e que (só) Jesus chama de Pai Santo.

       Quanto à questão da Trindade, ela é, em princípio, uma questão estranha à revelação e sua expressão teológica, devido ao seu caráter (puramente) abstrato. É, em contrapartida, uma questão filosófica (epistemológica) de que Hegel dá uma resposta..." (cf . Marc François Lacan).


       Preliminarmente, torna-se necessário que se diga que, ao contrário do que se ouve nos rumores de certas universidades provincianas (dando prosseguimento incansável a um certo tipo de comportamentalismo egóico tão caro à ilusão do "psicanalisar", por isto, aliás, denunciado por Freud como impossível), Lacan não formulou esta categoria, de bíblica e gótica inspiração, simplesmente por ter "rejeitado" a sua filha do primeiro casamento em favor de Judith Miller, sua (também) filha, só que da mulher que amou. Ora, os que se propõem a "falar" de seu pensamento, de sua obra, deveriam ter tido o cuidado de lê-la e, se o fizessem, saberiam que esta questão o remete, não só a Freud mas também à confluência de matrizes áticas e bíblicas: judaicas e cristãs (1). Do ponto de vista desta questão paterna em Freud, Lacan se surpreende com a permanência, no pensador austríaco, da questão: O que é um Pai? E todos sabemos que a resposta e o luto do mestre de Viena, sobre e desta questão, passariam a nos remeter à real significação de "seu sonho botânico", como, aliás, bem o demonstrou, em seu "O Passe de Freud", Alain Didier-Weil. Contudo, mesmo para Freud, esta questão partia da cultura ática, vale dizer, do "mito do assassínio do pai". Lá (em Sófocles), em sua trilogia dramático-tebana, que foi inspirada, no caso de Édipo Rei, na versão tebana do mito, como bem o demonstrou Claude Lévi-Strauss, hiperdeterminou-se o "parricídio" ao tema escópico do enceguecimento. E, embora esta seja uma fonte explícita de Freud, este articulará o "mito do assassínio do pai" a sua criação singular, isto é: à CASTRAÇÃO. Além disto, irá sobredeterminar ambos à pré-condição monoteísta na revisão singular que fez do Moisés da e na tradição judaica. Mas, do ponto de vista do saber literário, que, como o drama, também é fonte inesgotável do saber psicanalítico através dos tempos, este mesmo tema irá, dentre outros, povoar, despertando o interesse freudiano, os textos de Shakespeare (Hamlet) e Doistoievski (Dimitri/Irmãos Karamazov). Porém, Hamlet, em seu "crime de existir", onde, a juízo de Lacan, "por saber (momentaneamente), não agia", abriu mão de seu desejo condenando-se à servidão (no sentido hegeliano do termo), ao contrário de Édipo que, também, a juízo de Lacan, "por não saber, agia", sendo, por isto, um predestinado herói trágico. Logo, caberia a Hamlet vingar-se do assassino de seu pai, enquanto caberia a Édipo evitar que a peste atingisse o seu povo, mas restaria, sobretudo, a Dimitri, alter-ego do romancista russo, suspender a eficácia do caráter sublimatório da obra de arte e "confessar" o "parricídio" que não cometera (na vida real), por não abrir mão de seu gozo com a degradação. E se justificará, inclusive, a comparação, pelo avesso, com o ícone da sublimação que foi Leonardo da Vinci (ao contrapor "AS DUAS MÃES" ao "sonho de devoramento por Saturno", basta que se consulte, cumulativamente, as leituras, na ordem, de: KOYRÉ, FREUD e LACAN). Feito este preâmbulo, cabe-nos reconhecer que, no pensamento de Jacques Lacan, a questão de paternidade, por ser simbólica e significante, seguiu outro roteiro conceitual. Assim sendo, nos anos 30, mais precisamente em "OS COMPLEXOS FAMILIARES", ela nos é apresentada através da nomeação da imago paterna e visa-se determinar ali as causas de sua decadência. Todavia, nos anos 50, já em "A RELAÇÃO DE OBJETO", ela será apresentada por meio do tema das identificações, ou seja, será mostrada como uma identificação à imagem (imago) paterna, até porque, mesmo nos "ESCRITOS", esta categoria (imago) ainda é cara ao Lacan de "O Estádio do Espelho" (que, como se sabe, a formulou desde os anos 30 e deu-lhe forma escrita definitiva nos anos 60). Então, tínhamos a vinculação (nos anos 50) da identificação da imago paterna, por ser viril, à normatividade edípica. Em seguida, chega-se aos anos 60, que são também os anos da ex-comunhão (cujo modelo ético foi Spinoza) e do resgate, pretendido por Lacan, da "inoperância de Freud". Em 20/11/1963 Lacan interromperá seu seminário sobre os "Nomes (nãos) do Pa", aí dito borromeanamente no plural, e consagrar-se-á ao resgate do "fio da meada da verdade freudiana", pois em 1964, com o seu "Os Quatro Conceitos Fundamentais em Psicanálise", concretizará o lançamento do chamado campo freudiano. Mas, foi em 1966 que seu pensamento nos brindou, nos "Escritos", com a nomeação singular e significante do Nome-do-Pai enquanto significação do Falo, assim como a sua ausência foraclusiva foi-nos apresentada como pré-condição das psicoses. Entretanto, foi neste mesmo livro que Lacan formulou a representação conceitual (matêmica) da função fálica, enquanto expressão da função paterna, ao escrevê-la como a METÁFORA PATERNA. E, naquele momento e lugar, estabelecia-se a equivalência entre o seu segundo movimento e o Édipo (φ), por ser este a expressão do Nome-do-Pai simbólico quando, como um Não, é representado pelo Desejo de Mãe, daí DM/NP. Mas seria, abrindo-se aqui um parênteses, somente nos anos 70, no "RSI" (1974/1975), ao se definir a identificação amorosa e narcísica, por incorporação ao Real do Outro-Real, quando afeta à constituição da Lei Perseverante, que Lacan a articularia ao primeiro movimento da dita metáfora (paterna) NP/DM.Todavia, foi mesmo antes, mas ainda nestes anos 70, só que em 1973/1974, com o Seminário "LE NON DUPES ERRANT" (2), que Lacan, partindo do Pai simbólico, masculino, singular, irá não só vê-lo, ainda, como índice da significação do Falo, mas também, ao torna-lo equivalente ao "pai morto", resgatará, com isto, a hiperdeterminação entre o dito Pai Simbólico e o Édipo "parricida", vendo-os como concretização universal do "mito do assassínio do pai". No entretanto, ali, Lacan não faria senão retomar uma contribuição sua anterior, dos anos 50, ou seja, retomava as teses do Seminário: "O Desejo e sua Interpretação (1958/1959)" e, lá, mais especificamente em "Hamlet e a Tragédia do Desejo" iremos dizer que : $◊φ seria o fantasma (fundamental ) da obsessão. E o que ali retornava, sem dúvida, era a indicação do "Pai-morto", (malgrado a existência do fracasso fálico e do pedido de "vendetta"), como um Pai simbólico. No entanto, será no seminário já citado, ou seja, no "RSI" (1974/1975), que Lacan irá identificar a nomeação edípica como o efeito da identificação ao simbólico do Outro-Real, ou seja, ao "traço unário" do Nome-do-Pai quando exercido, como símbolo (primeira metáfora), pelo Desejo de Mãe. Então, se repete o que já fora lançado desde os anos 60, no seminário: "O Ato Psicanalítico" (1967/1968). Contudo, ao se nomear, via Hegel e sua sublime histérica, na linha da Antropologia do Desejo de Kòjeve, a Histeria e o seu Desejo de Potência, vai-se ali perceber, contracenando o ego-ideal e o objeto a , que, no âmbito pretendido da heroicidade paterna, a indicação do Pai Potente é uma versão imaginária do também imaginário Pai-Ideal, que é afeto à Castração (a/- φ). E, já que se falou no Hamlet Shakespereano, ali encontraremos a servidão hegeliana do próprio Hamlet e de seu pai que, submetidos e condenados, respectivamente, à morte e à servidão, conjugarão a Frustração paterna como um índice do fracasso fálico, do fracasso da potência, da requisição pela morte e da opção melancólica pela denigrição paterna. Pode-se, então, daí concluir que não seria demais, no âmbito sintomático e neurótico do Pai-do-Nome, onde se inverte a lide Castração/Sintoma, se supor, como efeito do Pai-Ideal, um Pai-Servil como um contraponto ao Pai-Potente (que também apresenta, no âmbito do Pai-do-Nome, valor imaginariamente sintomático). E, nos anos 70, no Seminário: "O Sintoma", fica-nos, via Joyce, evidente a relação entre o sintoma, enquanto transmissor do NP(S), e a Santidade.

       Em suma, se o Pai-Simbólico é o "pai morto", se isto é a edípica significação do Falo, e também, se quando idealizado o Pai-Imaginário, no âmbito da Castração, for o Pai-Potente e/ou o Pai-Servil, só nos restará depararmo-nos com os efeitos de perversificação da metáfora paterna. Tal procedimento nos levará, no pensamento de Lacan, no nível homofônico da língua francesa, não interamente resgatável em português, às indicações, no nível da impossibilidade, ou seja, do real, de severidade mosaica de Ikhanaton, bem como de caráter privador e filicida do "Pai da Horda". Assim sendo, estas faces, severa e perversa (privadora), da paternidade nos indicarão que, para além do Real do Pai (luto do Pai Ideal), para além da versão do Pai (lugar desejante designado pela função paterna), lá estará o impossível do Pai-Real, o mesmo que, ainda nos anos 70, redenominando Freud, em "O Avesso da Psicanálise" (1970), Lacan, face à reconfiguração da questão edípica (Édipo, Moisés e o Mestre Castrado), chamou, também, de "Pai da Horda" (ou seja, é aquele que, ao invés de transformar o tabu na lei do totem, irá desmenti-la). Logo, estaremos diante ora da severidade de Ikhanaton, ora também da perversão de Gilgamesch, a lendária e dramática inspiração caldéia e judaica do "Pai da Horda". Mas, será justamente deste gozo que teremos de abrir mão, em Nome-do-Pai, com vistas à identificação sintomática.

Nota 1. A categoria de Nome-do-Pai representa no pensamento em Lacan a confluência de suas matrizes: ática, judaica e cristã, ou seja, Sófocles, Freud (Moisés) e a tradição gótica no Novo Testamento afeta ao Deus do Religare, lido conforme seu solo ternário, isto é, de acordo com a trindade agostiniana, cuja referência é textual nos "Escritos", e, também indicada, a juízo de Jacques Sédat no testemunho do Seminário de Lacan de 20/11/63: "Les Noms du Père" . Então, de Sófocles recebeu o tema do "assassínio do Pai", do incesto (um álibi), do "parricídio" (uma evidência). De Freud (herdou) o Édipo reescrito, não pelo enceguecimento, mas pela Castração; trata-se da diferença entre o gozo com a proibição e o gozo com a privação. De Freud, ainda, só que através de explícitas fontes judaicas, infere a Lei do Pai como a da condenação do parricídio e de todas as formas de homicídio. Abriram-se as portas do gozo com a punição, por culpabilidade. Tratava-se, então, de conjugar o Moisés Hebreu na lição do Édipo de Sófocles e de se afastar um duplo cálice:

a) do filicídio de Abrahão (cuja metáfora: a circuncisão, iluminará, no início metonimicamente, a idéia de Castração) e, b) da severidade do Moisés egípcio . Daí se concluía a suposição de que o pai assassinado pela filia (parricídio) nos remetia, conforme Édipo, ao simbólico "pai-morto"; já o pai, quando for assassinado por outrem, isto nos remeterá, através de Hamlet, ao gozo com a culpa, assim como o pai, se for supostamente assassinado pela filia, nos conduzirá, via Dimitri/Dostoievski, à perversão degradante. Dito isto, iremos nos deter na expressão: Nome-do-Pai. Ela é obviamente bíblica, gótica e nos conduz, agostinianamente, ao caráter ternário do Novo Testamento. Só que, no lugar da deidade imanente, totalidade fechada, una e trina ao mesmo tempo, que ali sustenta a trindade divina, nos designará, em seu lugar, a borromeaneidade dos Nomes-do-Pai (3). Assim, o Deus, único e imortal, para quem a morte é impossível, designará, freudianamente, o real; mas, afirma-lo, de fato, como existente, como o fizeram Ikhanaton e o Moisés egípcio, será foraclusivo. Porém, em suplência deste deus Hebreu e Cristão do Religare como se fora um santo espírito do Simbólico, herdeiro da alma platônica e do "Géist" hegeliano, surgirá, como um efeito do ático "assassínio do pai", o "pai-morto", como sendo o Pai simbólico. E, goticamente, o "filho faz-se sintoma", "faz-se o sintoma do Homem, por imagem e semelhança ao criador", gerando, com isto, o ideal do pecado e da salvação. Fez-se Pai-do-Nome ao ser transmitido como um filho reparador do pecado original. E assim, enquanto Pai-Ideal, designou o Imaginário consistente da "Cidade dos Homens". E dali vimos surgir o fracasso fálico do "pai-morto" de Hamlet como um índice da servidão, de punição requerida, bem como a suposição parricida de Dostoievski como um gozo para além do fracasso fálico.

       Logo, o verdadeiro Pai simbólico, índice da significação do Falo: Nome-do-Pai, é o "pai-morto", de trágica e ática inscrição no pensamento de Lacan. Já, de fato, o Pai Real designará a imortalidade monoteísta de um Deus único, que se simbolizou por mediatização, no Religare, e, desde então, são inscritos no real, só que, alternativamente, por foraclusão e/ou desmentido (de sua suplência): o Pai-Severo e o Pai-Privador. E, como se sabe, o "Pai-morto" surgiu em suplência ao impossível, porque dito para além da morte, para além do Pai-Real quando deificante. Restará, pois, ao Imaginário idealizar o Ideal de Ego e assim teremos o modelo de salvação e pecado a nos indicar, superegoicamente o - φ da Castração. Seu efeito, de punição, se dá, por inversão, e será sintomatizar neuroticamente o Nome do Pai, dizendo-o Pai-do-Nome, e registra-lo, por impotência, no $ que, para isto, inventará a heroicidade do Pai-Potente, quando for contrapor a Angústia ao Desejo de Potência; bem como poderá fixá-lo na servidão desejante que, nos termos da requisição pela morte, constitui a denigrição paterna como território da obsessão.

Nota 2. Esta suposição é reforçada por referências textuais do irmão de Lacan: Marc-François (cf. Litoral, nº 41, Epell, 1994, "Sua Santidade, O sintoma") e, também, nos indica que o Pai Real, quando não perversificante, é DEUS (CRISTÃO, originado do Moisés Hebreu), ÚNICO E IMORTAL, porque não autoriza , em seu nome, a morte (homicídio), sorte que é representado, mediatizado, pelo "pai morto", em cujo nome, por sua vez, se conjugará o: NÃO MATARÁS. Ali se articulam as referências existentes entre o Deus cristão e monoteísta de caráter bíblico-judaico, só que conjugado conforme o Moisés Hebreu, e a tradição ática consolidada por Sófocles. Contudo, se este Deus, por suposição imortal, autorizar, em seu nome perversificante, ou seja, no regime perverso da privação, o sacrifício filicida, conforme requisitava o deus de Abrahão, ali se articulará esta tradição com o "modelo" sumério e caldeu (assírio/ e também judaico) do Pai da Horda; isto é, com GILGAMESCH. Então, iremos ter um Deus-Real que autorizaria, em nome da origem da paternidade, o homicídio, e o faria em nome de não poder haver jamais a privaçãodo prazer. Por esta razão, irá desmentir a lei do Pai. Entretanto, articulando-se o Moisés Egípcio ao seu Deus único, dito Ikhanaton, autorizar-se-á, por perversificação, o homicídio, só que em nome da virtude fundamentalista da severidade que é o princípio de todas as religiões, menos da cristã, quando verdadeira. E, aí, teremos, então, a foraclusão do princípio simbólico e significante do "pai-morto", isto porque iremos, previamente, rechaçar o seu: "NÃO MATARÁS". Assim sendo, iremos contrapor, nos termos de Lacan, a Lei do Pai ao "Kant com Sade"; e isto, de imediato, nos enviará, novamente, ao solo ático da dramaturgia de Sófocles, mais precisamente à Antígona, se bem que, em Lacan, este exemplo trágico (grego) se irá hiperdeterminar ao judaico e, também, porque não (?) gótico, princípio da ex-comunhão. Nele a condenação, por heresia, do judeu Barech Spinoza o fez ser tomado como "ícone" ético equivalente ao exemplo trágico de Antígona, se observado estritamente o ponto de vista da Ética da Psicanálise. Mas, aqui também Lacan não se limitava a reproduzir suas fontes, inclusive bíblicas, pois jamais procedeu qual um "escoliata" de Coimbra diante da leitura de (suas) fontes clássicas (como bem observou Victor Manuel de Aguiar e Silva); já que, como já dissemos, não as reproduz simplesmente. Ele, ao contrário, as reconfigura e interpreta. Assim sendo, das três possibilidades bíblicas que lhe são oferecidas, pois são as que existem acerca do DEUS, único e imortal (Ikhanaton/Moisés Egípcio, o Deus de Abrahão e o do Moisés Hebreu), opta pelo último, por conter em seu mandamento divino a Lei do Pai, isto é, o: NÃO MATARÁS. Além do que, esse Deus é mediatizável e, conforme a leitura grega do Evangelho, o é no presente. E, também, não irá autorizar, em seu nome, desde o Real, o Homicídio (o dever e/ou o direito de matar), seja isto feito em nome da opção pelo prazer (princípio renegatório e privador), seja praticado nos termos da opção pela virtude (Bem-Supremo, princípio da severidade). Logo, esse Deus cristão jamais convocará o dito "sujeito do prazer".

Nota 3. Não se deve confundir o fato de a expressão: "Nome(s) do Pai" ter óbvia inspiração bíblica, gótica e agostiniana com a suposição de Lacan adotá-la literalmente. Ou seja, não há uma equivalência estrutural entre a Santíssima Trindade Agostiniana e a borromeaneidade dos Nomes do Pai. Lacan a reconfigura em termos borromeanos para poder, então, articular as três dimensões das versões do pai. Por isto, iremos encontrar nos seus ESCRITOS (1966), e lá mais especificamente no texto: "A Instância da letra no Inconsciente ou a Razão desde Freud", não só a evidente inversão, ali ocorrida, do algoritmo saussureano, mas também uma erudita demonstração de intimidade com o percurso do saber lingüístico, e nele já existiam referências a Santo Agostinho, bem como elas também estão presentes no texto deste mesmo livro sobre as origens egóicas da agressividade. Portanto, lá existirão referências à Escola de Petrogardo (1910, Formalismo Russo), a Jakobson, a Leo Strauss, a Saussure, a Richards, a Starobinsky, além de Santo Agostinho entre outros. Contudo, será no capítulo intitulado de "Ciência e Verdade" que Lacan trará à cena, literalmente, a referência à Santíssima Trindade agostiniana. Só que lhe irá cobrar, como faltosa, do ponto de vista da psicanálise, uma articulação borromeana. Isto porque ela será uma totalidade fechada, paratodizante, por ser una e trina ao mesmo tempo, ao contrário da articulação por, impossibilidade e suplência, existente entre o Real, o Simbólico e o Imaginário. Deste modo, teríamos não o Pai-Real como uma essência do "sopro espiritual" a se manifestar no "pai-morto" e no filho, e sim, o fato de o impossível desse Pai, que não autoriza o homicídio, por ser imortal e único, desse Deus, enfim, vir a ser "dublado" pelo "assassínio do Pa" que, por isto, se tornará a metáfora da proibição do homicídio, e, nestes termos, legará, por via erótica, a falicidade, nos moldes da potência e da procriação, para que, Idealizado, possa, deformando este legado, fazê-lo comparecer, por via sintomática e consistente, em conformidade com o Desejo de Potência e/ou com a "Servidão", nos sujeitos humanos. Mais adiante, no mesmo texto, ao nos apresentar o que, via Koyré, seria a correção da declinação epistemológica do cartesianismo, Lacan voltará a explicitar que, de um ponto de vista lógico (para-completo e/ou para-consistente) a trindade agostiniana não é borromeana, e esta, embora trina, não é redutível à essência uma, isto porque nela o real por não parar de não se escrever se irá, paradoxalmente, mediatizar pela suplência simbólica, por esta não cessar de se escrever, em suma, por aquela via, o Real forçosamente se mediatizará.

       Portanto, como a Santíssima Trindade é uma totalidade fechada em que, na origem, o próprio Deus, único e imortal, será essência inseparável das partes, O "pai morto", se lido borromeanamente, converterá essa impossibilidade deificante numa articulação em que como "tesouro significante" virá em suplência ao impossível, em vez de ser a mera via de seu comparecimento como uma essência implícita.

Em suma, Jacques Lacan, obviamente, desde 1963, e novamente em 1966, se inspira na gótica nomeação agostiniana, como também em seu caráter trino, entretanto, não aposta na "fusão" ali ocorrida (do trino e do uno), já que prefere a isto a articulação borromeana entre impossível, contingente e consistente.


Bibliografia

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Prof. Dr. ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
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